Artigo da seção instituições MMM Roberto

MMM Roberto

Artigo da seção instituições
Artes visuais  
Data de aberturaMMM Roberto: 1936 Local de abertura: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Análise

MMM Roberto é um escritório de arquitetura e urbanismo com sede no Rio de Janeiro, conduzido por três irmãos: Marcelo Roberto (1908-1964), Milton Roberto (1914-1953) e Maurício Roberto (1921-1996).

Formam-se em arquitetura pela Escola Nacional de Belas Artes (Enba), no Rio de Janeiro: Marcelo em 1930, Milton em 1934, e Maurício em 1944. Nascem com o sobrenome Dória Baptista, porém, em 1927, com o falecimento de seu pai, o dentista Roberto Otto Baptista, o primogênito troca de sobrenome, decisão que posteriormente também é adotada pelos irmãos. Associado ao artista plástico Paulo Werneck (1907-1987), Marcelo Roberto trabalha como ilustrador para revistas como Fon-Fon e Careta, em paralelo à graduação até 1932. Antes de receber o diploma, entre 1929 e 1930, viaja por seis meses pela Europa onde tem contato com artistas e arquitetos das vanguardas modernas. Quando retorna ao Rio, passa a trabalhar com o construtor J. Santos, chamando a atenção do arquiteto Lucio Costa (1902-1998) com uma “primeira série de casas [...], já então preocupado com problema da sombra”1, levando-o a participar do Salão de Arquitetura Tropical2, em 1933.

Com o então recém-graduado irmão Milton, Marcelo Roberto participa do concurso para a sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro, realizado em 1935. Marcelo e Milton ganham o concurso e fundam o escritório MM Roberto Arquitetos em 1936. Inaugurado em 1938, o prédio da ABI é um dos primeiros edifícios modernos executados no Brasil, destacando-se pelo uso do brise-soleil em uma edificação deste porte. Em concreto e fixo, o brise vertical reforça a clausura do interior, conferindo ao prédio um aspecto monumental relacionado à sensação de peso, oposta à leveza das estruturas que a Escola Carioca de Arquitetura vem a adotar posteriormente.

Em 1937, os dois irmãos Roberto mais velhos vencem o concurso para o Aeroporto Santos Dumont. A edificação é construída entre 1938 e 1944. Nela, o grande saguão linear ao longo do eixo longitudinal aliado à transparência no eixo perpendicular chama a atenção. Essa estrutura permite ver a cidade e a pista de pouso com a baía de Guanabara ao fundo. Os largos pilares destacados das divisórias e fechamentos do aeroporto levam a comparação feita pelo historiador francês Yves Bruand (1926-2011): “enquanto a ABI se apresenta como uma massa compacta e fechada, harmoniosa mas pesada [...], o Aeroporto Santos Dumont é mais aberto e principalmente mais leve”3.

Mesmo antes de concluir o curso universitário, Maurício Roberto junta-se à sociedade em 1941, quando o escritório ganha o nome pelo qual fica conhecido. Os anos em que os três irmãos trabalham juntos – de 1941 a 1953 – coincidem com a época áurea do escritório. Aliam estética, funcionalidade e técnicas de construção modernas. Veem cada projeto como único e trabalham regularmente, divergindo do modelo dos antigos ateliês e das grandes companhias americanas4. Nesse período de doze anos, calcula-se a elaboração de 39 projetos relevantes5, entre os quais se destacam a Sede do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) (1941-1944), a Colônia de Férias do IRB (1943-1944) e as instalações da Sotreq-Caterpillar (1944-1946). Mais de 2/3 dos projetos do período são encomendas da iniciativa privada, o que mostra os irmãos Roberto como um dos raros exemplos de escritórios no Brasil que conciliam as demandas do mercado imobiliário com uma arquitetura de qualidade, como nos casos dos edifícios residenciais Anchieta (1941) na Avenida Paulista, São Paulo; Júlio Barros Barreto (1947-1950) no bairro carioca de Botafogo, e o Dona Fátima e Finúsia (1951-1953) em Copacabana.

