Artigo da seção obras 500 Almas

500 Almas

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criação500 Almas: 2004 | Joel Pizzini
Filme

500 Almas (2004) é um documentário dirigido por Joel Pizzini (1960). Produzido pela Grifa Cinematográfica, é o primeiro longa-metragem do diretor. Realizado por meio do Prêmio de Incentivo à Pesquisa – Fundação Rockfeller / Vitae, Lei do Audiovisual e Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, entre outros. O filme investiga a cultura da etnia milenar Guató, cujos descendentes vivem na região do atual pantanal mato-grossense.

A história e a cultura Guató são apresentadas ao espectador, de maneira fragmentada. Essa opção narrativa traduz a fragilidade da memória desse povo e cria um mosaico incompleto que permite acessá-la. O documentário destaca os esforços dessa população, em conjunto com pesquisadores, para ser reconhecida. Declarados oficialmente extintos na década de 1960, e vivendo de forma anônima e dispersa no pantanal mato-grossense, os guatós são identificados pela missionária Ada Gambarotto (1955) nos anos de 1970. Inicia-se, assim, um processo bem-sucedido junto à Fundação Nacional do Índio (Funai) para recuperar seu antigo território. Durante esse processo, um de seus representantes, Celso, é assassinado, mas sua morte não é esclarecida nem julgada. 500 Almas apresenta, também, a história do encontro da descendente dos guatós, Josefina, com a linguista Adair Pimentel (1931), e os movimentos de recuperação e preservação da língua guató. As imagens dos entrevistados alternam-se com as do acervo do Ethnologisches Museum – Staatliche Museen zu Berlin [Museu Etnográfico de Berlim], com fragmentos da peça A Controvérsia (1550), de Jean-Claude Carrière (1931), e imagens da região do pantanal nos dias atuais. As primeiras foram recolhidas no início do século XX, pelo etnólogo Max Schimidt (1874-1950); A Controvérsia foi dirigida e interpretada pelo ator Paulo José (1937) e traz a discussão do século XVII, sobre os índios possuírem ou não alma, retomada no título do filme; e as imagens atuais do pantanal, marcam a justaposição de tempos e espaços no mosaico de Pizzini.

A importância das questões relativas à linguagem explicita-se logo nos primeiros momentos do filme.  A voz de Adair Pimentel, não identificada, ecoa em conjunto com outras vozes em alemão e guató. A pesquisadora diz: “Nas minhas pesquisas desconfiei que a língua era uma língua tonal. As sílabas têm notas musicais mais altas e mais baixas. Em Guató você não diz que ’as flores foram trazidas’, mas diz que ‘alguém trouxe as flores’, mesmo que você não saiba quem é o alguém”. A câmera sobrevoa o pantanal e ouve-se ao fundo uma música instrumental. Em seguida, entra em uma sala daquele que, saberemos, ser o Museu de Etnologia de Berlim, e retorna para uma cena externa na qual um homem pronuncia palavras em guató, enquanto a música continua. As imagens alternam-se entre o pantanal, figuras humanas e os objetos do museu, enquanto outras vozes surgem.

Angeluccia Bernardes Habert define 500 Almas como um filme etnopoético, marcado por um “movimento do tempo, como imagem móvel da eternidade, uma eternidade manifesta na permanência da natureza e no silêncio em relação à presença do som”1. Habert aponta a força desse movimento: "Semelhantemente ao texto poético, o filme ganha uma presença polícrona, e expressa simultaneidade, ao criar um mosaico de elementos com proporções diferenciadas. Essa condução, no entanto, foge do empirismo e da objetividade comuns ao filme dito etnográfico, e favorece uma leitura múltipla, um tanto ou quanto diferenciada, que resulta nada linear para o espectador”2.

Habert destaca a participação do poeta Manoel de Barros, que, sem ter sido identificado, aparece no centro da câmera e, com o som sincronizado, diz: “Acho guató uma palavra linda. Eu comecei a simpatizar por esse negócio de guató por causa da palavra propriamente dita, sabe”3. Estas palavras oferecem pistas para apreender a cartografia poética, apresentada por Pizzini. É a partir da sonoridade que a narrativa se desenvolve, e, por meio desses sons estranhos ao espectador, que aos poucos ganham corpo em forma de palavras, que essa cultura é apresentada. Um corpo que está se diluindo. Seguindo as análises propostas por Habert, os primeiros minutos do filme parecem deixar claro essa situação: são “vozes fantasmáticas”, “sem corpo” que “saem de nenhum lugar”3.

Percebe-se, ao longo do documentário, como uma série de gestos, no trabalho da pesca por exemplo, são praticamente idênticos entre os que conhecem e os que não conhecem a língua guató. Trata-se, nesse sentido, de uma  evidência da duração dessa cultura, por meio de uma memória inscrita no corpo. De acordo com Andréa França “500 almas mostra a permanência flutuante e plural da memória guató, do imaginário da aldeia que, desencarnado do corpo indígena, quer encontrar o índio, quer dar-lhe visibilidade, de modo a recuperar no corpo a memória e a luta enunciada nas vozes. Como se cada personagem do documentário fosse uma testemunha sem fala mas com voz”4.

Exibido em festivais como a 39 ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e 12º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, o filme estreia em circuíto comercial em 29 de julho de 20075. Recebe, entre outros, prêmios como: Melhor Pesquisa pela Fundação Rockfeller, Rio de Janeiro; Margarida de Prata pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Rio de Janeiro; Melhor Filme no Festival do Rio e Melhor Documentário Latino-Americano no Festival de Mar del Plata.

Notas
1 HABERT, Angeluccia Bernardes. Intersecção entre forma e informação: um filme etnopoético. Revista Alceu, Rio de Janeiro, n.16., p. 112, 2008.
2 Ibidem, p.112.
3 Ibidem, p.109. 
4 FRANÇA, Andréa. Serras da Desordem e 500 Almas: resíduos de rostos, de gestos. Revista Periferia: educação, cultura & comunicação, Rio de Janeiro, v.1; n.1., 2009. 
5 Informação retirada do site < www.cinemabrazil.com.br >, no qual é possível verificar o convite público feito por Joel Pizzini para as pré-estreias e estreia de 500 Almas , no Rio de Janeiro e São Paulo. Disponível em: < http://www.cinemabrazil.com.br/pipermail/cinemabrasil/2007-June/008519.html >. Acesso em: 24 dez. 2015.

Ficha Técnica da obra 500 Almas:

Fontes de pesquisa (4)

  • CINEMATECA Brasileira. Disponível em:< http://www.cinemateca.gov.br/ >.  Acesso em: 24 dez. 2015.
  • FRANÇA, Andréa. Serras da Desordem e 500 Almas: resíduos de rostos, de gestos. Revista Periferia: educação, cultura & comunicação, Rio de Janeiro, v.1, n.1.,  p. 63-77, 2009.
  • GUERRA, Ruy; BRESSANE, Júlio; PIZZINI, Joel. O eu da arte é fora de si. Cinemais, Rio de Janeiro, n. 33, p. 8-53, jan./mar, 2003.
  • HABERT, Angeluccia Bernardes. “Intersecção entre forma e informação: um filme etnopoético”. In Revista Alceu, n.16. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio, 2008. pp. 108-120.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • 500 Almas. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra10333/500-almas>. Acesso em: 08 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7