Artigo da seção obras Lavoura Arcaica

Lavoura Arcaica

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoLavoura Arcaica: 1975 | Raduan Nassar
Livro
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Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Análise

Lavoura Arcaica (1975), de Raduan Nassar (1935), tem lugar cativo entre os grandes romances da literatura brasileira. Apesar da dificuldade crítica de enquadrá-lo do ponto de vista estilístico e histórico, o romance tem leitores fiéis, responsáveis pelo sucesso incomum na literatura nacional, com várias edições e uma adaptação para o cinema. A postura discreta do autor, retirado da vida literária desde 1984, não inibe o sucesso de público, de crítica e as traduções para várias línguas.

A obra é narrada em primeira pessoa e dividida em duas partes desiguais: uma longa, A Partida, em que há a apresentação e o desenvolvimento narrativos, e outra breve e conclusiva, O Retorno. Retrata a dissolução de uma família de agricultores austeros desde o ponto de vista de um de seus seis filhos, André. Trata-se de um adolescente que foge e retorna às terras familiares em meio a uma crise determinada pelo questionamento da autoridade paterna e o amor incestuoso pela irmã, Ana. Entre o presente difuso e o passado do qual emerge o drama, a narrativa começa na lembrança do quarto de pensão em que o jovem se esconde e vive dias de dissolução e licenciosidade. A chegada do irmão mais velho, Pedro, disposto a levar André de volta à família, inicia o primeiro dos dois embates que organizam a trama. A primeira parte é entremeada de recordações da vida na fazenda e registra a cisão entre a moralidade dura e discursiva do patriarca e o carinho marginal e silencioso da mãe, apresentando as razões da fuga do protagonista. Começa com uma introdução de André – sua sexualidade conturbada, contraposta aos costumes e leis da casa – e acaba com a revelação da paixão pela irmã. O horror do tabu quebrado elimina qualquer tentativa de moralização vinda de Pedro, representante dos valores do pai. Retorna, soturno, com o “filho pródigo” André para uma aparente alegria familiar. As fissuras dessa felicidade estão no segundo grande embate – o de André com seu pai, o patriarca. Nele, a “vitória” da racionalidade clara e pétrea da lei familiar contra as palavras confusas e movediças do protagonista se esvazia sob a revelação dos planos de fuga do irmão mais novo, Lula, e da dança apaixonada e sensual de Ana. Esta, irrompe na celebração do retorno de André para saudar a subversão da ordem familiar e ser morta pelo pai.

A referência à parábola do filho pródigo fundamenta a estrutura formal do enredo na palavra bíblica. Traz uma organização social patriarcal movida pelas homilias do pai à mesa com parábolas e mandamentos. Nela, tudo remete ao plano abstrato de valores morais contra o qual surge o embate ideológico: autoridade paterna versus subversão da ordem pelo direito ao desejo. As contradições inerentes ao interdito permitem inferir a luta pelo poder.  Revoltado contra a austeridade que o pai impõe ao rebanho familiar, André revela-se um sujeito igualmente cioso do poder. Este é, por exemplo, um dos caminhos de interpretação da sexualidade perturbada do protagonista, iniciada pela relação com uma cabra, a “Sudanesa”, imagem de um rebanho pacificado. A ele se contrapõe o instinto libertário de Ana, a quem quer submeter, não para libertar-se, mas para a assumir a posição dominadora do pai na família, no trabalho e na comunidade.

A manifestação da vontade de poder de André sugere uma paródia do consagrado poder patriarcal. Como o filho, impõe-se ao outro para destruí-lo. Nesse sentido, a dança sensual de Ana, vestida com os acessórios da vida dissoluta de André, pode ser interpretada não como defesa do interdito, mas libertação trágica dos extremos, o pai e o irmão, que querem dominá-la. Assim, o epílogo com a melancólica fala de André – que faz suas as palavras do pai morto – soa como uma liberdade jamais pretendida. Na condição de protagonista-narrador em primeira pessoa, para André narrar e recordar não se distinguem. Sua voz funde passado, presente e a multiplicidade das vozes narrativas da obra.

Ao tematizar a luta pelo poder e os tortuosos caminhos da liberdade, Raduan Nassar aproxima-se de um tema recorrente sem, deixar o tempo consumir sua obra na errância da mensagem. Assim, Lavoura Arcaica permanece vivo a testemunhar um olhar local, brasileiro, sobre a dimensão trágica do desejo e do poder.

Ficha Técnica da obra Lavoura Arcaica:

Fontes de pesquisa (3)

  • MANFRINI, Bianca Ribeiro. Tragédia familiar: a formação do indivíduo burguês em obras literárias brasileiras do século XX. 2012. Tese (Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
  • RODRIGUES, André Luis. Ritos da paixão em Lavoura arcaica. São Paulo: Edusp, 2006.
  • XAVIER, Ismail. A tradição da fazenda-autarquia (Lavoura Arcaica) e a dinâmica da cidade-mundo (Estorvo): desejo incestuoso e regressão em dois cenários do desastre. Nuevo mundo, mundos nuevos: questões do tempo presente (Cine, identidades e Historia en América Latina desde la democratización Coords. Moira Cristiá e Tzvi Tal). Paris, 2010.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LAVOURA Arcaica. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra10135/lavoura-arcaica>. Acesso em: 24 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7