Artigo da seção grupos Alvarenga e Ranchinho

Alvarenga e Ranchinho

Artigo da seção grupos
Música  
Data de criação da obra Alvarenga e Ranchinho: 1933 Local de crição: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de término 1970

Histórico
Alvarenga (1912-1978) e Ranchinho (1913-1991). Dupla sertaneja, compositores, cantores e humoristas. Em quatro décadas de carreira, a dupla Alvarenga e Ranchinho trabalha no circo, teatro, rádio, cinema, em gravadoras e, por fim, na televisão, ocupando um lugar de destaque na circulação da música rural nos centros urbanos, iniciada no fim dos anos 1920 por Cornélio Pires e sua Turma Caipira (Columbia do Brasil), seguida pela Turma Caipira Victor (RCA-Victor).

Alvarenga inicia sua carreira aos 11 anos, como trapezista e cantor de tango no Circo Pinheiro. Ranchinho, como Diésis, fica conhecido por sua interpretação marcante de No Rancho Fundo, na Rádio Clube de Santos. É na cidade paulista de Santos que os dois se conhecem, em 1928, e, cinco anos mais tarde, formam a dupla, em São Paulo. Inicialmente, apresentam-se com a Companhia Bataclã, e no ano seguinte são convidados pelo maestro Breno Rossi para cantar na Rádio São Paulo. Ainda em 1934, formam por um breve período o trio Os Mosqueteiros da Garoa, com o cantor e ator Silvino Neto. Com a marcha Sai, Feia, de 1935, gravada por Raul Torres, vencem um concurso de músicas carnavalescas em São Paulo.

A dupla é convidada pelo compositor Capitão Furtado, parceiro de várias composições, para trabalhar no filme Fazendo Fita, do diretor Vittorio Capellaro, em 1935. Um ano depois, começa uma temporada na Casa de Caboclo, no Rio de Janeiro, e apresenta a Hora do Guri, programa vespertino na Rádio Tupi. Grava o primeiro disco pela Odeon - a moda de viola Itália e Abissínia, com Capitão Furtado, e o cateretê Liga das Nações (1936). Em 1937, em parceria com Herivelto Martins, lança a marchinha carnavalesca Seu Condutor, e faz temporada no Teatro Smart, em Buenos Aires. Integra o elenco do Cassino da Urca até seu fechamento, em 1946, onde define o estilo de humor, baseado no modo de falar manso e nasalado caipira, nas rimas incomuns, nas paródias e sátiras políticas. Para o sociólogo Waldenir Caldas, o sucesso de Alvarenga e Ranchinho se explica pela novidade que é uma dupla caipira no começo dos anos 1930, até mesmo para a população do Rio de Janeiro, capital política e cultural do Brasil. E também porque o local das apresentações é de visibilidade turística, dando-lhes traços de "número folclórico brasileiro".

Em 1938, a dupla se separa pela primeira vez e o cantor Bentinho grava um disco com o grupo Alvarenga e Sua Gente. Em 1939, a dupla volta, gravando novo disco com Capitão Furtado. E passa a se apresentar na Rádio Mayrink Veiga, sob o slogan "Os milionários do riso".

Ao assumir um estilo caricatural de caipira, a dupla faz crítica aos costumes urbanos, às relações de trabalho e à política, sublimando pelo riso as tensões latentes na sociedade. Valendo-se de músicas populares e jingles tocados no rádio, constrói paródias irreverentes. A marcha carnavalesca Pirata da Perna de Pau, por exemplo, recebe duas versões, uma com o político comunista Luís Carlos Prestes e outra com o presidente Getúlio Vargas como "alvo". A burocracia do Estado é satirizada em A História de um Soldado (1957), paródia do lundu O Soldado que Perdeu a Parada (1907), de Eduardo das Neves. Em 1948, Alvarenga e Ranchinho gravam uma paródia de Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues. Na moda de viola Liga dos Bichos (1936), parceria com o Capitão Furtado, há um comentário provocativo, "os burros monta na gente / e ainda chama na espora". Não é à toa que encerram as apresentações por um tempo com o jargão "amanhã cês têm mais, se eu ainda tivé sorto": num momento de cerceamento político e censura, sobretudo com a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), em 1939, suas sátiras os levam à prisão quatro vezes - até que, a convite de Alzira Vargas (filha de Getúlio Vargas), eles cantam seu repertório para o presidente da República. O episódio resulta na liberação, a mando do próprio chefe do Estado Novo, da execução de suas músicas em todo o território nacional.

As sátiras, porém, não só ridicularizam publicamente os políticos como contribuem para a promoção de alguns, como o governador de São Paulo, Adhemar de Barros, e o presidente Juscelino Kubitschek. Já com Jânio Quadros a dupla tem problemas, quando o candidato à Presidência proíbe o disco Alvarenga e Ranchinho e os Políticos, de 1959, e multa as rádios que tocam suas sátiras.

Por outro lado, suas composições fazem uma caricatura da própria sociedade brasileira, que se queixa das dificuldades, mas no fim das contas prefere deixar as coisas como estão:

"Do jeito que nós vai indo / Com as coisa tudo subindo / Eu num sei como há de ser /... / Essa vida tá um osso / Bem duro da gente roer /... / Se recorre à greve, então / Veja a compensação / Baixa logo o cassetete /... / Mas querem saber de uma / Queixa num dianta nenhuma /... / É bom deixá como está / Pra ver como é que fica". (Trecho de Tudo tá Subindo, 1955)

Já o contraste entre as tradições do Brasil rural e as transformações do Brasil moderno aparece em músicas como O Divórcio Vem Aí (1939), num misto de ingenuidade e malícia. Recorrendo a estereótipos, como em Liga das Nações (1936) e Moda do Casamento (1942), e às vezes ao absurdo, ao exagero, como em O Romance de uma Caveira (1940), com Chiquinho Sales, e o canto tétrico Drama de Angélica, de M.G. Barreto, a dupla subverte registros, conferindo graça à existência cotidiana, marcada corriqueiramente por inúmeros dissabores.

Nos anos 1960, após enfrentar o assédio do baião nordestino, que rebate com O Baião Encheu, em 1953, a dupla deixa a rádio para trabalhar apenas na televisão, e, em 1965, Homero de Souza Campos substitui definitivamente Ranchinho. Enfim, após período de sucesso, com apresentação no exterior (em 1950, no Cassino Estoril, em Lisboa), e de atuar em mais de 30 filmes, a dupla perde seu lugar nos centros urbanos, passando, a partir da década de 1970, a se apresentar só no interior, onde ainda faz sucesso, até a morte de Alvarenga.

Entre os maiores sucessos da dupla destacam-se também as composições Violeiro Triste (1937), Moda da Guerra (1939), Quem Invento o Trabaio (1940), Carrero Bão (1941), Desafio de Perguntas (1946), Valsa dos Cacófatos (1948), Mister Eco (1953), de Good Morning M. Echo, versão de Alvarenga, e, em parceria com Capitão Furtado,  Moda do Beijo (1936), Moda dos Meses (1937), Psicologia dos Nomes (1939).

Outras informações do grupo Alvarenga e Ranchinho:

  • Outros nomes
    • Os Milionários do Riso
  • Relações com outros artigos da enciclopédia:

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ALVARENGA e Ranchinho. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo560851/alvarenga-e-ranchinho>. Acesso em: 22 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7