Artigo da seção grupos Aquarius Produções Artísticas

Aquarius Produções Artísticas

Artigo da seção grupos
Teatro  

Data/Local
1978 - Recife PE - fundação

1992 - Recife PE - término

Histórico
Fundada pelo produtor Bóris Trindade, a Aquarius Produções Artísticas realiza um trabalho de consolidação profissional em fins dos anos 1970 e durante toda a década de 1980, por meio de montagens com artistas profissionais e um eclético repertório, apostando na formação de um novo público.

Bóris Trindade, advogado, cria a Aquarius em sociedade com o ator e produtor Paulo de Castro, numa parceria que dura pouco mais de quatro anos. Em 1985, Paulo de Castro funda a própria empresa, a Paulo de Castro Produções Artísticas.

Inicialmente, em 1979, a Aquarius se junta à Companhia Praxis Dramática (CPD), de Paulo Fernando de Góes e José Mário Austregésilo, para produzir o espetáculo É..., de Millôr Fernandes. A montagem, dirigida por Milton Baccarelli, tem enorme afluência de público, ultrapassando a de Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, encenação da CPD, que no ano anterior, obtém grande êxito. A presença de um elenco afinado, tendo à frente Maria de Jesus Baccarelli e José Mário Austregésilo, é um dos trunfos do sucesso de É... No programa da peça, os produtores associados reafirmam o interesse em fincar as bases de um renovado teatro profissional no Recife e se apresentam como um grupo que "representa um esforço que vai de encontro ao teatro improvisado, ao teatro puramente diletante, para abrir perspectivas honestas, inclusive permitindo - e este é um dos objetivos do empreendimento - o aproveitamento da valiosa mão de obra disponível".1

O alto investimento na produção da peça de Millôr Fernandes não impede que esse grupo empresarial lance, na mesma época, Calígula, de Albert Camus, direção de José Pimentel, elogiado por Valdi Coutinho como "controvertido, polêmico, discutido, escandalizante, mas um espetáculo dos mais novos e bonitos já feitos em Pernambuco".2 Ou seja, no balanço final de 1979, tanto É... quanto Calígula estão entre as melhores peças da temporada recifense, atraindo um público cada vez maior, expandindo o mercado de trabalho para os profissionais de teatro no Recife. Com várias produções em cartaz simultaneamente, a companhia se mantém exclusivamente com a renda da bilheteria.

Ainda em 1979, a Aquarius realiza outra coprodução, desta vez com o Teatro Experimental de Olinda, A Viola do Diabo, de Ladjane Bandeira, direção de José Francisco Filho, que faz temporada no Teatro de Santa Isabel.

Depois de ter produzido algumas montagens de textos para o público infantil em 1979, a companhia realiza, em 1980, O Extrato de Formosura, do autor pernambucano Eduardo Maia, considerada excepcional para os padrões do teatro para o público infantil de então, tanto pela imponência da cenografia de Humberto Peixoto quanto pelos figurinos de Daniel Maia e, especialmente, pelo sistema de marketing adotado, que promove a ida de diversos colégios ao espetáculo.

A Aquarius volta a fazer mais uma coprodução, no primeiro semestre de 1983, agora com a Companhia Teatral Boca de Cena, para a realização de Foi Bom, Meu Bem?, de Luís Alberto de Abreu, direção de José Pimentel, contando com um elenco ajustado aos papéis, com Suzana Costa, Isa Fernandes, Sônia Bierbard, Sérgio Sardou, Alfredo Borba e Carlos Lira. A peça faz sucesso primeiro no Teatro Apolo, onde estreia, e depois no Teatro de Santa Isabel.

O maior empreendimento de um pool de produtores no Recife, entre os quais está a Aquarius, dá-se com Tal & Qual Nada Igual, texto de Jomard Muniz de Britto, criado com base em obras de vários autores, com direção de Guilherme Coelho. O espetáculo, com elenco de 34 integrantes, é uma megaprodução, reunindo atores, atrizes, travestis, strippers, coristas, humoristas, corpo de baile, coreógrafos, cenários e figurinos suntuosos. A intenção maior é revivificar na cena recifense o teatro de revista, diversificando o público, que começa a se consolidar. Como afirmam os produtores, no programa da peça, "o Recife comporta um projeto desse tipo, porque o Recife dispõe de valores sérios, no campo humano; e mais do que isso, porque há um mercado consumidor de teatro já detectado nas montagens anteriores, de comédias ou de espetáculos convencionais".3

Ainda em 1983, a Aquarius encena mais um espetáculo com direção de Guilherme Coelho, As Tias, de Aguinaldo Silva e Doc Comparato, no Teatro de Santa Isabel, e Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, direção de José Pimentel, no Teatro Apolo.

