Artigo da seção instituições Brasil Arquitetura

Brasil Arquitetura

Artigo da seção instituições
Artes visuais  
Data de aberturaBrasil Arquitetura: 1979 Local de abertura: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Histórico
Fundado em 1979, o escritório Brasil Arquitetura tem como sócios-fundadores os arquitetos Francisco de Paiva Fanucci (1952) e Marcelo Carvalho Ferraz (1955). Até 1995, a sociedade também conta com o arquiteto Marcelo Suzuki (1956). Eles se conhecem na década de 1970, durante a graduação na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo  (FAU/USP). Essa é uma década de esvaziamento da FAU, com vários dos principais professores que a idealizaram – como os arquitetos Vilanova Artigas (1915-1985), Sérgio Ferro (1938) e Paulo Mendes da Rocha (1928) – afastados das atividades de docência pelo regime militar.1

Em 1977, Marcelo Ferraz inicia uma relação de estreita proximidade com a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), quando trabalha como estagiário no projeto da construção do Sesc Pompeia (1977), em São Paulo. Ao concluir a graduação, Ferraz prossegue no canteiro de obras do Sesc e passa a ser um dos principais colaboradores de Lina Bardi até o final de sua vida. Nesse período, participam dos concursos para a reurbanização do Vale do Anhangabaú (1981) e para o Pavilhão Brasileiro na Exposição Universal de Sevilha (1991), ambos com a colaboração de Fanucci, além dos projetos do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) (1982), da revitalização do Centro Histórico de Salvador (1986-1990) e da sede da prefeitura de São Paulo no Palácio das Indústrias (1992).

“Lina tem a incrível capacidade de ser moderna em seus projetos, sem negar ou negligenciar os fortes elementos regionais ou tradições muito antigas ou menos antigas".2 A afirmação de Ferraz resume características de Bardi que se refletem na obra do Brasil Arquitetura: o interesse pela cultura brasileira leva à incorporação de técnicas e elementos locais em seus projetos, mesmo partindo do receituário arquitetônico moderno. Isto é, observa-se em seus projetos uma fusão entre características populares e eruditas.

Nessas bases, surge uma série de projetos de revitalização de edifícios com valor histórico: Theatro Polytheama de Jundiaí (1995), Conjunto KKKK, em Registro, São Paulo (1996), Museu Rodin Bahia (2006), Museu do Pão, em Ilópolis, Rio Grande do Sul (2007), Teatro Engenho Central, em Piracicaba (2011), e o Cais do Sertão/Museu Luiz Gonzaga, em Recife. Essas intervenções transpassam o projeto de restauração ou a intenção de restabelecer a condição original das edificações. Por um lado, há uma escolha de quais elementos antigos devem ser mantidos e recuperados. Já por outro, incorporam-se elementos contemporâneos, em contraste com os existentes. Assim, atualiza-se o lugar, dando um novo uso ou potencializando seu funcionamento. Francisco Fanucci acredita que ao lidar com projetos voltados ao patrimônio histórico é preciso ser contemporâneo, dialogar com o passado e estabelecer relações, mas nunca copiar o antigo.3

Em parte desses projetos o cuidado dos arquitetos com o contexto extrapola aspectos arquitetônicos, assumindo a dimensão humana por meio da reorganização da comunidade que envolve a edificação. São operações análogas às feitas no Sesc Pompeia por Lina Bo Bardi. Um exemplo é o projeto em Ilópolis que, além de recuperar construtivamente os moinhos em ruínas, cria um museu e uma escola. A comunidade se rearticula por meio do ensino, restituindo o caráter produtivo da construção e não somente o viés contemplativo do turismo. A arquiteta Marta Bogéa analisa o caso: “Arquitetura entendida então não apenas como meio técnico de configuração formal para atender a uma demanda, mas como elemento reorganizador da vivência nos lugares. Para realizar essa reorganização constrói o programa como possibilidade para uma vida desejável a partir das possibilidades do que lá está".4

A requalificação do Bairro Amarelo, em Berlim, na Alemanha, baseia-se  na criação de identidade fundamentada em símbolos da cultura brasileira. Selecionado por meio de um concurso, o Brasil Arquitetura intervém em um conjunto habitacional da antiga Berlim Oriental, alvo de críticas pela uniformidade das construções. São propostas novas significações, mesmo que distantes da cultura alemã, que tem como propósito a comunicação “pela força de sua expressão artística e cultural, pelo gesto delicado mas decidido na direção da agregação e da humanização”.5 Assim, os arquitetos transformaram a imagem do lugar por meio da pintura com matizes populares e do uso de muxarabis e azulejos com desenhos indígenas.

