Artigo da seção obras A Rosa do Povo

A Rosa do Povo

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoA Rosa do Povo: 1945 | Carlos Drummond de Andrade
Livro

A Rosa do Povo é o quinto livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Após a boa recepção de sua obra de estreia, Alguma poesia (1930), seguida por Brejo das almas (1934), o poeta inicia a chamada “fase participante” com Sentimento do mundo (1940), culminando na publicação de A Rosa do Povo. Os poemas são escritos entre 1943 e 1945 e publicados antes, em jornais e revistas. Vive-se um momento histórico conflituoso, com os últimos anos do Estado Novo (1937-1945) e a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A Rosa do Povo é o ponto máximo da fase claramente política do poeta e, também, a última obra em que se mostra explícita.

De formas diversas, o horror da guerra e a esperança na vitória contra o nazi-fascismo aparecem em obras do mesmo período de outros poetas brasileiros. É o caso de Murilo Mendes (1901-1975) em livros como Mundo Enigma (1945), e Poesia Liberdade (1947). As posições políticas de Drummond também se apresentam em poemas contra a exploração do capitalismo e a favor de uma revolução socialista. Nos anos seguintes, contudo, estas posições tornam-se menos evidentes, ocorrendo uma alteração substancial nos livros posteriores, como Claro Enigma (1951).

A Rosa do Povo é composta por 55 poemas – a obra mais extensa do poeta – nos quais Drummond experimenta diferentes formas para os motivos e temas que perpassam sua trajetória poética. Há, por exemplo, poemas metalinguísticos, que refletem sobre a própria linguagem, como “Procura da Poesia”: "Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. / Estão paralisados, mas não há desespero”. Há poemas engajados, que descrevem acontecimentos, como “Com o Russo em Berlim”:

Minha boca fechada se crispava.
Ai tempo de ódio e mãos descompassadas.
Como lutar, sem armas, penetrando
                             com o russo em Berlim?

Também há poemas memorialísticos, nos quais o eu lírico recupera a infância e a convivência familiar, como “Retrato de Família”:

Esses estranhos assentados,
meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
numa sala que se abre pouco.

Poemas subjetivos, nos quais o sujeito se autoanalisa, estão presentes em “Versos à Boca da Noite”:

Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva...
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.

Poemas-homenagem que saúdam outros artistas, estão em  “Mário de Andrade desce aos infernos”:

O meu amigo era tão
de tal modo extraordinário,
cabia numa só carta,
esperava-me na esquina,
e já um poste depois.

A abordagem destes temas não é estanque e, mesclam-se num mesmo poema, como em “A Flor e a Náusea”, “O Elefante”, “No País dos Andrades” ou “Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin”. Além disso, os textos de A Rosa do Povo são longos, calcados em estruturas narrativas (“A Morte do Leiteiro”) ou, no caso exclusivo de “Noite na Repartição”, em estruturas dramáticas. Muitos poemas são em versos livres e discursivos, embora exista exceções como “Áporo”, soneto em pentassílabos, ou “O caso do Vestido”, formado por dísticos de 7 sílabas poéticas.

Para a maioria dos críticos, A Rosa do Povo é um momento-chave na poesia drummondiana. Sérgio Milliet (1898-1966) aponta a maturidade da obra à medida que o poeta deixa a graça e a leveza de sua primeira fase para apresentar uma linguagem capaz de refletir sobre seu tempo sem demagogia. Segundo Antonio Candido (1918), essa maturidade está na capacidade de Drummond sintetizar as preocupações com os problemas sociais e individuais, que aparecem separadas nas obras anteriores, fundindo “eu” e “mundo” de maneira não-idealizada. Por outro lado, para José Guilherme Merquior (1941-1991), apesar do sentimento de angústia perante as injustiças do mundo (como em “A Flor e a Náusea”), A Rosa do Povo também revela certo otimismo e amor à vida (como em “Passagem da Noite”), sentimentos explorados em muitos poemas de seus livros posteriores. Por sua vez, Iumna Maria Simon (1943) aponta que os dois princípios descritos por Antonio Candido oscilam no livro com a tensão entre a participação política efetiva, que tende a um discurso prosaico, e a construção poética.

A experiência radical de A Rosa do Povo, em sua multiplicidade de formas e questões, influencia muitos artistas brasileiros nas décadas seguintes. Um poeta como Emanuel de Moraes (s.d.-2011), por exemplo, encontra nos versos de “Procura da Poesia” uma das fontes da conceituação da chamada Geração de 1945, para a qual os acontecimentos mais imediatos não são matéria de poesia. Assim como Drummond, João Cabral de Melo Neto (1920-1999) concilia as preocupações artísticas e político-sociais em suas próprias obras, como em O cão sem plumas (1950). O poeta Décio Pignatari (1927-2012), por sua vez, observa em A Rosa do Povo que o engajamento político de Drummond ganha contornos mais precisos à medida que toma consciência da crise da própria poesia moderna.

Ficha Técnica da obra A Rosa do Povo:

  • Data de publicação
    • 1945
  • Autores
  • Classificação
    • primeiras edições
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (10)

  • ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.
  • BRAYNER, Sônia (Org.). Fortuna crítica: Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
  • CANDIDO, Antonio. Inquietudes na poesia de Drummond. In: ______. Vários escritos. 4. ed. São Paulo: Duas Cidades; Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2004.
  • GLEDSON, John. Poesia e poética em Carlos Drummond de Andrade. São Paulo: Duas Cidades, 1981.
  • LIMA, Luiz Costa. Lira e antilira: Mário, Drummond, Cabral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
  • MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.
  • MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
  • MERQUIOR, José Guilherme. Verso universo em Drummond. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
  • PIGNATARI, Décio. Contracomunicação. Cotia: Ateliê, 2004.
  • SIMON, Iumna Maria. Drummond: uma poética do risco. São Paulo: Ática, 1978.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Rosa do Povo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra43380/a-rosa-do-povo>. Acesso em: 21 de Jul. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7