Artigo da seção instituições Teatro Adolescente do Recife

Teatro Adolescente do Recife

Artigo da seção instituições
Teatro  

Data/Local
1955/1963 - Recife PE

Histórico
Fundado em abril de 1955, pelo ator e diretor Clênio Wanderley e pelo diretor Luiz Mendonça, o Teatro Adolescente do Recife tem como principais características a valorização de autores regionais e a iniciação de jovens talentos no fazer teatral. Seu diretor, Clênio Wanderley, egresso do Teatro do Estudante de Pernambuco, grupo liderado por Hermilo Borba Filho, imprime, desde a primeira montagem, uma linha de atuação arrojada, buscando uma forma nordestina de interpretação.

O Teatro Adolescente do Recife (TAR) é formado em sua maioria por estudantes secundaristas e universitários e, além de Clênio Wanderley e Luiz Mendonça - este o primeiro presidente do grupo -, outros nomes conhecidos do teatro pernambucano participam da diretoria: Luiz Marinho, Aldomar Conrado, Expedito Pinto, Justo Carvalho e Valdir Bezerra.

O grupo surge como uma espécie de resposta de alguns jovens atores e diretores às pressões de professores do Ginásio Pernambucano. O dramaturgo Ariano Suassuna é encarregado de ministrar um curso de teatro aos alunos desse tradicional educandário, e monta algumas obras clássicas como Antígona, de Sófocles, e Aululária, de Plauto. Em seguida, começa a ensaiar uma peça de sua autoria, recém-escrita, o Auto da Compadecida. Pessoas influentes do colégio não aceitam a ideia da montagem do texto de Suassuna sob a égide do Ginásio Pernambucano, e a solução para o impasse é a fundação do TAR.

O primeiro espetáculo do TAR, em 1955, é a peça Terra Queimada, de Aristóteles Soares, texto já encenado em 1951 por Clênio Wanderley, com outro grupo. Enquanto isso, prosseguem os ensaios do Auto da Compadecida, que estreia em setembro de 1956, no Teatro de Santa Isabel. O espetáculo não agrada à crítica local. O crítico Valdemar de Oliveira classifica como farsa o texto de Suassuna: "Não há, talvez, em teatro, gênero mais difícil, mais perigoso, mais traiçoeiro. O seu estilo, pouco conhecido entre nós, requer não só conhecimentos especializados como, por igual, elementos humanos realmente capazes. E com isso não contou o elenco heterogêneo do Teatro Adolescente do Recife. [...] Clênio Wanderley explorou à larga, isto é, sem a medida inteligente, gritos e gestos, sem que os seus pupilos - e ele mesmo - parodiando o conhecido anúncio - soubessem parar. [...] O espetáculo devia terminar onde o diabo diz: acabem com essa molecagem".1

O Auto da Compadecida é um fracasso de público. A temporada dura apenas três dias, e o quarto espetáculo é cancelado por falta de espectadores. Todavia, Ariano conserva seu entusiasmo pelo trabalho do TAR, mesmo com as mais severas críticas da imprensa local. Em sua coluna no Diario de Pernambuco, ele ressalta: "[...] O que é positivo é essa integridade que levou um grupo jovem e um jovem diretor a enfrentar essa possibilidade de incompreensão porque acreditavam na peça".2

Em janeiro de 1957, no Rio de Janeiro, ocorre finalmente a consagração do TAR, do seu diretor, do texto e do seu autor. A montagem, desacreditada no Recife, ganha medalhas de ouro para espetáculo, diretor (Clênio Wanderley) e atriz (Ilva Niño) no 1º Festival de Amadores Nacionais. E o TAR é convidado a estender a temporada por mais uma semana no Teatro Dulcina, com extraordinário sucesso de público. No mês seguinte, Paschoal Carlos Magno escreve sobre o Auto da Compadecida no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro: "É uma peça que se interrompe a cada instante com aplausos. É uma peça que se aplaude de pé. Uma peça como poucas do teatro brasileiro de todos os tempos. E quem representa é um punhado de moços de talento, de muitíssimo talento. Há neles dignidade, entusiasmo, honestidade [...] Quem gostar de teatro, quem acreditar em teatro e deseja prestigiá-lo, deve ir [...] ao Dulcina para se comover, aplaudir, queimar as mãos de palmas diante do espetáculo que é [...] um dos mais belos que já vi no Brasil e nas minhas andanças pelo mundo".3  O crítico Accioly Netto comenta: "O Rio de Janeiro aplaudiu o aparecimento de um grande comediógrafo - o jovem advogado pernambucano (sic) Ariano Suassuna, autor de A Compadecida, que os amadores do Teatro Adolescente do Recife apresentaram no Teatro Dulcina [...] com um êxito sem precedentes".4

Como resultado de todo esse sucesso, o TAR é convidado para uma apresentação de gala, à meia-noite, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, diante de uma plateia de convidados especiais, entre os quais o próprio presidente da República. E, depois disso, sai em excursão pelo Brasil apresentando o premiado espetáculo.

