Artigo da seção instituições Unilabor

Unilabor

Artigo da seção instituições
Artes visuais  
Data de aberturaUnilabor: 1954 Local de abertura: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de fechamento 1967 Local de fechamento: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Histórico

A Unilabor é uma fábrica de móveis modernos que funciona na cidade de São Paulo, no bairro operário do Ipiranga, entre 1954 e 1967. A empresa integra - e viabiliza financeiramente - a Comunidade de Trabalho Unilabor, um projeto social-religioso conduzido pelo frei dominicano João Batista Pereira dos Santos com o apoio de empresários, intelectuais e artistas. Entre os colaboradores, destaca-se Geraldo de Barros, responsável pelo desenho dos móveis Unilabor. Além do engajamento de agentes culturais no empreendimento, a principal característica do projeto é a autogestão operária com lucros partilhados entre os funcionários.

O projeto da Comunidade de Trabalho Unilabor é fundamentado nos princípios do grupo católico Economia e Humanismo, criado na França, em 1941, pelo padre dominicano francês Louis-Joseph Lebret. O movimento propõe o envolvimento da Igreja em questões econômicas com o objetivo de criar soluções efetivas para as desigualdades sociais geradas pelo sistema capitalista industrial. Na década de 1940, o frei João Batista freqüenta o centro de pesquisa Economia e Humanismo na França e conhece experiências bem-sucedidas de cooperativas operárias francesas. Segundo o pesquisador Mauro Claro, autor do livro Unilabor: Desenho Industrial, Arte Moderna e Autogestão Operária, 2004, a Comunidade de Trabalho Unilabor é idealizada com base na visita de frei João Batista à Comunidade de Trabalho Boimandou, em Valence, França, criada por um grupo de operários cristãos, em 1940.

O ponto de partida do projeto brasileiro é a construção da Capela do Cristo Operário, em 1950, por iniciativa de frei João Batista. A obra, patrocinada pela população do bairro Ipiranga, conta com a colaboração do Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM/SP e de artistas que decoram a igreja. O pintor Alfredo Volpi executa os afrescos do altar e quatro vitrais laterais, Yolanda Mohalyi colabora com três pinturas murais, Bruno Giorgi e Moussia com esculturas, Elisabeth Nobiling, com luminárias, Geraldo de Barros, com um vitral. O paisagista Burle Marx desenha os jardins.

Em torno da Capela do Cristo Operário há uma casa paroquial, um posto de saúde, uma escola infantil e, desde 1954, as oficinas moveleiras. É quando frei João Batista, Geraldo de Barros, o serralheiro Antônio Thereza e o engenheiro Justino Cardoso (que logo deixa a sociedade) fundam a fábrica de móveis Unilabor. Seu objetivo é criar uma cooperativa de trabalho que alcance sucesso comercial. No fim dos anos 1950, a empresa funciona com um sistema de produção em série, conta com cerca de 100 trabalhadores e possui quatro lojas, sendo três delas na capital paulista e uma em Belo Horizonte.

Além das atividades da fábrica e das aulas de catequese, a comunidade promove uma série de ações culturais e pedagógicas voltadas para as famílias dos operários. São realizadas projeções de filmes, atividades físicas, palestras e debates de conscientização política. Criam um jornal comunitário, Barros leciona história da arte e, a partir de 1956, o então estudante de arquitetura Flávio Império conduz um grupo de teatro. Somada à intenção da Unilabor de criar um sistema produtivo que beneficiasse os trabalhadores, as atividades paralelas à fábrica buscam promover a desalienação dos operários e de suas famílias.

No campo da arte, o pós-guerra no Brasil é marcado pela criação de museus de arte e pela inauguração da 1ª Bienal do MAM/SP, em 1951, evento que amplia de maneira definitiva o contato do meio artístico local com a produção internacional. A situação transforma as feições da arte moderna brasileira, até então de caráter figurativo e conteúdo predominantemente nacionalista. Artistas de vanguarda se voltam para a arte abstrata e para as vertentes construtivas. Num contexto caracterizado pelo crescimento urbano e industrial - processo que tem a capital paulista como epicentro -, a utopia construtiva de socialização da arte por meio da indústria, bem como a crença no papel restaurador da arte moderna, encontra adeptos nos principais centros urbanos do país, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Nessa época, as ideologias construtivas têm acolhida principalmente em países da América Latina e na Suíça, onde muitos artistas vêem a arte concreta e o desenho industrial como uma forma de intervenção racional e positiva num mundo ainda traumatizado diante das questões éticas e sociais suscitadas pelo conflito mundial. Barros integra o Grupo Ruptura, movimento aglutinador dos artistas concretos de São Paulo. Em 1952, o grupo lança um manifesto no qual, entre outras questões, aponta as possibilidades de aplicação prática da arte. Seus integrantes atuam profissionalmente nas áreas de desenho gráfico e industrial, paisagismo, ilustração e publicidade.

A experiência de Barros na fábrica Unilabor representa uma tentativa de efetivar no plano nacional o ideal construtivo de integração da arte na vida cotidiana disseminado, sobretudo, por professores da escola alemã Bauhaus como Marcel Breuer e Walter Gropius, nos anos 1920. Um dos pontos principais do projeto pedagógico da Bauhaus é abolir a hierarquia entre as belas-artes e as artes aplicadas, sendo o desenho industrial considerado uma possibilidade de ação real do artista na sociedade. O objetivo é trabalhar com formas padronizadas, adequadas às ferramentas e à capacidade da  indústria de produzir objetos em série.

A mobília Unilabor é exclusivamente residencial. Barros trabalha com formas geométricas simples, poucos materiais (madeira, ferro e revestimentos) e um conjunto reduzido de peças modulares. A variedade de modelos é resultado de diferentes arranjos das mesmas peças. Esse sistema se espelha nos métodos da Bauhaus, permite a produção serial e, conseqüentemente, a expansão industrial da fábrica. No entanto, o projeto social da Unilabor está voltado para a melhoria das condições de vida e de trabalho da classe operária, e não para a produção de móveis de boa qualidade a preços populares. Sua clientela é formada por uma classe média alta interessada em se identificar com um projeto moderno de caráter social progressista, sendo os móveis inacessíveis às camadas sociais de baixa renda.

Fontes de pesquisa (2)

  • CLARO, Mauro. Unilabor: desenho industrial, arte moderna e autogestão operária. São Paulo: Senac, 2004. 190 p., il. p&b.
  • NIEMEYER, Lucy. Design no Brasil: origens e instalação. 2.ed. Rio de Janeiro: 2AB, 1998. 128 p. (Design).

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • UNILABOR . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao481676/unilabor-sao-paulo-sp>. Acesso em: 23 de Fev. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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