Artigo da seção grupos As Galvão

As Galvão

Artigo da seção grupos
Música  

Histórico

Dupla sertaneja, cantoras, instrumentistas. Protagonistas do mais duradouro duo brasileiro, as irmãs Mary [(Mary Zuil Galvão (Ourinhos, São, Paulo 1940)] e Marilene [(Marilene Galvão (Palmital, São Paulo, 1942)] são uma das poucas duplas femininas a sobreviver por décadas num ambiente dominado por homens, quando o papel de mãe e dona de casa geralmente colocava fim à carreira das mulheres. Tendo a escuta marcada pelos grandes sucessos da Rádio Nacional, como Francisco Alves (1898-1952), Orlando Silva (1915-1978) e Linda Batista (1919-1988), iniciam em 1947 na Rádio Marconi de Paraguaçu Paulista, onde vivem parte da infância.

Participam de uma geração já adaptada à duração do disco de 78 rotações, mas ainda próxima às manifestações culturais do interior e das bordas da cidade. Contribuem para a ampliação do campo da música caipira através da inclusão de gêneros como o recortado, a guarânia e a polca paraguaia, casando sonoridades que têm como pano de fundo a cultura ibero-indígena. Nos anos 1950, soma-se a influência da música mexicana, com os corridos e rancheiras. Outro aspecto do período é que se tornam cada vez mais comuns as duplas formadas por irmãos, por dar coesão aos timbres. A partir dessa geração, cantar em dupla se torna quase sinônimo de fazer música sertaneja.

Em 1950, a família muda-se para Assis, onde elas cantam na Rádio Difusora, e depois vão para Maringá, trabalhando na Rádio Cultura. Incentivadas pelo pai, aprendem a tocar sanfona (Mary) e violão (Marilene). Passam a atuar também em circos. Por influência das Irmãs Castro – intérpretes do corrido “Beijinho Doce” (Nhô Pai), que depois se torna uma das músicas centrais do repertório das Galvão – tentam a carreira em São Paulo. Cantam no programa Torre de Babel, na Rádio Piratininga, em 1952. No ano seguinte vão para a Rádio Nacional de São Paulo, integrando o elenco da Ronda dos Bairros, ao lado de Emilinha Borba (1923-2005), Marlene (1922-2017) e Cauby Peixoto (1931-2016). Ao assumir um estilo mais relacionado ao sertanejo, aos poucos perdem espaço na programação da emissora. Em 1953 fazem breve temporada no Domingo Alegre (Rádio Cultura), passando depois a ter seu próprio programa na Rádio Bandeirantes.

Convidadas por Palmeira, compositor e diretor artístico da RCA, gravam “Rincão Guarani”, versão dele para uma polca paraguaia, além de composições de Teddy Vieira ( 1922-1965) e Lourival dos Santos (1917-1997). Excursionam pelo interior do estado ao lado do humorista Comendador Biguá. Em 1956 gravam outros três 78 RPM, agregando ao repertório composições de Anacleto Rosas Jr. e Elpídio dos Santos. Em 1960 lançam o primeiro LP, Apaixonada. Ainda na Rádio Bandeirantes, lançam seu último 78 RPM num programa de MPB, contrariando a orientação da emissora de não executar uma moda de viola em horário nobre. Deixam a estação no final de 1963 e são contratadas pela Rádio Nove de Julho. Em 1964 a família Galvão adquire o circo de Nhô Pai, mas encerrariam as atividades depois de um semestre.

Após uma pausa em que ambas decidem se dedicar à maternidade, em 1972 voltam a gravar e a fazer turnês. Defendem a canção “Riozinho” (José Fortuna e Carlos César) no II Festival Record da Música Sertaneja (1979), conquistando o primeiro lugar. A partir de sua participação na Festa do Peão de Barretos nos anos 70, incorporam em suas performances a catira, dança eminentemente masculina.

