Artigo da seção obras Se Você Jurar

Se Você Jurar

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoSe Você Jurar: 1930 | Ismael Silva / Nilton Bastos
Obra musical

Análise

O samba Se Você Jurar é uma composição de Ismael Silva (1905-1978) e Nilton Bastos (1899-1931), mas os registros fonográficos e legais apresentam ainda a parceria de Francisco Alves (1898-1952). Na verdade este samba da dupla é mais um entre as dezenas de casos em que o conhecido cantor compra ou grava determinada canção em troca da inclusão de seu nome nas parcerias. A canção é gravada pela primeira vez em dezembro de 1930 e lançada em janeiro de 1931, tendo como intérpretes justamente Francisco Alves e Mário Reis (1907 - 1981); a reunião dos dois cantores torna célebre esse registro fonográfico.

A letra da canção é composta pela dupla Silva e Bastos, sendo difícil definir o responsável por cada parte. Ela revela período de certo conflito e transição temática por que passa o samba carioca no decorrer da década de 1930. Nas duas décadas anteriores, o assunto da malandragem tem forte presença nas canções urbanas na capital da República. Esse era um tema cuja tradição na realidade remonta ao capadócio do século XIX, mas que a partir da década de 1920 fica muito associada aos sambistas da cidade do Rio de Janeiro. Nessa década os sambas apresentam uma atitude esquiva em relação ao universo do trabalho, muitas vezes fazendo evidente apologia à malandragem. Nos anos 1930 essa peculiaridade permanece, mas surgem dilemas e tensões com a possibilidade da “regeneração”. Essa é uma tônica reforçada pelo discurso político e ideológico do governo do presidente Getúlio Vargas (1882-1954), que, nesse período, faz apologia ao trabalho. O mundo da malandragem não desaparece, como ocorreria até no fim daquela década. Ao contrário, continua sendo central, porém ele pode ser diluído e amenizado. É o caso desse samba em que o malandro é capaz de deixar a orgia (malandragem) pelo amor de uma mulher. Contudo, se a atitude da mulher é fingida não vale a pena regenerar-se e sofrer. Experiente com o sofrimento, malandramente, ele exige uma “jura de amor”. Assim, evidentemente o conflito é tentar deixar a malandragem por uma causa maior, isto é, o amor; embora se reconheça que sempre é um jogo arriscado e imponderável:

“Se você jurar que me tem amor
Eu posso me regenerar
Mas se é para fingir, mulher
A orgia assim não vou deixar
Muito tenho sofrido
Por minha lealdade
Agora estou sabido
Não vou atrás de amizade
A minha vida é boa
Não tenho em que pensar
Por uma coisa à-toa
Não vou me regenerar
A mulher é um jogo
Difícil de acertar
E o homem como um bobo
Não se cansa de jogar
O que eu posso fazer
É se você jurar
Arriscar a perder
Ou desta vez então ganhar”.

A historiografia da música vincula a dupla de compositores, especialmente Ismael Silva, a uma tradição designada como “Turma do Estácio”, já que surge no bairro carioca de Estácio de Sá. Nessa vizinhança um grupo de jovens compositores empreende uma série de mudanças nas práticas sambistas, entre elas a organização da primeira Escola de Samba, a Deixa Falar (1928), que passa a exigir um outro tipo de samba, mais adequado à forma de desfile.

O fato mais relevante é que esses novos compositores são protagonistas de um processo de decantação do samba urbano, estabelecendo uma distinção entre um “estilo antigo” e o “estilo moderno”. O primeiro estaria vinculado ainda a algumas tradições folclóricas de caráter rural-religioso e ao maxixe, em contraposição à dicção eminentemente urbana do samba do Estácio. Essa tensão se revela no famoso diálogo-confronto entre Ismael Silva e Donga (1890-1974), autor de Pelo Telefone (1917), ocorrido na Sociedade Brasileira de Autores Compositores e Escritores de Música (Sbacem). Nele Donga defende Pelo Telefone como samba, classificado, contudo, por Silva como maxixe. De seu lado, o compositor do Estácio avalia sua canção Se Você Jurar como samba verdadeiro, considerado, no entanto, por Donga simplesmente como marcha. Na realidade o que está em jogo ali são duas concepções diversas, mas complementares, presentes transições culturais que ocorrem na música popular carioca naquele período.

A expressão dessas mudanças é tão significativa que alguns etnomusicólogos denominaram essa nova maneira de fazer samba como “paradigma do Estácio”. De acordo com esse paradigma o ritmo contramétrico,1 marcado principalmente pela batida do tamborim (que expressariam as tradições africanas), e a melodia se articulam de tal modo que as acentuações ocorrem conforme o encadeamento dos dois elementos. Esse fato exige do intérprete uma forma diferente de cantar – uma nova “bossa” –, aproximando-se da fala cotidiana e afastando-se das prolongações vocálicas comuns na época. Essa nova forma de pensar, compor e cantar samba acaba prevalecendo e se torna rapidamente durante a década de 1930 o modelo do samba carioca.

Além da gravação original de Francisco Alves e Mário Reis e a do próprio compositor, gravam a canção Vadico (1910-1962), Léo Peracchi (1911-1993) e Orquestra, Elza Soares (1930) & Miltinho (1928-2014), Ciro Monteiro (1913-1973) e Jorge Veiga (1910-1979), MPB-4, Escola de Samba Império Serrano, Jards Macalé (1943), Trovadores Urbanos, Teca Calazans (1940), Beth Carvalho (1946) com Wilson Moreira (1936) & Walter Alfaiate (1930-2010), João Bosco (1946).

Nota
1 Segundo o musicólogo Carlos Sandroni, em seu livro Feitiço Decente, o ritmo contramétrico é um padrão rítmico em tempo 2/4 com os tempos fortes nas contagens pares do ritmo (segunda, quarta, sexta e oitava semicolcheias).

Ficha Técnica da obra Se Você Jurar:

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • SE Você Jurar. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra43831/se-voce-jurar>. Acesso em: 14 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7