Artigo da seção obras Crônica da Casa Assassinada

Crônica da Casa Assassinada

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoCrônica da Casa Assassinada: 1959 | Lúcio Cardoso
Livro
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Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Análise

Crônica da Casa Assassinada (1959) é a obra máxima do romancista, poeta e dramaturgo Lúcio Cardoso (1913-1968). De acordo com o pesquisador Mario Carelli (1951-1994), pode-se dizer que o “percurso humano e artístico” de Cardoso “desemboca” nesse romance.Trata-se do ápice da trajetória iniciada em 1934, com Maleita, afinado com a tendência regionalista dominante na época. Crônica leva às últimas consequências o caminho psicológico-existencial de Luz no Subsolo (1936), caracterizado por Carelli como um “rascunho apaixonante”. É o que se nota, também, em textos como a novela Mãos Vazias (1938) e na trilogia composta por Inácio (1944), O Enfeitiçado (1954) e o não publicado Baltazar, que servem de laboratório para a criação da Crônica.

Sua produção poética, coligida em 1941, 1944 e, postumamente, em 1982, antecipa aspectos do estilo maduro, com a temática visionária e a elaborada dicção musical. Além disso, as intensas pesquisas de Cardoso em teatro e cinema representam o percurso das inquietações latentes na maturidade. Por fim, experiência pessoal e criação, registradas em correspondências, entrevistas e nos Diários iniciados em 1949, colaboram para distinguir sua obra da de outros escritores estreantes na década de 1930.

De fato, como aponta o crítico Alfredo Bosi (1936), uma temática ligada a questões religiosas e espiritualistas, imersa na liberdade formal conquistada pelas vanguardas em uma “descida aos infernos da angústia e da culpa”, aproxima o livro de romancistas e poetas como Cornélio Pena (1896-1958), Otávio de Faria (1908-1980), Adonias Filho (1915-1990), e Vinicius de Moraes (1913-1980), interlocutores e amigos de Cardoso. Persiste, contudo, a dificuldade de enquadrá-lo numa das correntes do romance nacional. O complexo cruzamento de características literárias não permite reduzir sua singularidade à ideia de “romance introspectivo” nem às tendências desenvolvidas pelos interlocutores mencionados.

No centro desse cruzamento, o leitor depara-se com a narrativa desdobrada entre a turbulências psicológicas e o retrato da ordem social em degradação. Ou, entre a produção de “retratos espectrais do ser”, como sugere o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) em poema-homenagem a Cardoso, e a exposição da “metástase moral da chácara dos Meneses”, nas palavras do crítico Eduardo Portella (1932). No núcleo da ação, encontra-se a chácara decadente, localizada em uma cidade provinciana de Minas Gerais, e cenário de uma trama pontuada por pecado, morte e doença, fruto da convivência entre três irmãos (Demétrio, Valdo e Timóteo) e as esposas (Ana e Nina). Nina, mulher de rara beleza, vem do Rio de Janeiro e é incapaz de se adaptar à pasmaceira interiorana. Casa-se com Valdo acreditando em sua riqueza, mas logo descobre a decadência dos Meneses. Protagonista da obra, é elemento desestruturador da ordem familiar, provocando inveja e desafetos. Entre os serviçais que testemunham os acontecimentos, o jardineiro Alberto tem uma relação adúltera com Nina. Da relação, ao que tudo indica, nasce André, personagem que abre o livro em chave cíclia e ralata a morte de Nina, fim da trama cronológica. Incesto entre mãe e filho é o tabu em torno do qual enredo e forma se organizam. Cabe ao leitor destrançar a verdade ficcional.

Nas palavras de Bosi, Crônica da Casa Assassinada representa o caminho para “uma forma complexa de romance em que o introspectivo, o atmosférico e o sensorial não mais se justapusessem mas se combinassem no nível de uma escritura cerrada, capaz de converter o descritivo em onírico e adensar o psicológico no existencial”. É o que se nota no tom metafórico com que arrasta os personagens entre opostos: o pecado e a esperança de salvação, a procura de estabilidade e a condenação à mudança, o desejo de conhecer e a imposição do mistério. Também na diluição das fronteiras entre a realidade aparente e a verdade obscura dos fatos. Como sugere a caracterização de André sobre o movimento de suas lembranças, a estrutura narrativa apresenta-se como uma “gigantesca espiral colorida”. Todo o enredo é contado com base em cartas, diários e depoimentos, recolhidos pela figura de um editor desconhecido. Assim, as memórias e os relatos dos moradores são cruzados com os depoimentos de um farmacêutico, um médico, do padre Justino e com o que se depreende da correspondência de Nina com um coronel. Desse modo, constrói-se um amplo concerto de vozes, atravessado por múltiplas temporalidades e ecos do fluxos narrativo do escritor norte-americano William Faulkner (1897-1962).

