Artigo da seção grupos Companhias Oficiais de Danças Brasileiras

Companhias Oficiais de Danças Brasileiras

Artigo da seção grupos
Dança  
Data de criação da obra Companhias Oficiais de Danças Brasileiras: 1661

Histórico

Companhias oficiais de dança são mantidas com financiamento público por meio de orçamento direto, arrecadação de impostos ou concessão de benefícios fiscais. Esse formato de companhia nasce em 1661, ano em que o rei francês Luís XIV (1638-1715) funda a Academia Real de Dança. Nela, inicia-se a profissionalização da dança, que garante renda fixa a dançarinos de óperas. Esse modelo parisiense conquista as cortes europeias e alcança outros países.

No Brasil, a primeira companhia oficial com esse formato é o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, criado em 1936. Ela é dirigida por Maria Olenewa (1896-1965), bailarina, coreógrafa e professora russa responsável pela formação das primeiras escolas públicas de dança do País.

Antes dela, há outras investidas. Em 1913, a empresa La Teatral, que arrenda o Theatro Municipal, contrata o professor, dançarino e coreógrafo italiano Achille Viscusi (1869-1945) para dirigir uma nova escola de dança. Por falta de interesse do poder público e de audiência, ela encerra as atividades tempos depois. A segunda tentativa se dá em 1926, quando o italiano Walter Mocchi (1870-1955), da mesma empresa, inclui nova cláusula no contrato com o Theatro Municipal: contratação de professor conceituado internacionalmente para criação da Escola de Bailados e do Corpo de Baile da instituição. Proposta aceita, a bailarina russa Julija Nikolaevna Sedova (1880-1969) é contratada, mas novamente o desinteresse público faz a bailarina retornar à Europa, e a escola fecha as portas. Ainda em 1926, outra proposta é feita ao teatro, agora por um casal: o russo Pierre Michailowsky (1888-1970) e a francesa Vera Grabinska (?-1986). Eles pretendem criar uma Escola de Danças Clássicas no formato do Teatro Colón de Buenos Aires, mas a proposta é recusada. Em 1927, ao lado do diretor teatral Mário Nunes (1886-1968), Maria Olenewa inaugura a Escola de Bailados do Theatro Municipal (atual Escola Estadual de Dança Maria Olenewa). Finalmente, em 1936, é inaugurado o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (atual Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro).

Na década de 1960, são criadas mais duas companhias de dança. Em 1968, inaugura-se o Corpo de Baile Municipal de São Paulo (atual Balé da Cidade de São Paulo), pertencente ao Teatro Municipal. Em 1969, é criado o Corpo de Baile da Fundação Teatro Guaíra (atual Balé Teatro Guaíra), em Curitiba, Paraná. 

No início, essas companhias organizam as fichas técnicas hierarquicamente: primeiros-bailarinos, primeiros-solistas, segundos-solistas, bailarinos principais e bailarinos, entre outras denominações que se transformam de acordo com o processo de reestruturação de proposta artística. O Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro é a única companhia que mantém essas nomenclaturas.

Anos mais tarde, são inauguradas a Escola Municipal de Bailado do Teatro Municipal de São Paulo (1940) e, em seguida, o Curso de Danças Clássicas do Teatro Guaíra (1956), atual Escola de Danças Clássicas.

Além de formar o próprio corpo de baile, a escola pública surge com o objetivo de preparar bailarinos para acompanhar as temporadas de óperas nacionais e internacionais, evitando despesas com artistas e companhias estrangeiras. Posteriormente, as escolas e os corpos de baile que delas derivam contribuem para fomentar o anseio de profissionalização do bailado nacional.

