Artigo da seção obras Vidas Secas

Vidas Secas

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoVidas Secas: 1938 | Graciliano Ramos
Livro
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Reprodução fotográfica Horst Merkel

Vidas Secas (1938) é um livro do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), considerado por parte da crítica literária como sua obra-prima e como ponto culminante do Romance de 30, produção ficcional que, entre as décadas de 1930 e 1940, tematiza as carências das regiões menos desenvolvidas do Brasil. Com seus recursos narrativos, o livro elabora um retrato contundente dos vínculos entre homem, natureza e política diante da seca nordestina.

Dividido em 13 capítulos de estruturas independentes, o romance narra a vida dos personagens Fabiano, Sinhá Vitória, O menino mais novo, O menino mais velho e a cachorra Baleia, membros de uma família sertaneja que foge da estiagem do Nordeste brasileiro. Embora haja independência na leitura dos capítulos intermediários, a narrativa pode ser interpretada como circular ou pendular: no primeiro capítulo, “Mudança”, ocorre a primeira retirada até a fazenda onde a família se estabelece por um tempo e de onde escapam no último capítulo, “Fuga”, quando o grupo parte em nova retirada.

Pela proximidade temática, o romance se filia a outras obras da época, como A Bagaceira (1928), de José Américo de Almeida (1887-1980), e O Quinze (1930), de Rachel de Queiroz (1910-2003). No entanto, é visto como único pelas soluções formais com que apresenta as mazelas sociais e suas consequências mais profundas. Ainda que retratados como seres brutos, o narrador apresenta-os com desejos, aspirações e frustrações. A partir desse recurso, os problemas que caracterizam toda uma região brasileira são expostos na forma de dramas individuais.

A precariedade da família é caracterizada sobretudo pela linguagem. A falta da palavra nas interações entre os membros da família se reflete inclusive no papagaio apresentado no primeiro capítulo: “Não podia deixar de ser mudo. Ordinariamente a família falava pouco. [...] O louro aboiava, tangendo um gado inexistente, e latia arremedando a cachorra”. 

Ainda assim, é significativa a presença da voz das personagens no romance. Os diálogos diretos são poucos, mas Fabiano, Sinhá Vitória, os filhos e até mesmo a cadela Baleia emergem por meio do discurso indireto livre, amplamente empregado pelo narrador. Na ausência do discurso, até o animal de estimação da família tem suas reflexões interiores trazidas para o texto.

A onisciência seletiva, focando ora um, ora outro personagem, permite que todos se expressem, como ocorre, por exemplo, com mãe (“Cansada, meio morta de fome, carregava o filho mais novo, o baú e a gaiola do papagaio. Fabiano era ruim”) e com o menino mais novo (“Quando fosse homem, caminharia assim, pesado, cambaio, importante, as rosetas das esporas tilintando. [...] O menino mais velho e Baleia ficariam admirados”).

Para críticos literários como Antonio Candido (1918-2017) e Alfredo Bosi (1936), o narrador assume a voz dos personagens em muitos momentos, mas não se identifica com eles. Bosi considera essa escolha parte da consciência do autor de que diferentes classes separam narrador e personagens. Desse modo, o papel do narrador não é de se colocar no lugar dos personagens, mas de demonstrar empatia pela situação deles.

Um dos principais debates críticos envolvendo o livro diz respeito à estrutura da narrativa, com capítulos sem causalidade evidente entre si e com marcações discretas do tempo. Seguindo a expressão cunhada por Rubem Braga (1913-1990), que classifica Vidas Secas como um “romance desmontável”, e a pesquisa de Letícia Malard, alguns estudiosos argumentam que as seções poderiam ser lidas em qualquer ordem. Essa perspectiva é reforçada pelo fato de o autor publicar três capítulos como contos: em 1937, “Baleia” e “Cadeia” no periódico carioca O Jornal; em 1946, esses dois textos e “Festa”, no volume Histórias Incompletas

Para outros leitores, porém, a independência não é completa, pois há remissões de um capítulo a outro: a prisão de Fabiano, por exemplo, ocorre “algum tempo antes” de “Inverno” e “um ano antes” de “O Soldado Amarelo”. Em “Fuga”, a família se despede do ambiente retratado ao longo dos capítulos anteriores, “onde tinha vivido alguns anos”. Nesse sentido, Antonio Candido reconhece no romance a “estrutura de pequenos quadros justapostos” e Lúcia Miguel Pereira identifica nele uma “série de quadros”1. Já Luís Bueno argumenta se tratar de “um romance cuidadosamente montado”2, com capítulos espelhados: tendo “Inverno” como centro, os demais capítulos se identificam em pares – o primeiro com o último, o segundo com o penúltimo e assim por diante.