Com a publicação da Crônica da Casa Assassinada inaugura-se uma duradoura polêmica. Conforme Carelli, a polarização inicial é ocasionada, pelo efeito perturbador do conteúdo do livro. Além disso, é resultado das entrevistas a que o autor submete os meios literários cariocas desde o ano anterior à publicação da Crônica.

Como consequência, em artigo no Diário Carioca de maio de 1959, o crítico pernambucano Olívio Montenegro (1896-1962) abre um debate, atacando o caráter imoral do romance.  Reações favoráveis e desfavoráveis chegam a ser inventariadas pelo crítico Walmir Ayala (1933-1991). Escritores e intelectuais como Manuel Bandeira (1886-1968), Lêdo Ivo (1924-2012) e Aníbal Machado (1894-1964) saem em defesa da obra, elogiando a profundidade temática, a riqueza formal e a inovação.

A polêmica continua no meio jornalístico, que tende à segunda visão. Esta torna-se hegemônica à medida que a obra passa a ser analisada pela crítica universitária, sob diversos pontos de vista. Com efeito, o romance é tido como um dos mais importantes da história da literatura brasileira, ainda que consideradas certas irregularidades. Entre elas, a predominância da voz do autor em relação às das personagens ou a sua dinâmica verbal prolífica.

Crônica da Casa Assassinada ocupa uma posição singular no romance brasileiro do século XX. Como afirma Bosi, a obra “desmente com brio” um estereótipo que se teria construído internacionalmente “em torno de um romance brasileiro ainda naturalista e centrado nos aspectos considerados pitorescos na vida dos trópicos”. Ao mesmo tempo, seria equivocado classificá-lo como “intimista”. Seu trânsito entre o local e o universal, o existencial e o moral faz-se sentir em projetos literários que superam demarcações. Prova maior é a obra da romancista, contista e cronista Clarice Lispector (1920-1977), cuja linguagem é devedora do livro.

Ficha Técnica da obra Crônica da Casa Assassinada:

Fontes de pesquisa (10)

  • ALMEIDA, Teresa de. Marcas do texto: Julien Green e outro. In: CARDOSO, Lúcio; CARELLI, Mario (Coord.). Crônica da casa assassinada. Edição crítica. Madri: Archivos, 1991.
  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 8ª. ed. São Paulo: Cultrix, 1994.
  • BRAYNER, Sonia. A construção narrativa: uma gigantesca espiral colorida. In: CARDOSO, Lúcio; CARELLI, Mario (Coord.). Crônica da casa assassinada. Edição crítica. Madri: Archivos, 1991.
  • BRAYNER, Sonia. Um grande folhetim tumultuosamente filosófico. In: CARDOSO, Lúcio; CARELLI, Mario (Coord.). Crônica da casa assassinada. Edição crítica. Madri: Archivos, 1991.
  • CARELLI, Mario. Crônica da casa assassinada: a consumação romancesca. In: CARDOSO, Lúcio; CARELLI, Mario (Coord.). Crônica da casa assassinada. Edição crítica. Madri: Archivos, 1991.
  • CARELLI, Mario. A música do sangue. In: CARDOSO, Lúcio; CARELLI, Mario (Coord.). Crônica da casa assassinada. Edição crítica. Madri: Archivos, 1991.
  • CARELLI, Mario. A recepção crítica. In: CARDOSO, Lúcio; CARELLI, Mario (Coord.). Crônica da casa assassinada. Edição crítica. Madri: Archivos, 1991.
  • CARELLI, Mario. O resgate de um escritor maldito. In: CARDOSO, Lúcio; CARELLI, Mario (Coord.). Crônica da casa assassinada. Edição crítica. Madri: Archivos, 1991.
  • PORTELLA, Eduardo. A linguagem prometida. In: CARDOSO, Lúcio; CARELLI, Mario (Coord.). Crônica da casa assassinada. Edição crítica. Madri: Archivos, 1991.
  • SEFFRIN, André. Uma gigantesca espiral colorida. In: CARDOSO, Lúcio. Crônica da casa assassinada. Edição comemorativa dos 40 anos da primeira publicação, 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CRÔNICA da Casa Assassinada. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra16184/cronica-da-casa-assassinada>. Acesso em: 18 de Jan. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7