Bóris Trindade convida Aderbal Freire-Filho, em 1984, para dirigir Amor em Campo Minado, de Dias Gomes, com Ítala Nandi e Paulo César Pereio, idealizado para a reabertura do Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, e que, antes da estreia carioca, se apresenta no Teatro de Santa Isabel. Nesse ano a Aquarius realiza outro projeto com José Pimentel: Aurora da Minha Vida, de Naum Alves de Souza. A peça, que estreia em Olinda, no Teatro Beberibe, do Centro de Convenções, traz em seu elenco original Marilena Breda, Stella Maris Saldanha, Fátima Aguiar, Ana Montarroyos, Alfredo Borba, Evandro Campelo, Aramis Trindade, Carlos Lira e Pedro Henrique.

Milton Baccarelli monta Assim É... (Se Lhe Parece), de Luigi Pirandello, em 1985. Nesse espetáculo, a Aquarius assina coprodução com a Remo Produções Artísticas, de Paula de Renor, também atriz no espetáculo. A imprensa elogia a encenação, o elenco, a cenografia, os figurinos e a iluminação. Destacam-se no elenco Maria de Jesus Baccarelli, Carlos Reis e Germano Haiut.

No mesmo ano, a Aquarius estreia Bella Ciao, de Luís Alberto de Abreu, direção de Lúcio Lombardi. No elenco, jovens atores - Cira Ramos, Eduardo Trindade e Bóris Trindade Júnior - atuam com experientes profissionais, como Lúcia Machado, Rubem Rocha Filho, Jaira Malta, Romero de Andrade e Carlos Lira. Produz mais um megaespetáculo, com direção de Guilherme Coelho e cenários de Beto Diniz: Tal & Qual Nada Igual nº 2 (A Novelha República), revista com textos de Jomard Muniz de Britto, Marcelo Mário de Melo e Adalberto Ribeiro, com temporadas no Teatro Barreto Júnior, e, em seguida, no Teatro de Santa Isabel. O produtor Bóris Trindade considera essa montagem melhor que a de Tal & Qual Nada Igual nº 1, não só porque o texto é menos fragmentado, mas também porque o espetáculo "tem um compromisso maior com a estética, apresenta inovações do ponto de vista cênico, guarda-roupa mais luxuoso, e cenários deslumbrantes".4

Em 1987, estreiam, quase simultaneamente, duas produções da Aquarius. A primeira é o besteirol É uma Brasa, Mora!, de Bóris Trindade, direção Alfredo Neto e Henrique Celibi, no Teatro Valdemar de Oliveira. A segunda é Tango, de Slowomir Mrozek, direção de Antonio Cadengue, encenada em abril no Teatro de Santa Isabel.

É uma Brasa, Mora! se torna um fenômeno de público, e consagra Aramis Trindade como um dos mais talentosos atores de sua geração. A peça se desenrola em um programa de televisão dos anos 1960, em que desfilam Wanderléa, Martinha, Jerry Adriani, Trio Ternura, com atores e atrizes dublando esses personagens e, sobretudo, Roberto Carlos, vivido por Aramis Trindade.

Em fevereiro de 1988, estreia O Burguês Fidalgo, de Molière, direção de Antonio Cadengue e Beto Diniz, uma das mais caras produções da Aquarius e uma das mais imponentes, especialmente pela cenografia de Beto Diniz e pelo figurino assinado por Aníbal Santiago e Regina Trindade.

Ainda nesse ano, a companhia apresenta Viva a Rainha do Rádio, novo texto de Bóris Trindade, com direção de José Francisco Filho. Em janeiro de 1989, Carlos Bartolomeu dirige Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva e, em 1991, Bailei na Curva, de Júlio Conte. Em 1992, a Aquarius se despede da cena recifense com a remontagem de um espetáculo de 1986, para o público infantil, Cegonha Boa de Bico, de Marilu Alvarez, direção de José Manoel. Chega ao fim uma das mais produtivas experiências do teatro recifense nas últimas décadas do século XX.

Notas
1. A PRODUÇÃO. In: Companhia Praxis Dramática/Aquarius Produções Artísticas. É... Direção Milton Baccarelli, Recife, Teatro Valdemar de Oliveira, jan. 1979.

2. COUTINHO, Valdi. Qualidade e quantidade marcaram a produção do teatro pernambucano 79. Diario de Pernambuco, Recife, 5 jan. 1980. Viver, p. 1.

3. A PRODUÇÃO. In: Companhia Praxis Dramática/Aquarius Produções Artísticas. Tal & Qual Nada Igual. Direção Guilherme Coelho, Recife, Teatro Valdemar de Oliveira, 1983.

4. TRINDADE, Bóris. Apud: D'OLIVEIRA, Fernanda. Tal & Qual, Nada Igual Nº 2 - Repete-se, no Recife, o sucesso dos velhos teatros de revista. Diario de Pernambuco, Recife, 11 jun. 1986. Viver, p. 1.

