Artigo da seção instituições Galeria Relevo

Galeria Relevo

Artigo da seção instituições
Artes visuais  
Data de aberturaGaleria Relevo : 12-1961 Local de abertura: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de fechamento 12-1969 Local de fechamento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Histórico
A Galeria Relevo é inaugurada em dezembro de 1961 pelo romeno Jean Boghici (1928), colecionador, marchand e galerista, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 252, no Rio de Janeiro. Participam em sociedade Jonas Prochovnic, sócio de uma loja de automóveis, Eryma Carneiro, tributarista, e seu filho, Carlos Eryma. A primeira exposição realizada é a do pintor Emeric Marcier (1916-1990), pai do secretário da galeria, Matias Marcier.

A Relevo surge em um período de ascensão de novas galerias, como a Petite Galerie, adquirida por Franco Terranova em 1954, e a Galeria Bonino, aberta em 1960 pelo próprio Bonino. As três são marcos iniciais do mercado de arte no Rio de Janeiro, já que os anos 1960 assinalam o início de um adensamento do campo das artes no Brasil, processo que assiste ao surgimento de uma série de espaços de arte. As atividades de marchands e galerias1 são responsáveis pela constituição de um mercado de arte propriamente dito. Ao lado das bienais e dos museus de arte moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo, que surgem em 1948,2 tais galerias têm papel importante na formação dos artistas a partir da década de 1960, incentivando a exposição de arte moderna e contemporânea brasileira e internacional3 e estabelecendo-se como ponto de encontro de artistas e intelectuais.

Boghici possui coleção relevante de arte moderna quando funda a Relevo – com obras de Alfredo Volpi (1896-1988), José Pancetti (1902-1958), Milton Dacosta (1915-1988), Cicero Dias (1907-2003), Iberê Camargo (1914-1994), Ismael Nery (1900-1934) e Guignard (1896-1962) – e a utiliza na segunda mostra da casa, realizada em janeiro de 1962. A arte moderna é um dos focos da galeria, que organiza retrospectivas de grande repercussão de Di Cavalcanti (1897-1976) e Oswaldo Goeldi (1895-1961). Já a arte popular, outra vertente privilegiada, aparece em mostras de Grauben do Monte Lima (1889-1972), Benjamin Silva (1927), Francisco da Silva (1910-1985), Carlos Louzada (1905-1984) e Pedro Paulo Leal (1894-ca.1968).

Antes de criar a Relevo, Boghici conhece Lygia Clark (1920-1988) e pesquisa arte popular com o cronista José Carlos de Oliveira (1934-1986) na Fundação Cultural do Distrito Federal,4 dirigida pelo poeta e crítico Ferreira Gullar (1930). O poeta, a propósito da inauguração da Relevo, escreve que o espaço “tem em seus planos a publicação de livros de arte, inclusive experiências gráficas de vanguarda”, e ressalta: “Esperemos que o entusiasmo não passe e que as condições reais permitam aos idealizadores levar adiante iniciativas de tal importância para a vida cultural do país”.5

Em pouco tempo, a Relevo adquire prestígio,6 tornando-se um local de aglutinação de artistas, críticos e colecionadores.7 Passa a expor artistas estabelecidos, como Inimá de Paula (1918-1999), Rubem Valentim (1922-1991), Carlos Scliar (1920-2001) e Ione Saldanha (1919-2001) – a primeira a assinar contrato com a galeria.

Texto do escritor e artista Lúcio Cardoso (1912-1968) acompanha a mostra de Ione Saldanha. Já Gullar redige a apresentação da mostra de Goeldi em 1962, enquanto Mário Pedrosa (1900-1981) apresenta as de Maria Leontina (1917-1984) e Di Cavalcanti, em 1963 e 1964, entre outros. A Relevo expõe artistas estrangeiros como Wassily Kandinsky (1866-1944), Pablo Picasso (1881-1873), Joan Miró (1893-1983) e Salvador Dali (1904-1989). Também apresenta uma geração mais jovem, como Piero Dorazio (1927-2005); Nemésio Antunes (1918-1993), apresentado por Pablo Neruda (1904-1973) e Natalia Dumitresco (1915-1997); e Alexandre Istrati (1915-1991), com texto de Eugene Ionesco (1909-1994).