Paralelamente ao Brasil Arquitetura, os sócios criam a Marcenaria Baraúna em 1986, possibilitando que projeto e execução do mobiliário de madeira se aproximem e sejam mais controlados pelos autores. Com uma etapa de elaboração de um móvel podendo informar a outra, Fanucci e Ferraz encontram um novo campo para suas experimentações, aplicando a mesma lógica com que fazem projetos.6

A Praça das Artes (2012) é o principal equipamento cultural construído na cidade de São Paulo nas últimas décadas e o clímax da obra do Brasil Arquitetura. Feito em parceria com o arquiteto Marcos Cartum (1964), encontra-se adjacente ao Vale do Anhangabaú, no centro. A implantação é uma costura de terrenos e edifícios no interior de uma quadra, com o térreo livre para a passagem de pedestres. O conjunto edificado tem uma variedade de alturas, formas, soluções materiais e circulações, dialogando com a complexidade urbana que o envolve.

Notas
1 A ditadura militar se instaura em 1º de abril de 1964 e permanece até 15 de março de 1985. Os direitos políticos dos cidadãos são cassados e os dissidentes perseguidos.
2 FERRAZ, Marcelo. Minha experiência com Lina Bardi. AU, São Paulo, n. 40, 1992.
3 PEGORIM, Denise; BAROSSI, Antonio Carlos. Depoimentos. In: FANUCCI, Francisco et al. Brasil Arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 181.
4 BOGÉA, Marta. Brasil Arquitetura. Uma partilha das distâncias, construindo convívios. Vitruvius, Arquitextos, São Paulo, ano 14, n. 159.01, 1. ago. 2013. Disponível em: http://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.159/4844. Acesso em: 15 mai. 2014.
5 SANTOS, Cecília Rodrigues dos. Arquiteturas do Brasil: Brasil Arquitetura. In: FANUCCI, Francisco et al. Brasil Arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 22.
6 FANUCCI, Francisco; FERRAZ, Marcelo. Arquitetura de mobiliário: a Marcenaria Baraúna. In: FANUCCI, Francisco et al. Brasil Arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p.170.

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (8)

  • BOGÉA, Marta. Brasil Arquitetura. Uma partilha das distâncias, construindo convívios. Vitruvius, Arquitextos, São Paulo, ano 14, n. 159.01, 1. ago. 2013. Disponível em: http://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.159/4844. Acesso em: 5 abr. 2015. 
  • FANUCCI, Francisco et al. Brasil Arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2005. 
  • FERRAZ, Marcelo Carvalho. Arquitetura conversável. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2011. 
  • GUERRA, Abilio. Prêmio APCA 2012, categoria “obra de arquitetura”. Vitruvius, Drops, São Paulo, ano 13, n. 063.08, 1 dez. 2012. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/13.063/4629. Acesso em: 5 abr. 2015.
  • MONOLITO - X BIENAL DE ARQUITETURA DE SÃO PAULO. São Paulo: Editora Monolito, n. 17, 2013.
  • NOSEK, Victor (org.). Praça das Artes. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2013. 
  • WILDEROM, Mariana. O popular no design brasileiro. Objetividade necessária x romantismo artesanal. Vitruvius, Arquitextos, São Paulo, ano 13, n. 156.00, 1 mai. 2013. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/13.156/4797. Acesso em: 5 abr. 2015.
  • LINA Bo Bardi. Organizacao Marcelo Carvalho Ferraz; comentário Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BRASIL Arquitetura. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao112963/brasil-arquitetura>. Acesso em: 30 de Mar. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7