Espetáculos (35)

Todos os espetáculos

Fontes de pesquisa (30)

  • ALVAREZ, Enéas. Foi bom meu bem - Crítica. Jornal do Commercio, Recife, 5 jul. 1983. Caderno C, [s.p.]
  • ALBERTO, João. Teatro (II). Diario de Pernambuco, Recife, 18 nov. 1986. Viver, B-3.
  • ALBERTO, João. Um tango de sucesso. Diario de Pernambuco, Recife, 23 abr. 1987. Viver, B-3.
  • ALVAREZ, Enéas. O Boca de Ouro/ Crítica. Jornal do Commercio, Recife, 30 ago. 1983. Caderno C, [s.p.]
  • ALVAREZ, Enéas. Tal e Qual, Nada Igual/ Crítica. Jornal do Commercio, Recife, 9. ago. 1983. Caderno C, [s.p.]
  • ALVAREZ, Enéas. Viva a Rainha do Rádio/Crítica. Jornal do Commercio, Recife, 3 jan. 1989. Caderno C, p. 4.
  • ALVAREZ, Enéas. Voltando ao Tal e Qual, Nada Igual. Jornal do Commercio, Recife, 30 ago. 1983. Caderno C, [s.p.]
  • AQUARIUS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS. As Tias. Direção Guilherme Coelho, Recife, Teatro Valdemar de Oliveira, programa, out. 1983.
  • AQUARIUS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS. Assim é... (se Lhe Parece). Direção Milton Baccarelli, Olinda, Teatro Beberibe (Centro de Convenções), programa, 1985.
  • AQUARIUS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS. É uma Brasa, Mora! Direção Alfredo Neto e Henrique Celibi, Recife, Teatro Valdemar de Oliveira, programa, mar. 1987.
  • AQUARIUS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS. Feliz Ano Velho. Direção Carlos Bartolomeu, Recife, Teatro Barreto Júnior, jan. 1989.
  • AQUARIUS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS. Tal & Qual Nada Igual. Direção Guilherme Coelho, Recife, Teatro Valdemar de Oliveira, programa, 1983.
  • AQUARIUS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS/ COMPANHIA PRAXIS DRAMÁTICA. É... Direção Milton Baccarelli, Recife, Teatro Valdemar de Oliveira, jan. 1979.
  • BACCARELLI, Milton. O teatro em Pernambuco: trocando a máscara. Prefácio de José Mário Austregésilo. Recife: Fundarpe, 1994. 184 p.
  • COUTINHO, Valdi. Aconteceu em 88. Apesar das contradições, a cena pernambucana esteve ainda firme e vigorosa. Diario de Pernambuco, Recife, 31 dez. 1988. Viver, p. B-1.
  • COUTINHO, Valdi. Aquarius: casas sempre lotadas. Diário de Pernambuco, Recife, 10 ago. 1983. Viver, B-8
  • COUTINHO, Valdi. É um algodão bem doce, mora. Diario de Pernambuco, Recife, 24 jun. 1987. Diversões, p. B-6.
  • COUTINHO, Valdi. Hoje tem espetáculo: "A Viola do Diabo" de Ladjane Bandeira. Diario de Pernambuco, Recife, 20 out. 1979. Viver, p. 1.
  • COUTINHO, Valdi. Qualidade e quantidade marcaram a produção do teatro pernambucano 79. Diario de Pernambuco, Recife, 5 jan. 1980. Viver, p. 1.
  • COUTINHO, Valdi. Quando a produção é a grande estrela. Diario de Pernambuco, Recife, 23 jul. 1983. Viver, B-8.
  • COUTINHO, Valdi. Questão sexual: um tema atual. Diario de Pernambuco, Recife, 20 jul. 1983. Viver, [s.p.].
  • CRAVEIRO, Paulo Fernando. Aquarius e Trindades. Diario de Pernambuco, Recife, p. A-7, 8 mar. 1988.
  • CUNHA, Inês. Conflito de gerações é tema de comédia no Santa Isabel. Diario de Pernambuco, Recife, [s.p.], 19 abr. 1987.
  • CUNHA, Inês. O besteirol em cena. Texto resgata a era de ouro do rádio brasileiro. Diario de Pernambuco, Recife, 7 dez. 1989. Viver, p. B-1.
  • CUNHA, Inês. Uma sátira ao louco século XVII: O Burguês Fidalgo, de Molière. Diario de Pernambuco, Recife, 3 mar. 1988. Viver, p. B-4.
  • D'OLIVEIRA, Fernanda. Emigração italiana ao Brasil é tema de peça: Bella Ciao. Diario de Pernambuco, Recife, 10 jul. 1986. Viver, p. 1.
  • D'OLIVEIRA, Fernanda. Tal & Qual, Nada Igual Nº 2 - Repete-se no Recife, o sucesso dos velhos teatros de revista. Diario de Pernambuco, Recife, 11 jun. 1986. Viver, p. 1.
  • D'OLIVEIRA, Fernanda. Uma sátira ao mundanismo resgata a comédia rica, no melhor de Molière. Diario de Pernambuco, Recife, 9 mar. Viver, p. B-1.
  • MARANHÃO FILHO, Luiz. A Aurora de Boris. Diario de Pernambuco, Recife, [s.p.], 21 dez. 1984.
  • MICHILLES, Kennedy. O riso pelo riso. Jornal do Commercio, Recife, 16 abr. 1988. Caderno C, p. 1.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • AQUARIUS Produções Artísticas. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo517714/aquarius-producoes-artisticas>. Acesso em: 28 de Jun. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7