Na Semana Santa de 1957, ainda embalado pelo sucesso obtido na temporada da Compadecida no Rio de Janeiro, o TAR assume a produção do Drama do Calvário, espetáculo da Paixão de Cristo levado nas ruas da vila de Fazenda Nova, município do Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, embrião, por assim dizer, da Paixão de Cristo, da Nova Jerusalém. Nesse mesmo ano o Teatro Adolescente do Recife monta, com direção de Clênio Wanderley, A Via Sacra, de Henri Ghéon.

Em 1958, o TAR é chamado para inaugurar, com A Compadecida, uma nova casa de espetáculos em Santos, São Paulo - o Teatro Independência. O êxito da montagem é comentado por Ariano Suassuna: "Interessante a carreira que o Teatro Adolescente do Recife vem cumprindo desde a sua fundação. [...] De parte da crítica injustiça, perseguição, indiferença e silêncio. [...] frieza e hostilidade. [...] Mas há coisas compensadoras nisso tudo. E agora que o grupo vai inaugurar uma casa de espetáculos paulista, completando com a última récita, duzentas representações do Auto da Compadecida em todo o Brasil, lembro aos seus componentes que isso é bem melhor do que qualquer premiação".5

Com a encenação de Casamento Suspeitoso, mais um original de Ariano Suassuna, em 1958, o grupo segue no propósito de buscar a valorização da dramaturgia regional. O único espetáculo do TAR que não tem direção de Clênio Wanderley é A Grade Solene, do escritor pernambucano Aldomar Conrado, em 1959, dirigido por José Pimentel. Em 1960, o TAR monta o auto medieval de autor desconhecido Todomundo. O grupo dá sinais de enfraquecimento, com a saída de seus principais gestores para outros grupos, de modo que, entre 1960 e 1963, nenhum espetáculo é encenado. A remontagem de A Via Sacra, em 1963, é o último trabalho do TAR, apresentado nas naves principais de igrejas antigas do Recife e de Belém.

Em sua trajetória, o TAR projeta artistas que marcam a cena teatral pernambucana na segunda metade do século XX: autores como Aristóteles Soares, Aldomar Conrado e Ariano Suassuna; diretores como Clênio Wanderley, Luiz Mendonça e José Pimentel; intérpretes como Otávio Catanho (também cenógrafo), Socorro Raposo, Yara Lins e Ilva Nino; além do cenógrafo e figurinista Victor Moreira. 

Joel Pontes, em seu livro O Teatro Moderno em Pernambuco, referindo-se ao grupo pernambucano ressalta: "O Teatro Adolescente do Recife teve o seu grande momento no Rio de Janeiro, quando apresentou o Auto da Compadecida, durante o 1º Festival Nacional de Teatro Amador (1956) (sic) e conquistou o primeiro prêmio, atraindo as atenções do Brasil para uma voz nova e rica de acentos castiços até então desconhecidos: Ariano Suassuna. [...] Pelo pouco que esses moços aprenderam e pelo muito que souberam imitar de uma realidade sentida no mais profundo de suas vidas, não passaram despercebidos. Não chegam a provocar forte impressão no Recife [...]. Causam-na fora, porém".6

Notas
1. OLIVEIRA, Valdemar de. Jornal do Commercio, Recife, 15 set. 1956. A propósito.

2. SUASSUNA, Ariano. Diario de Pernambuco, Recife, 12 out. 1956. Teatro. 

3. MAGNO, Paschoal Carlos. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15 fev. 1957.

4. ACCIOLY NETTO, A. Teatro no Rio. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 2 mar. 1957.

5. SUASSUNA, Ariano. O teatro adolescente e a crítica. Diario de Pernambuco, Recife, 1 jan. 1958.

6. PONTES, Joel. O Teatro Moderno em Pernambuco. 2 ed. Prefácio Luiz Maurício Carvalheira. Recife: Fundarpe - Cepe, 1990.

Espetáculos (8)

Fontes de pesquisa (6)

  • ACCIOLY NETTO, A. Teatro no Rio. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 2 mar. 1957.
  • MAGNO, Paschoal Carlos. Correio da Manhã, Rio de Janeiro 15 fev. 1957.
  • OLIVEIRA, Valdemar de. Coluna A propósito. Jornal do Commercio, Recife, 15 set. 1956.
  • PONTES, Joel. O Teatro Moderno em Pernambuco. 2 ed. Prefácio Luiz Maurício Carvalheira. Recife - Fundarpe - CEPE, 1990.
  • SUASSUNA, Ariano. Coluna Teatro.  Diario de Pernambuco, Recife, 12 out. 1956.
  • SUASSUNA, Ariano. O Teatro Adolescente e a Crítica, Diario de Pernambuco, Recife, 1 jan. 1958.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TEATRO Adolescente do Recife. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao434091/teatro-adolescente-do-recife>. Acesso em: 22 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7