Artigo da seção grupos Racionais MC's

Racionais MC's

Artigo da seção grupos
 
Data de criação da obra Racionais MC's: 1980

Histórico
Racionais MC’s é um grupo de rap paulistano formado pelo encontro das duplas de Mano Brown (Pedro Paulo Soares Pereira, 1970) e Ice Blue (Paulo Eduardo Salvador, 1970), os B.B. Boys, e de Edi Rock (Adivaldo Pereira Alves, 1970) e KL Jay (Kléber Geraldo Lelis Simões, 1969). O envolvimento de Mano Brown e Ice Blue com a música se inicia na infância pela cultura do candomblé, levados pelas mães aos terreiros. Os dois crescem na zona sul de São Paulo. Brown, na adolescência, integra um grupo de samba. Rock e KL Jay são da zona norte.

Nos anos 1980, eles frequentam bailes de música negra e KL Jay chama atenção pelo talento como dançarino de break. Edi Rock começa a cantar rap e abre shows para artistas como Thaíde & DJ Hum e MC Jack. KL Jay começa a acompanhá-lo como DJ. Os quatro frequentam o Largo de São Bento, reduto paulistano da cultura hip-hop nos anos 1980. O produtor cultural Milton Salles é quem promove a fusão das duplas no grupo Racionais MC’s e, em 1988, passa a empresariá-lo.

O nome é inspirado na chamada “fase racional”,1  do cantor e compositor carioca Tim Maia (1942 - 1998), uma das principais referências do grupo, que sampleia a música Ela Partiu (Tim Maia e Beto Cajueiro), de 1977, na faixa Homem na Estrada, lançada em 1993, no terceiro disco dos MC’s, Raio X Brasil. O grupo de rap norte-americano Public Enemy,2 cujo show em São Paulo, em 1991, tem participação dos Racionais MC’s, é outra influência do grupo, que usa a base instrumental da música Fight the Power (trilha sonora do filme Faça a Coisa Certa, 1989, do cineasta negro norte-americano Spike Lee) em Pânico na Zona Sul. A influência não é somente musical, mas também de postura política  e performance.

O compositor carioca Jorge Ben Jor (1942), no entanto, é a referência mais presente: ele participa do DVD 1000 Trutas, 1000 Tretas, de 2007, cantando e tocando guitarra na faixa de abertura do trabalho, A Bênção Mamãe, a Bênção Papai; regrava em parceria com Mano Brown a faixa Ponta de Lança Africano (Umbabarauma), em 2010; tem a música Jorge da Capadócia regravada pelo grupo ( a primeira do álbum Sobrevivendo no Inferno, de 1997); e trechos cantados de Frases e Dumingaz são utilizados no refrão da faixa Fim de Semana no Parque, de 1993. Em 1988, as duas primeiras músicas são lançadas na coletânea de rap Consciência Black, Vol. 1, pelo selo Zimbabwe: Pânico na Zona Sul e Tempos Difíceis, e incluídas no primeiro disco, Holocausto Urbano, de 1990. A crítica social, o preconceito, a discriminação do negro e o cotidiano na periferia se destacam nas letras, a exemplo de Racistas Otários e Pânico na Zona Sul.

Em 1992, os Racionais MC’s lançam o segundo disco, Escolha Seu Caminho, um EP com quatro faixas, sendo três delas versões para Voz Ativa, um sucesso em sua primeira fase, com base instrumental criada a partir do funk norte-americano Givin’Up Food  for Funk, da banda JB’s. Na fotografia que ilustra a capa do disco, os integrantes contam dinheiro, usam drogas e portam armas. Na contracapa, outra foto no mesmo ambiente mostra os quatro cercados de livros. A imagem reforça uma de suas bandeiras ideológicas na época, que prega a leitura e a informação para combater o racismo e o preconceito, bem como a influência do ativista político Malcolm X, citado em Voz Ativa, cuja biografia inspira fortemente o grupo nessa fase.

O terceiro disco, Raio X Brasil, é lançado em 1993. Samples de funk e soul norte-americanos são utilizados nas músicas Mano na Porta do Bar (Freddie’s Dead, de Curtis Mayfield), Júri Racional (Cissy Strut, de The Meters) e Fio da Navalha (Main Theme from Trouble Man, de Marvin Gaye).

