Artigo da seção obras Broqueis

Broqueis

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoBroqueis: 1893 | Cruz e Sousa
Livro
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Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Análise

Publicados na sequência do volume de prosa lírica Missal (1893), os 54 poemas de Broquéis (1893), de Cruz e Sousa (1861-1898), são considerados um marco da estética simbolista na poesia brasileira. A obra explora as divisas temáticas do movimento e eleva a musicalidade do verso à excelência, com tensão de sentido até então desconhecida de seus contemporâneos.

Um exame detido dos núcleos temáticos de Broquéis sugere a convivência de uma inspiração baudelairiana diluída pelo decadentismo (como a dor existencial impotente e desesperançada dos poemas “Lubricidade”, “Lésbia”, “Afra” e “Judia”) com elementos do realismo poético português (“Múmia”, “Cristo de Bronze”, “A Dor”) e mesmo de um romantismo tardio (“Velhas Tristezas” e “Visão da Morte”). Todos eles organizados entre os extremos da escatologia derivada da dissolução moral e da busca de uma inefável pureza mística.

A zona cinzenta que por vezes se anuncia traz alguns dos melhores momentos do livro, como em “Sonho Branco” e “Alda”. No primeiro, o “Sonho virgem” a cantar no peito do poeta revela-se um mesquinho

De linho e rosas brancas vais vestido

[...] És do luar o claro deus eleito

Das estrelas puríssimas nascido

“Sonho branco de quermesse”, cuja inocência sinaliza uma infantilidade estéril.  No segundo, a imaculada virgindade faz pensar nas monjas “Salvas do Vício e do Pecado salvas, / Amortalhadas na pureza clara”. Em sentido oposto, a mesma esfera de idealidade, de “Formas vagas, nebulosidades” (“Carnal e Místico”), torna-se visível no apagar das estrelas e na dormência mística de uma treva em que a “Essência de eternas virgindades!” mistura-se a “intensas quimeras do desejo”.

O drama de Broquéis mescla vício e virtude, contingência e idealidade e é verificável no aproveitamento que o poeta faz da forma do soneto, com seu simbolismo musical e imagético. Em “Braços”, imagens e construção sonora dos versos sobrepõem-se de tal maneira à ordem silogística do soneto, que quartetos e tercetos deixam pouco espaço para as transições entre conceito e significado. Em outros momentos, as circunvoluções do som parecem mimetizar o grotesco de seus temas como nos relatos de fundo decadentista. Mais uma vez, chama a atenção a transformação da forma neoclássica e racionalizante do soneto em veículo de liberação de sentido. Tal liberação, na Europa, já se constitui em torno da liberdade métrica e estrófica ou de exploração prosaica das formas fixas. Sob essa influência, embora partidário de um radicalismo conceitual no plano sonoro, Cruz e Sousa mostra-se insistente no rigor formal que, no Brasil, configura o cerne do parnasianismo.

A crítica dedicada à obra de Cruz e Sousa aborda o conflito entre som e sentido. O poeta é aclamado em seu pequeno círculo de admiradores e transformado em ponto de referência da poesia “maldita” na capital e fora dela, nos cinco anos entre a publicação de Broquéis e sua morte (1898). Conhece, em vida, a consagração dos epítetos de “Cisne Negro” e “Poeta Negro”, que acrescentam uma nota de exotismo à riqueza de seu verso.

O antropólogo francês Roger Bastide (1898-1974), anos após a morte de Cruz e Sousa, anota os acentos patéticos de sua obsessão pela brancura. Em Broquéis, está presente na pureza idealizada. Aparece figurada como simples brancura, como em “Ó Formas alvas, brancas, Formas claras”, do verso inicial de “Antífona”, poema de abertura do livro, ou pela invocação de mármores, neves, nuvens e pérolas. Bastide assinala 169 registros da brancura em toda a obra do poeta. O antropólogo relaciona-os aos dogmas do parnasianismo, que professa o apuro técnico e a  primazia da forma sobre o conceito. Aponta-os no testemunho pungente e desesperado da consciência de cor de Cruz e Sousa. Presente em “Emparedado”, uma das peças mais dramáticas de Evocações, Bastide observa a “expressão de uma imensa nostalgia: a de se tornar ariano”. Desejo que funciona como ponto de partida para a leitura de sua poesia.

Ivone Daré Rabello oferece um dos estudos mais completos de sua obra, questionando o estigma racial do poeta (o título do livro invoca a figura de um escudo de batalha, o dito “broquel”) na formação social brasileira. Em Um Canto à Margem1, faz análise do percurso e das escolhas estéticas de Cruz e Sousa com base na consciência que ele tem de sua marginalidade. Tal consciência contribui para a formação de um simbolismo singular. Nele, o cultivo da forma poética, segundo os cânones de seus potenciais senhores, apresenta-se no aproveitamento dos lugares-comuns do estilo, transformando a consciência que se aliena dos processos sociais concretos (um dos pontos de partida do simbolismo) em fantasmagoria e no horror da violência que lhe é imposta.

Figura ímpar no horizonte da poesia brasileira, Cruz e Sousa encontra nos elementos da estética de cultivo aristocrático e sectário uma forma de exprimir a exclusão a que o negro é submetido na sociedade brasileira.

Notas

1 RABELLO, Ivone Daré.  Um canto à margem: uma leitura da poética de Cruz e Sousa. São Paulo: Nankin: Edusp, 2006. 

Ficha Técnica da obra Broqueis:

Fontes de pesquisa (4)

  • ANDRADE, Murici. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 3. ed., revista e ampliada. São Paulo: Perspectiva, 1987.
  • BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira: seguida de uma antologia. Posfácio de Otto Maria Carpeaux. São Paulo: Cosac Naify, 2009.
  • RABELLO, Ivone Daré.  Um canto à margem: uma leitura da poética de Cruz e Sousa. São Paulo: Nankin: Edusp, 2006. 
  • RABELLO, Ivone Daré. Entre o inefável e o inefando. Florianópolis: FCC, 1999.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BROQUEIS . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra43317/broqueis>. Acesso em: 27 de Mai. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7