A vocação vanguardista da galeria se deve à repercussão da mostra Nova Figuração da Escola de Paris,8 realizada em agosto de 1964, com Wright Adzak (1927), Peter Foldès (1924), Gérard Tisserand (1934) e Antonio Berni (1905-1981) – que também participam de individuais em 1965 e 1966 –, entre outros artistas. O catálogo é apresentado pela marchand e jornalista Ceres Franco, com quem Boghici organiza, em 1965, a mostra Opinião 65, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). Estão presentes dois artistas lançados pela Relevo no ano anterior: Antonio Dias (1944), apresentado com textos de Pierre Restany (1930-2003); e Rubens Gerchman (1942-2008), apresentado por Mário Pedrosa.

Em 1966, é organizada outra mostra de grande impacto, Supermercado 66, que reúne obras de pequeno formato e a baixo preço de 90 artistas brasileiros, as quais o comprador leva em um saco de papel, pagando na saída. Na ocasião, Hélio Oiticica (1937-1980) e Lygia Clark apresentam a obra Diálogo de Mãos (1966).

A galeria também realiza individuais de Ivan Freitas (1932), Aluísio Carvão (1920-2001), Carlos Leão (1906-1983) e Dionísio del Santo (1925-1999), em 1966; Antonio Dias, Anna Bella Geiger (1933) e Miguel Rio Branco (1946), em 1967. Em 1968, expõe gravuras de Picasso e individuais de Kasuo Ikeda (1941), Newton Rezende (1912-1994) e Scliar, além de uma exposição de Gerchman realizada em uma única noite, antes de seu embarque para os Estados Unidos. A última exposição da galeria é uma individual de Wanda Pimentel (1948), em março de 1969.

Em abril do mesmo ano, Frederico Morais publica nota em sua coluna no jornal Diário de Notícias anunciando a paralisação das atividades da galeria e apontando para a nova situação do país, que deixa de ser propícia aos investimentos culturais como no começo da década: “[...] a arte de vanguarda, como é notório, não é comerciável. A vanguarda, no Brasil, para sobreviver, necessita do apoio dos salões e bienais (o que nem sempre ocorre). Na Guanabara [...] a Galeria G-4 iniciou uma programação ousada [...], mas logo teve de baixar o nível. E encerrou as atividades. A Galeria Relevo, também, teve de intercalar exposições digestivas e de arte amena. Hoje, está vai não vai, com uma programação irregular. Agora é a vez da art-art”.9

Boghici fecha a galeria e deixa o país em 1969, retornando apenas em 1979, quando inaugura a Galeria Jean Boghici, em Ipanema, Rio de Janeiro.