Fim de Semana no Parque e Homem na Estrada são composições marcantes. Na primeira, um narrador em constante movimento reflete sobre a diferença do cotidiano na periferia paulistana e o resto da cidade e estabelece uma comparação entre o comportamento social em um clube particular e um parque público. O refrão “vamos passear no parque, eu vou rezar pra esse menino” é retirado de duas canções de Ben Jor (na voz do próprio). Homem na Estrada narra a dificuldade de um ex-presidiário em se recolocar na sociedade até ser morto pela polícia no fim da música. E quando a letra diz “nunca mais voltou”, a voz de Tim Maia (em trecho retirado da canção Ela Partiu) se soma à de Mano Brown. As duas músicas apresentam um elemento novo também nos arranjos, em que o DJ KL Jay usa frases dos cantores sampleados para se somar ao discurso da letra.

Sobrevivendo no Inferno, de 1997, é o grande sucesso e vende mais de 1 milhão de cópias. É o primeiro disco lançado pelo selo administrado pelo grupo, o Cosa Nostra. O clipe da faixa Diário de um Detento é exibido à exaustão na MTV brasileira. A música, de Brown em parceria com o ex-detento Josemir Prado (apelidado Jocenir), aborda o massacre do complexo presidiário Carandiru em que 111 presos são mortos pela polícia após uma rebelião, em 1992. A narrativa detalhada, em primeira pessoa, é acompanhada por uma base instrumental tensa (sampleada de Easin’In, do artista norte-americano Edwin Starr). “O dia tá chuvoso, o clima tá tenso / vários tentaram fugir, eu também quero / Mas de um a cem, a minha chance é zero (...)”, diz a letra sobre instantes que antecedem o massacre. No final, faz um ataque direto ao político Luiz Antônio Fleury Filho, governador de São Paulo na época: “Ratatá, Fleury e sua gangue / vão nadar numa piscina de sangue”. A faixa tem mais de sete minutos, assim como outras do disco: Capítulo 4, Versículo 3 (com 8:09), Tô Ouvindo Alguém Me Chamar (11:09), Fórmula Mágica da Paz (10:40). Essa característica é consequência da evolução do estilo das letras, cada vez maiores e mais detalhistas.

A produção do disco apresenta uma clara evolução em relação aos anteriores, com arranjos instrumentais mais trabalhados. Além das bases sampleadas, outros elementos são usados para construir uma sensação cinematográfica. Tô Ouvindo Alguém Me Chamar, por exemplo, é acompanhada em toda a duração da música por um barulho que sugere o batimento cardíaco captado por um aparelho médico. Já Diário de um Detento é marcado por ruídos que lembram o ponteiro de um relógio e enfatizam trechos da letra: “Acendo um cigarro e vejo o dia passar / Mata o tempo para ele não me matar” e “Tic tac, ainda é nove e quarenta / O relógio da cadeia anda em câmera lenta”. War, Isaac Hayes e Isley Brothers estão entre os artistas de funk e soul norte-americanos sampleados no disco.

O clipe de Diário de um Detento é premiado no Video Music Brasil  (VMB)  da MTV, em 2008, nas categorias “melhor clipe de rap” e “escolha da audiência”. O grupo aceita participar da cerimônia da premiação, em rara aparição na TV, e apresenta Capítulo 4, Versículo 3. Na hora de receber o prêmio “escolha da audiência”, o grupo se indispõe com o apresentador da cerimônia, o compositor baiano Carlinhos Brown (1962), que interrompe o discurso de agradecimento de KL Jay para cantar uma música.

Em 2002, os Racionais MC’s lançam Nada Como um Dia após o Outro Dia. O disco é duplo, com 21 faixas e quase duas horas de duração. Músicas como Vida Loka Parte 2, Negro Drama, Eu Sou 157 e Jesus Chorou se tornam clássicos do grupo. Algumas faixas refletem a ascensão social que a carreira musical proporciona aos integrantes. Vida Loka Parte 2 também aborda o dilema do negro de origem humilde que ascende socialmente e é seduzido por uma vida de ostentação.

