Artigo da seção grupos Descascando o Abacaxi

Descascando o Abacaxi

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data/Local
1981 - Porto Alegre RS - Fundação

1985 - Porto Alegre RS - Encerramento

Histórico
Entre os vários grupos teatrais surgidos em Porto Alegre no início da década de 1980, Descascando o Abacaxi se destaca por utilizar, em montagens irreverentes, recursos cênicos que fazem referência às chanchadas, aos programas de auditório e ao tropicalismo, em busca de comunicação direta com a plateia.

Criado pelo diretor Luciano Alabarse, o grupo tem sua gênese no Grêmio Dramático Açores, formado no âmbito do Teatro de Arena de Porto Alegre - TAPA em 1979. No ano seguinte, Alabarse monta Os Filhos de Kennedy, com a equipe formada por Aroldo Haro, Gilberto Gawronski, Java Bonamigo, Mauro Soares, Vera Karam e Zeca Kiechaloski, que, a partir de 1981, adota o nome Descascando o Abacaxi.

A proposta coletiva de trabalho fica explícita no primeiro espetáculo, Esta Não É a Sua Vida, cujo texto é escrito pelo dramaturgo gaúcho Carlos Carvalho, com base em improvisações dos integrantes do grupo. A peça faz uma paródia de programas de televisão, ao enfocar a vida da personagem Marlene, uma prostituta a quem não é dado o uso da palavra, embora seja o centro do programa.

O texto do segundo trabalho, Doce Vampiro, também é de Carlos Carvalho. Trata-se de uma metáfora sobre corrupção política e os processos de exploração econômica do Terceiro Mundo pelos países capitalistas avançados. Diante da falta de sangue humano, Drácula e sua mãe viajam ao "país das bananas" em busca da matéria-prima. Ao se envolverem com empresários corruptos, os dois entram em crise de identidade. A montagem é comentada pelo crítico Cláudio Heemann: "Com frenesi e fúria rítmica, Alabarse tenta fugir às convenções do teatro burguês, buscando o deboche, a farsa e a chanchada. Procurando um teatro de comunicação popular, longe de qualquer compostura. Há elementos de teatro de revista, linguagem de televisão, história em quadrinhos, comédia de costumes, brincadeira musical, catequese, alegoria satírica. Uma anarquia cuidadosamente organizada, afirmando-se como crítica social em forma de caricatura".1

O espetáculo ganha o Prêmio Açorianos de Teatro, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre, nas categorias melhor trilha sonora original, de autoria de Nelson Coelho de Castro; melhor cenário, a cargo de Java Bonamigo; e melhor figurino, criado por Gilberto Gawronski.

A aproximação do jornalista e escritor gaúcho Caio Fernando Abreu com o diretor Luciano Alabarse rende dois espetáculos bem-sucedidos do Descascando o Abacaxi. Em 1983, o grupo encena Pode Ser que Seja Só o Leiteiro Lá Fora, uma espécie de inventário da contracultura da década de 1970, da qual Abreu é um dos seguidores. O texto mostra o desencanto de um grupo de jovens, fãs da música dos Beatles, que insiste em viver de forma alternativa. A montagem rende a Alabarse seu primeiro Prêmio Açorianos como melhor diretor.

Caio Fernando Abreu faz ainda a adaptação para teatro do livro Reunião de Família, da escritora gaúcha Lya Luft. O texto apresenta os dramas individuais e os conflitos familiares que afloram durante um encontro em um fim de semana. "A adaptação de Caio foi magnífica, a peça, montada, foi um sucesso, e a partir dali acho que passei a entender melhor meus personagens, com seus labirintos e dramas existenciais, agora vistos em carne e osso", escreve Lya Luft.2 Para o crítico Cláudio Heemann, o espetáculo destoa da exuberância dos trabalhos anteriores do grupo, "a peça define-se como obra de atmosfera, mais evocativa do que explosiva".3

A Senhora dos Afogados é uma incursão do grupo no universo de Nelson Rodrigues. A montagem dirigida por Luciano Alabarse cria um clima de pesadelo para a tragédia da família Dummond, mergulhada em ódio, inveja e desejos secretos. A peça marca o fim da trajetória do grupo. No mesmo ano, com o nome de Proairesis Produções, o núcleo central formado por Alabarse, Roberto Paglioza e Java Bonamigo e um grupo de artistas iniciantes encena uma adaptação do livro Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu.

Assim, o grupo Descascando o Abacaxi encerra um ciclo de cinco anos de atividades, marcadas por uma proposta de trabalho que une o burlesco e o escracho na busca de uma linguagem popular.

Notas
1. HEEMANN, Cláudio. O ritmo e a fúria desse "Vampiro". Zero Hora, Porto Alegre, 11 nov. 1982.

2. LUFT, Lya. Caio, amado amigo. Veja, São Paulo, 8 mar. 2006.

3. HEEMANN, Cláudio. Reunião de família. Zero Hora, Porto Alegre, 19 jun. 1984.

Espetáculos (5)

Fontes de pesquisa (5)

  • HEEMANN, Cláudio. O ritmo e a fúria desse "Vampiro". Zero Hora, Porto Alegre, 11 nov. 1982.
  • HEEMANN, Cláudio. Reunião de família. Zero Hora, Porto Alegre, 19 jun. 1984.
  • KILPP, Suzana. Os cacos do teatro: Porto Alegre, anos 70. Unidade Editorial: Porto Alegre, 1996.
  • LUFT, Lya. Caio, amado amigo. Veja, São Paulo, 8 mar. 2006.
  • VASCONCELLOS, Luiz Paulo. Anotações para uma história do teatro gaúcho. Revista da Cena Lusófona, Lisboa, 1998.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • DESCASCANDO o Abacaxi. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo523766/descascando-o-abacaxi>. Acesso em: 15 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7