Notas
1 Em São Paulo, Raquel Arnaud e Luisa Strina começam a atuar no mercado de arte no começo dos anos 1960, bem como a Galeria Collectio.
2 O mercado de arte brasileiro tem uma história bastante curta, praticamente só se efetiva e ganha força com os anos 70. O que havia antes era um comércio rarefeito (…). Houve, é claro, várias tentativas para a fixação de um mercado de arte (…), no rastro do prestígio da Bienal de São Paulo”. ZILIO, Carlos; REZENDE, José; BRITO, Ronaldo; CALDAS, Waltercio. A questão da arte/O boom, o pós-boom e o dis-bomm. Opinião, 3 set. 1976, p. 26.
3 Rodrigo Naves comenta que os espaços de arte que surgem a partir da década de 1960 possuem papel formador para a geração de artistas que começa a aparecer naquele momento, todavia ressaltando que “foi somente no final dos anos 80 que passamos a ter no Brasil alguma coincidência entre qualidade artística e reconhecimento público”. NAVES, Rodrigo. Um azar histórico: sobre a recepção das obras de Hélio Oiticica e Lygia Clark. In: O vento e o moinho: ensaios sobre arte moderna e contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 201.
4 Tais obras formariam mais tarde o acervo do Museu da Arte Popular de Brasília.
5 GULLAR, Ferreira. Publicação de livros de arte. Jornal do Brasil, Caderno B, 8 dez.1961. O Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (Relevo apresenta Marcier, de 23 e 24 dez. 1961) também comenta a inauguração da galeria.
6 O jornal Última Hora (edição de sexta-feira, 30 mar. 1962) publica que “o êxito dessa galeria está ligado ao bom nível que vem mantendo na apresentação de exposições”.
7  Além das mostras, também há lançamentos de livros, como Seis desenhistas de humor, que reúne para autógrafos Ziraldo, Jaguar, Fortuna, Hilde, Borjado e Claudius, em 1962, ou o de um álbum de pintores brasileiros modernos, que leva Di Cavalcanti e Djanira à galeria, em 1963.
8 O Jornal do Brasil acompanha a repercussão da mostra. Cf.: G. C. Zunzunzum. Jornal do Brasil, Revista de Domingo, 6 set. 1964.
9 MORAIS, Frederico. Diário de Notícias, 2. seção, 29 abr. 1969.

Outras informações da instituição Galeria Relevo :

  • Atuação
    • Galeria de Arte

Exposições (20)

Fontes de pesquisa (17)

  • ARCO das Rosas: o marchand como curador. Tradução Camila Henman Belchior. São Paulo: Casa das Rosas, 2001. 120p. il p&b, color.
  • BOGHICI, de volta ao mercado. Arte hoje, Rio de Janeiro, n.º 2, p. 53, ago. 1977.
  • BOGHICI: 25 anos caçando as obras de arte. O Liberal, Pará, 19 abr. 1987.
  • CARLOS, Esther Emilio. Valores novos. Diário de Notícias, 2. seção, 10 abr. 1965.
  • FIGURA inteligente e sensível. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 27 jan.1954.
  • IV RESUMO de arte JB. Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 17 mai. 1966, p. 2.
  • LAUS, Harry. O jovem Antonio. Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 18 dez. 1964, p. 5. 
  • LAUS, Harry. Quando os quadros são muitos, bons e baratos. Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 12 abr. 1966, p. 5. 
  • LAUS, Harry. Visitando exposições. Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 7 abr. 1965, p. 2. 
  • LOURENÇO, Maria Cecília França. Museus acolhem moderno. São Paulo: Edusp, 1999. 293 p., il. p&b. (Acadêmica, 26). 
  • MORAIS, Frederico. Panorama das artes plásticas: séculos XIX e XX. 2. ed. rev. São Paulo: Instituto Cultural Itaú, 1991. 164 p.
  • NAVES, Rodrigo. Um azar histórico: sobre a recepção das obras de Hélio Oiticica e Lygia Clark. In: ______. O Vento e o moinho: ensaios sobre arte moderna e contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 531 p., il. p&b. p.195-197.
  • STROZENBERG, Armando. A arte de investir em arte. Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 27  abr. 1966.
  • ZILIO, Carlos; REZENDE, José; BRITO, Ronaldo; CALDAS, Waltercio. A questão da arte: o boom, o pós-boom e o dis-bomm. Opinião, 3 set. 1976, p. 25-28.
  • MORAIS, Frederico. Cronologia das artes plásticas no Rio de Janeiro: da Missão Artística Francesa à Geração 90 : 1816-1994. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.
  • RÊGO, Norma Pereira. Situação do Mercado de Arte. [Enquete realizada com Jean Boghici e Franco Terranova] In: GULLAR, Ferreira (org.). Arte brasileira hoje. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1973, p. 205-211.
  • ZANINI, Walter (Coord.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto Moreira Salles: Fundação Djalma Guimarães, 1983. v.2.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GALERIA Relevo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao290379/galeria-relevo>. Acesso em: 19 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
abrir pesquisa
;