Em 2007, lançam o DVD 1000 Trutas, 1000 Tretas, com imagens de um show gravado em 2004, no Sesc Itaquera, e participação de Jorge Ben Jor, além de um documentário dirigido por Mano Brown sobre a história da comunidade negra em São Paulo. Nesse ano, o show dos Racionais MC’s na Virada Cultural é interrompido por um confronto entre a Polícia Militar e parte do público na Praça da Sé. O grupo, então, deixa de participar do evento nos anos seguintes e retorna apenas em 2013, com um show sem ocorrências policiais e quase 100 mil pessoas na Praça Júlio Prestes.

Sem lançar um disco desde 2002, os Racionais MC’s divulgam algumas músicas inéditas a partir daí: Mil Faces de um Homem Leal (Marighella) – composta para o documentário Marighella, de Silvio Tendler (1950), premiado no VMB na categoria clipe, em 2012 –, Cores e Valores, Mente do Vilão, Mulher Elétrica, Dance, Dance, Gangsta Boogie e Homem Invisível. Edi Rock lança seu primeiro disco solo em 2013, Contra Nós Ninguém Será.

Em toda a carreira, os Racionais MC’s fazem raras aparições na grande mídia com a alegação de que a imprensa deturpa o conteúdo das entrevistas. Os programas Ensaio e Roda Viva, da TV Cultura, e as revistas Rolling Stone Brasil e Caros Amigos são raras exceções. Por seu discurso articulado e crítico, Mano Brown é considerado uma das principais vozes da periferia do Brasil. No entanto, apesar da postura arredia em relação à mídia, os Racionais MC’s participam de discos de artistas de sucesso popular como o grupo Negritude Junior, em Gente da Gente, de 1995, na faixa homônima de Netinho de Paula (1970) e Waguinho (1965); o pagodeiro Belo, em Pra Ver o Sol Brilharao Vivo (2008), nas faixas Para o Belo e Oya; e Seu Jorge (1970), em Músicas para Churrasco vol. 1  ao Vivo na Quinta da Boa Vista, nas faixas Diário de um Detento e Negro Drama. KL Jay e os Racionais MC’s também participam do disco independente da cantora Ully Costa, do grupo Sandália de Prata, Quem Sou Eu (2013), na faixa Festa do Rei Nagô, de Jairo Cechin.

Notas
1 A chamada “fase racional” de Tim Maia está relacionada ao momento em que ele está influenciado pela leitura do livro Universo em Desencanto, que versa sobre um mundo denominado Superior Racional, para onde a humanidade deveria se direcionar a partir dos conhecimentos professados por essa leitura. Nessa fase Tim Maia lança dois volumes do disco Tim Maia Racional (1975/1976), com canções cujas letras pregam  ensinamentos da cultura racional.

2 Public Enemy, grupo de rap norte-americano que surge no início dos anos 1980, tem como característica um discurso político-social engajado na luta pelos direitos dos afrodescendentes. Faz referências aos líderes do movimento negro como Martin Luther King e Malcolm X, e também ao grupo revolucionário Panteras Negras.

Outras informações do grupo Racionais MC's:

  • Relações com outros artigos da enciclopédia:

Obras de Racionais MC's: (1) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (7)

  • CARAMANTE, André. Eminência Parda. Rolling Stone Brasil São Paulo, n. 39,  dez. 2009.
  • CARAMANTE, André. Os Quatro pretos mais perigosos do Brasil. Rolling Stone Brasil, São paulo, n. 86, nov.  2013.
  • GARCIA, Walter. Diário de um Detento: uma interpretação. In: NESTROVSKI, Arthur (Org.). Lendo Música - 10 Ensaios Sobre 10 Canções. São Paulo: Publifolha, 2007.
  • GARCIA, Walter. Ouvindo Racionais MC’s. Teresa, revista de literatura brasileira, n.4/ 5, 2003.
  • GARCIA, Walter. Sobre uma Cena de “Fim de Semana no Parque”, dos Racionais MC’s. Estudos Avançados, São Paulo, v. 25,  jan./ abr. 2011.
  • KALILI, Sérgio. Mano Brown é um Fenômeno. Caros Amigos, São Paulo, jan. 1998.
  • ZENI, Bruno. O Negro Drama do Rap: entre a lei do cão e a lei da selva. Revista Estudos Avançados: Instituto de estudos avançados, da Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 18, n. 50, 20 fev. 2004.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • RACIONAIS MC's. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo636012/racionais-mcs>. Acesso em: 22 de Fev. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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