As diferentes leituras levam à caracterização do movimento ora circular ora pendular da narrativa. Isso porque os capítulos inicial e final se contrapõem: a família chega ao sítio após um período de carências causadas pela seca e, inversamente, parte do sítio, após um período de segurança, temendo novas carências. Nessa estrutura está representada a dependência da natureza e o ciclo de opressão e injustiça a que os personagens estão condenados. Figuras como o soldado amarelo e o patrão, vistas pelos olhos de um Fabiano com consciência incipiente da injustiça, são representantes de um poder que comparece apenas para oprimir, jamais para intervir ou assistir. Ideia semelhante encontra-se na formulação que daria título ao livro, “Um mundo coberto de penas”, com referência tanto às aves de arribação que anunciam dificuldades futuras como à condenação ao sofrimento.

Pelo modo como retrata o homem sertanejo, o romance de Graciliano Ramos é aproximado à ficção de Guimarães Rosa (1908-1967), que também busca recursos estilísticos para lhe dar voz. Como uma das mais fecundas obras brasileiras, o romance também estabelece diálogo com a série Retirantes, do pintor Candido Portinari (1903-1962) e o poema Morte e Vida Severina (1955), de João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Em 1963, o livro é adaptado para cinema em filme homônimo dirigido por Nelson Pereira dos Santos (1928-2018).

Se a estrutura da narrativa de Vidas Secas ilustra a gravidade dos problemas da região Nordeste, os recursos estilísticos empregados no texto conferem dignidade aos personagens e garantem ao homem sertanejo um retrato de profundidade singular na literatura brasileira.

Notas

1. PEREIRA, Lúcia Miguel. Vidas Secas. Boletim de Ariel, ano VII, n. 8, maio 1938, p. 221.

2. Bueno, Luís. Uma História do Romance de 30. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Campinas:Editora da Universidade de Campinas, 2006, p. 658.

Ficha Técnica da obra Vidas Secas:

Fontes de pesquisa (13)

  • ALVES, Fábio Cesar. Armas de papel: Graciliano Ramos, as Memórias do cárcere e o Partido Comunista Brasileiro. São Paulo: Fapesp; Editora 34, 2016.
  • BOSI, Alfredo. Céu, Inferno: Ensaios de Crítica Literária e Ideológica. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2003.
  • BRAGA, Rubem. Vidas Secas. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 14 ago. 1938, p. 3.
  • BRAYNER, Sônia (Org.). Graciliano Ramos. Brasília:Instituto Nacional do Livro; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
  • BUENO, Luís. Uma História do Romance de 30. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Campinas: Editora da Universidade de Campinas, 2006.
  • CANDIDO, Antonio. Ficção e Confissão: Ensaios sobre Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006.
  • CANDIDO, Antonio. A nova narrativa. In: CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006.
  • CARPEAUX, Otto Maria. Visão de Graciliano Ramos. Ensaios Reunidos, vol. 1: 1942-1978: de A Cinza do Purgatório até Livros na Mesa. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora; Topbooks, 1999.
  • GARBUGLIO, José Carlos et. al. Graciliano Ramos. São Paulo: Ática, 1987.
  • GIMENEZ, Erwin Torralbo. Graciliano Ramos – o Mundo Coberto de Penas. 2005. Tese (Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. 
  • MALARD, Letícia. Ensaio de Literatura Brasileira: Ideologia e Realidade em Graciliano Ramos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1976.
  • PEREIRA, Lúcia Miguel. Vidas Secas. Boletim de Ariel, Rio de Janeiro, ano VII, n. 8, maio 1938, p. 221.
  • SANTOS, Fábio José dos. Linguagem, Poesia e Resistência em Vidas Secas. Maceió: Edufal, 2009.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • VIDAS Secas. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra23726/vidas-secas>. Acesso em: 29 de Fev. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7