Em 1980 lançam o LP Cantigas da Minha Terra, cujo repertório traz toadas, pagodes, cururu e catira, e compositores ligados à MPB. No mesmo ano, participam da estreia do programa Viola Minha Viola, apresentado por Moraes Sarmento (1922-1998) e Inezita Barroso (1925-2015). Com o fim das contratações para o rádio nos anos 80, sua última participação no cast de uma emissora é para o programa Linha Sertaneja Classe A, na Rádio Record. Participam do Projeto Musical Funarte com o espetáculo Emoção-Amor, dividido com Nora Ney (1922-2003). Em 1981 gravam o LP Para todo o Sempre, com releituras de clássicos caipiras, além de uma homenagem às Irmãs Castro, Mário Zan (1920-2006), Cascatinha & Inhana e Duo Brasil Moreno, com arranjos de Robertinho do Acordeom (1939-2006) e Seu Regional. No mesmo ano participam do projeto Canto da Terra, ao lado do maestro Mário Campanha, que se torna o produtor, arranjador, diretor artístico da dupla e marido de Mary. A partir de Campanha, a instrumentação – até então centrada praticamente no violão e sanfona – passa a contar com bateria, contrabaixo e guitarra em seus arranjos, tendência já aderida a partir dos anos 60 por duplas como Léo Canhoto & Robertinho, Milionário & José Rico e pelo cantor Sérgio Reis (1940).

Em 1985, sob a influência da lambada, gravam “No Calor dos Teus Abraços” (Niceas Drumont e Cecílio Nena), com a qual obtêm o primeiro disco de ouro. Em 1992 lançam o CD Lembranças, no qual fazem releituras de sucessos da MPB. Vencedor do Prêmio Sharp e trabalho que as populariza em Portugal, o álbum fica, porém, fora de catálogo por conta de uma questão de direitos autorais entre a Warner e o compositor Baden Powell (1937-2000), parceiro de Vinícius de Moraes (1913-1980) na faixa “Apelo” – somente em 2002 as cantoras conseguem na Justiça o direito ao máster.

Por sugestão da numerologia, suprimem “Irmãs” do nome da dupla, e passam a se chamar apenas “As Galvão”, a partir do CD Nóis e a Viola. Indicado ao Grammy de 2002, traz a participação do ator Jackson Antunes declamando os versos de “Cabocla Tereza” e solos de Marilene nas faixas “Triste Berrante” (Adauto Santos) e “Aquela Flor” [Alvarenga (1912-1978)]. Quando relançado, inclui a faixa “Habanera da Esperança” (M. Panella, versão de Wanderlei Pereira), trilha da novela Canavial de Paixões (2003) do SBT. Participam dos projetos O Dom de Ser Caipira (2003), O Brasil Caboclo de Cornélio Pires (2007) e Brasil Clássico Caipira (2009).

Apesar da longevidade e da produção extensa, a trajetória da dupla é representativa da cisão entre a “Música Popular Brasileira” e a música caipira ou sertaneja. Conforme aponta Vilela (2016: 132), talvez pela “depreciação sócio-histórica a que foi submetido o caipira migrante na cidade grande durante o êxodo rural (...) sua música passou a ser tratada como menor”, de modo que “ela sequer foi entendida como um braço da MPB”.

Notas

VILELA, Ivan. Canonizações e esquecimentos na música popular brasileira. Revista USP. São Paulo, n. 111, p. 125-134, out./nov./dez. 2016.

 

 

Fontes de pesquisa (7)

  • ALBIN, Ricardo Cravo. MPB mulher. Apresentação Eduardo Karrer et al.; fotografia Mario Luiz Thompson. Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cravo Albin, 2006. 194 p., il.
  • AS GALVÃO. Site oficial da dupla. Disponível em: http://www.asgalvao.com.br. Acesso em: 23 set. 2017.
  • IRMÃS GALVÃO. Entrevista da dupla para o site Gafieiras. Disponível em: http://gafieiras.com.br/entrevistas/irmas-galvao/1/. Acesso em: 23 set. 2017.
  • MONTEIRO, Maikel. Dossiê As Galvão: as soberanas – 70 anos de estrada. Curitiba: Editora Inverso, 2017. 210 p.
  • NEPOMUCENO, Rosa. Música caipira. Da roça ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 1999.
  • VILELA, Ivan. Cantando a própria história: música caipira e enraizamento. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013. 328 p.
  • VILELA, Ivan. Canonizações e esquecimentos na música popular brasileira. Revista USP. São Paulo, n. 111, p. 125-134, out./nov./dez. 2016.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • AS Galvão. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo636111/as-galvao>. Acesso em: 12 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7