Este último projeto somado aos dois seguintes revelam a busca por um movimento nas fachadas6, rompendo com a ortogonalidade urbana. A sede da Companhia Seguradora (1949-1950) torna-se conhecida pelo plano ondulado que articula as duas diferentes fachadas do prédio – uma toda em vidro e outra com brises móveis horizontais – em uma esquina no centro do Rio. Esse plano ondulado elimina o contraste entre as faces com incidência solar distinta, substitui a aresta única do encontro das fachadas e tem função estrutural. O dinamismo na fachada do edifício comercial Marquês de Herval (1952-1953), voltada para a Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro, dá-se com centenas de painéis basculantes em alumínio curvo. Os paineis podem ser manuseados por cada sala comercial – portanto, uma fachada em contínua mobilidade.

O falecimento de Milton Roberto7, em 1953, é um forte golpe para o MMM Roberto, verificável na “redução do número de realizações mais publicadas” que “aponta para um declínio na qualidade da obra”8, como observa o historiador Luiz Felipe Machado. Ele também classifica o papel de cada irmão no escritório como “mentor, artífice e dínamo”9 (em ordem cronológica), ainda que o trabalho próximo realizado pelos três impossibilite diferenciá-los.

Junto a uma equipe interdisciplinar com cerca de 40 profissionais, o MMM Roberto elabora uma das propostas mais detalhadas para o concurso de Brasília em 195710. O projeto prevê a construção de sete núcleos urbanos circulares com cerca de 72 mil habitantes, que podem ser multiplicados de acordo com o crescimento populacional.

Com a morte de Marcelo Roberto em 1964, Maurício Roberto passa a coordenar sozinho o escritório renomeado M Roberto. Em 1968, seu filho Márcio Roberto (1945) começa a gerenciar a empresa com o pai. Porém, nas décadas que se seguem, poucos projetos são dignos de nota – exceção feita, por exemplo, ao edifício ao lado da Academia Brasileira de Letras (1972-1979) no centro do Rio.

Notas

1 COSTA, Lucio. Muita construção, alguma arquitetura e um milagre. In: Registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995. p.167.

2 Lucio Costa, Gregori Warchavchik (1896-1972), Affonso Eduardo Reidy (1909-1964), Alcides da Rocha Miranda (1909-2001) e Jorge Machado Moreira (1904-1992) também participam do Salão de Arquitetura Tropical.

3 BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1981.p. 98.

4 “O modelo de organização adotado pelos Roberto afastou-se tanto do escritório como ateliê, no qual o arquiteto assumia a figura do gênio criador, como do modelo norte-americano das grandes empresas normatizadas. [...] A estandartização e os rompantes criativos foram superados pelo hábito regular do trabalho e pelo tratamento particular dado a cada projeto.” In.: MACHADO COELHO DE SOUZA, Luiz Felipe. Irmãos Roberto: arquitetos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2014. p. 109-110.

5 MACHADO COELHO DE SOUZA, Luiz Felipe. Irmãos Roberto: arquitetos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2014. p. 158-158.

6 BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1981. p. 175.

7 Milton Roberto estava em meio ao seu mandato (1949-1953) como presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

8 MACHADO COELHO DE SOUZA, Luiz Felipe. Irmãos Roberto: arquitetos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2014. p. 160.

9 Ibidem. p.156.

10 O MMM Roberto divide o prêmio de terceiro e quarto lugares com Rino Levi (1901-1965) e sua equipe.

Outras informações da instituição MMM Roberto:

Fontes de pesquisa (8)

  • SENA BATISTA, Antonio José de. Arquitetos sem halo: a ação dos escritórios MMM Roberto e Henrique Mindlin Arquitetos Associados. Tese (Doutorado em História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Rio de Janeiro, 2013.
  • SOUZA, Abelardo de. Arquitetura no Brasil: depoimentos. São Paulo: Edusp:Diadorim, 1978.
  • BRAGA, Milton. O concurso de Brasília: sete projetos para uma capital. São Paulo: Cosac Naify: Imprensa Oficial:Museu da Casa Brasileira, 2010.
  • BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. Tradução Ana M. Goldberger. São Paulo: Perspectiva, 1981.
  • CAVALCANTI, Lauro. Quando o Brasil era moderno: Guia de Arquitetura 1928-1960. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.
  • MINDLIN, Henrique E. Arquitetura Moderna no Brasil. Tradução Paulo Pedreira. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999.
  • SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. 2.ed. São Paulo: Edusp, 1999.
  • SENA BATISTA, Antonio José de. Os Irmãos Roberto: por uma arquitetura constituída de padronização e singularidade. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Rio de Janeiro, 2006.

Como citar?

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  • MMM Roberto. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao11310/mmm-roberto>. Acesso em: 15 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7