A formação técnica em balé clássico é predominante na estrutura curricular dessas três escolas. No caso da carioca, seu regulamento é publicado somente em 1931, com dois cursos obrigatórios - preparatório e superior -, além de cursos de artes plásticas, ginástica, danças clássicas e típicas1. A partir do final da década de 1950, são incluídas na grade curricular dessas escolas aulas de dança moderna, danças folclóricas, repertório, história da arte, história da dança, interpretação, música, anatomia e outras disciplinas. Para promover o ensino gratuito na formação profissionalizante dessas escolas, regras de ingresso são estabelecidas: os candidatos devem ter entre 8 e 13 anos e realizar teste de aptidão física, artística e técnica, com exames específicos. Além disso, devem atender a exigências prévias de altura, peso, flexibilidade, musicalidade etc.

Se, no início, o corpo de baile acompanha as óperas, com o passar dos anos a sua autonomia entra em vigor. Desvencilhando-se dessa função, os corpos de baile transformam-se em companhias profissionais e definem estilo artístico e programação próprios. No final do século XX, a relação entre companhia e escola torna-se menos necessária, não havendo mais a exigência de vínculo obrigatório para contratação de um bailarino. Quando esses corpos de baile são inaugurados, os bailarinos recebem cachês por apresentações nas óperas, pois não há contratação direta pelos órgãos públicos. Atualmente, para integrar o elenco de uma companhia, o bailarino presta uma audição pública. As companhias de dança podem estar abrigadas em fundações, autarquias, organizações sociais e centros culturais municipais ou estaduais ou são vinculadas diretamente aos teatros públicos e regidas pelas leis e normas contratuais dessas instituições. A posse dos diretores está relacionada ao sistema eleitoral.

A partir de 1936, registra-se no Brasil o surgimento de 182 companhias, distribuídas pelas regiões Sul, Sudeste, Nordeste e Norte. No conjunto coreográfico dessas instituições públicas, as que mantêm como base o repertório clássico são o Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Balé Teatro Guaíra e a companhia mais jovem dentre todas, a São Paulo Cia. de Dança, criada em 2009. Em todas elas, transitam coreógrafos das várias linguagens do balé e da dança moderna e contemporânea, nacionais e estrangeiros.

Notas

1 MELGAÇO, Paulo. Os grand-jetés que constróem uma história. In: FREITAS, Anna Lee R. Um sonho feito de cores - Escola Estadual de Dança Maria Olenewa. Rio de Janeiro: Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 2008.

2 Essas são as companhias mapeadas até o momento, mas podem existir outras ainda não registradas.

Fontes de pesquisa (12)

  • ACHCAR, Dalal. Balé: uma arte. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.
  • ALVARENGA, Arnaldo Leite. Corpos artísticos do Palácio das Artes: trajetórias e movimentos (Cia. de Dança). Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, Fundação Clóvis Salgado, 2006.
  • BOURCIER, Paul. História da dança no Ocidente. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • DIAS, Lineu. Corpo de Baile Municipal. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento de Informação e Documentação Artística, Centro de Pesquisa de Arte Brasileira; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1980.
  • FARO, Antonio José. Pequena história da dança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
  • FARO, Antonio José; SAMPAIO, Luiz Paulo. Dicionário de balé e dança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989.
  • MELGAÇO, Paulo. Os grand-jetés que constróem uma história. In: FREITAS, Anna Lee R. Um sonho feito de cores - Escola Estadual de Dança Maria Olenewa. Rio de Janeiro: Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 2008.
  • NAVAS, Cássia (Org.). Balé da Cidade de São Paulo. São Paulo: Formarte, 2003.
  • NORA, Sigrid. Comunicação em rede: a dança em Caxias do Sul de 1997 a 2004. Tese (Doutorado em Comunicação e Semiótica) - Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2005.
  • PEREIRA, Roberto. A formação do balé brasileiro: nacionalismo e estilização. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003.
  • SUCENA, Eduardo. A dança teatral no Brasil. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura; Fundação Nacional de Artes Cênicas, 1989.
  • VIEIRA, Sérgio. Balé Guaíra. Curitiba: Imagem Sul, 2005.

Como citar?

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  • COMPANHIAS Oficiais de Danças Brasileiras. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo636119/companhias-oficiais-de-dancas-brasileiras>. Acesso em: 22 de Nov. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7