Artigo da seção instituições Teatro de Equipe

Teatro de Equipe

Artigo da seção instituições
Teatro  

Data/Local

1958 - Porto Alegre RS - Início das atividades

1962 - Porto Alegre RS - Encerramento

Histórico

Em breve trajetória, de 1958 a 1962, o Teatro de Equipe marca a cena cultural de Porto Alegre pela proposta de trabalho voltada à realidade brasileira e pela qualidade dos artistas que integram o grupo.

De suas montagens participam artistas como Paulo José, Paulo César Peréio, Ítala Nandi, Lilian Lemmertz e Nilda Maria, que mais tarde alcançam projeção nacional. "O Teatro de Equipe foi, sem dúvida, um dos mais expressivos e combativos momentos do teatro gaúcho",1 escreve o diretor e crítico Fernando Peixoto, que também fez parte do grupo.

O Equipe é criado por remanescentes do Teatro de Comédia, dirigido pelo jornalista Glênio Peres: Milton Mattos, Paulo José, Paulo César Peréio e o paulista Mario de Almeida. Com experiência no Rio de Janeiro, Almeida, que está em Porto Alegre a convite do Teatro do Estudante da Universidade, aceita integrar a nova equipe com duas condições: fazer teatro profissional, o que não existia em Porto Alegre, e construir um teatro próprio, uma forma de superar a histórica falta de espaços cênicos na cidade.

"Não somos diletantes. Estamos em teatro porque temos necessidade de nos expressar. Buscamos dar nossa contribuição ao homem através do teatro, não para distraí-lo, mas para humanizá-lo",2 declara Paulo José, na entrevista de apresentação do Teatro de Equipe. O grupo estreia no fim de 1958 com dois espetáculos: Esperando Godot, de Samuel Beckett, em co-produção com o Teatro Universitário do Rio Grande do Sul, direção de Luiz Carlos Maciel; e Rondó 58, em que os atores interpretam poemas de autores brasileiros, com direção de Almeida e Paulo José.

No período seguinte, o Teatro de Equipe se divide entre as montagens e a busca de um lugar para a construção da sede própria. O local escolhido é um casarão da rua General Vitorino, no centro da cidade, e o teatro, de 120 lugares, é construído com ampla mobilização da comunidade. Artistas como Manabu Mabe, Francisco Stockinger e Vasco Prado doam quadros para leilão, empresas cedem materiais de construção e o escritório de arquitetura de Irineu Breitmann e Pedro Gus, em que Milton Mattos é estagiário, realiza o projeto gratuitamente. As próprias atrizes costuram as poltronas forradas com vulca-espuma que sobra de uma fábrica de sutiãs.

Em setembro de 1959, Paulo Autran chega a Porto Alegre especialmente para um recital, cuja renda é integralmente destinada às obras do teatro. O grupo promove uma grande campanha de associados e de venda de cadeiras para as estreias. Mais de 100 artistas, intelectuais e jornalistas gaúchos tornam-se sócios.

O Teatro de Equipe é inaugurado em 1960, com a peça A Almanjarra, de Artur Azevedo, e passa a funcionar como uma verdadeira casa de cultura de Porto Alegre. Abriga exposições de jovens artistas plásticos, apresentações musicais, sessões de cinema de arte e reuniões da comunidade cultural. A instalação de um bar no subsolo, administrado por Peréio, transforma a casa também em ponto de encontro da boemia intelectual da cidade.

Ao montar Pedro Mico, de Antônio Callado, com direção de Fernando Peixoto, o Equipe inova na forma de compor o elenco. Apenas Ivette Brandalise faz parte do grupo. Os demais atores são escolhidos por meio de testes, convocados pela imprensa.

Quando Jânio Quadros renuncia à Presidência da República, em agosto de 1961, o Teatro de Equipe apresenta a peça O Despacho, de Mario de Almeida, uma virulenta sátira musical à situação política do Brasil. "É realmente um texto corajoso por sua irreverência, sua franqueza no combate, sua denúncia até as últimas conseqüências", analisa Peixoto.3 Almeida explica seu texto: "Muita gente vai pensar que a peça é ideológica. Não é. A peça é um pedido para que as pessoas se definam através de suas ideologias e não de seus preconceitos. É uma peça que pede maturidade. A peça é irreverente porque ela combate uma das maiores irreverências do nosso meio: a burrice".4 Posteriormente, O Despacho é gravado como radionovela e transmitido no Rio de Janeiro pela Rádio Mayrinck Veiga.

No período em que o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, promove o Movimento pela Legalidade, o Teatro de Equipe transforma-se em comitê de artistas e intelectuais. Ali são produzidos cartazes, textos de propaganda e até o Hino da Legalidade, composto por Peréio e a poeta Lara de Lemos.

Com o desfecho da crise e a divisão política do país, o Equipe radicaliza suas montagens. Encena O Testamento do Cangaceiro, de Chico de Assis, e Canto Guerreiro, uma coletânea de textos políticos. Mergulhado em dificuldades financeiras e sem concretizar o sonho do profissionalismo, o Teatro de Equipe fecha as portas em setembro de 1962. A essa altura, Paulo José já está em São Paulo, integrado ao Teatro de Arena. Peréio deixa Porto Alegre em seguida, Almeida passa a dedicar-se ao jornalismo e à publicidade e Mattos segue a carreira de arquiteto.

O Teatro de Equipe é o maior representante da efervescência cultural de Porto Alegre na década de 1950, em que se destacam o grupo Bode Preto, nas artes plásticas; o Grupo Quixote, na poesia; e escritores como Josué Guimarães e Moacyr Scliar. Além da qualidade do trabalho teatral, o grupo promove a integração das mais diversas manifestações artísticas.

Notas

1. ALMEIDA, Mario de; GUIMARAENS, Rafael. Trem de volta - Teatro de Equipe. Porto Alegre: Libretos, 2003, p. 23.

2. FOLHA DA TARDE. Nasce um novo grupo amador em Porto Alegre. 21 de setembro de 1958.

3. PEIXOTO, Fernando. Teatro Fora do Eixo. São Paulo: Editora Hucitec, 1983, p. 292.

4. OSTERMANN, Ruy Carlos. Teatro de Arena propõe o riso pelo trágico. Correio do Povo, Porto Alegre,  1 ago. 1961.

Espetáculos (15)

Fontes de pesquisa (4)

  • ALMEIDA, Mario de; GUIMARAENS, Rafael. Trem de volta - Teatro de Equipe. Porto Alegre: Libretos, 2003.
  • FOLHA DA TARDE, Nasce um novo grupo amador em Porto Alegre. 21 de setembro de 1958.
  • OSTERMANN, Ruy Carlos. Teatro de Arena propõe o riso pelo trágico. Correio do Povo, Porto Alegre,  1 ago. 1961.
  • PEIXOTO, Fernando. Teatro fora do eixo. São Paulo: Editora Hucitec, 1983.

Como citar?

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  • TEATRO de Equipe. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao508747/teatro-de-equipe>. Acesso em: 22 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7