Artigo da seção grupos Teatro Hermilo Borba Filho (THBF)

Teatro Hermilo Borba Filho (THBF)

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra Teatro Hermilo Borba Filho (THBF): 1976 Local de crição: (Brasil / Pernambuco / Olinda) | Data de término 1980 Local de término: (Brasil / Pernambuco / Recife)

Histórico
Grupo criado pelo ator e diretor Marcus Siqueira, em Olinda, Pernambuco, tem como proposta a formação de atores e a construção de uma linguagem cênica despojada, de nítida inspiração brechtiana.

Para Milton Baccarelli, é difícil dissociar o Teatro Hermilo Borba Filho (THBF) da pessoa de Marcus Siqueira, já que o grupo "tornou-se a representação própria de sua personalidade. Inquieto, briguento, agressivo, terno, amorável, explosivo, dispersivo, sovina, esbanjador, esquerdista e frequentador da fina sociedade. Os traços dessa personalidade descrevem os caminhos tortuosos percorridos pelo THBF desde sua criação".1 No ano de falecimento de Hermilo Borba Filho, 1976, Marcus Siqueira, egresso do Teatro Popular do Nordeste (TPN), conjunto liderado por Hermilo, homenageia seu mestre, batizando com o nome dele o grupo que acaba de criar.

Giuseppe Baccaro, marchand que abandona uma carreira de sucesso em uma galeria de arte em São Paulo a fim de realizar trabalhos sociais em Pernambuco, dá a Marcus Siqueira a concessão de um casarão do século XIX, localizado na Rua 15 de Novembro, no Varadouro, em Olinda, para que ele possa abrir seu novo espaço cênico: o Teatro Hermilo Borba Filho (THBF), em 1976. Por um acordo verbal, a ocupação do casarão concedida em troca de serviços que o grupo deve prestar às obras assistenciais de Baccaro, especialmente aquelas ligadas à Fundação Casa da Criança de Olinda, mantida pelo mecenas. Mas essa condição não é levada em conta pelo THBF.

Marcus Siqueira arregimenta várias pessoas para um curso de teatro e entre elas escolhe os integrantes do elenco da casa. Antes do fim do curso, começa a ser ensaiado por seus participantes a peça Rato Não Sabe Escrever... Telefona, texto para o público infantil de Armando Coelho Neto, um dos alunos. Marcus Siqueira, ao saber do fato, propõe juntar-se à montagem o primeiro espetáculo do THBF. Nesse momento, cria-se o estatuto do grupo, que é formalmente fundado.

Há integrantes que moram no casarão e outros que são visitantes. Todos, sem exceção, não apenas participam das atividades formativas ou artísticas como também são responsáveis pela manutenção e limpeza do espaço e pela divulgação de espetáculos. É uma comunidade que se pretende independente em todos os setores da criação teatral, inclusive em relação à dramaturgia a ser encenada. O principal motivo dessa empreitada é a profissionalização permanente de sua trupe, acompanhada de rigoroso esquema de formação intelectual. Para tanto, não era permitido participar de outros grupos de teatro, nem mesmo ter amizades fora do próprio círculo do grupo. Alguns dos componentes reagem a essas restrições.

Para transformar esse casarão em um teatro, Marcus Siqueira mobiliza amigos, especialmente uma figura da elite socioeconômica da cidade, Helena Pessoa de Queiroz, que convoca artistas plásticos a doarem obras para a realização de leilões, cuja renda vai para a reforma do casarão ou para alguma montagem. Segundo o ator José Ramos, foram derrubadas paredes, ficando o espaço com um grande vão, com o palco ao fundo, e cadeiras de igreja, com capacidade para acomodar 104 pessoas. Tudo em preto, almofadas em vermelho e dois grandes condicionadores de ar nas laterais. No hall, onde está a bilheteria, lê-se na parede a famosa frase de Cacilda Becker: "Não me peça de graça a única coisa que eu tenho para vender".2

Em 1976, o THBF encena O Santo Inquérito, de Dias Gomes. Antes dessa montagem, ocorre uma divisão no grupo, dele saindo oito integrantes, com a alegação de que as suas aspirações libertárias não se coadunam com o "despotismo" e "autoritarismo" do diretor.

Luiz Maurício Carvalheira, que compreende e respeita as diretrizes de Marcus Siqueira, vai morar no próprio teatro e, com Siqueira, elabora a ideia de um curso regular de teatro. O THBF convida a professora Helena Pedra para ministrar aulas de expressão corporal, Marcus Siqueira se responsabiliza pela parte prática de interpretação e Carvalheira passa a lecionar matérias teóricas, dramaturgia e história do teatro. Nesse período, alguns alunos integram-se ao grupo, como João Denys, que inicia a carreira de ator, programador visual, cenógrafo, figurinista, aderecista e, especialmente, encenador.

Marcus Siqueira fala à imprensa sobre a escolha do texto O Santo Inquérito, as reformas realizadas no espaço para receber a montagem e proporcionar mais conforto ao público e discorre acerca de suas proposições estéticas e ideológicas: "O intimismo físico do palco e plateia do THBF até ajuda a concepção épica da peça O Santo Inquérito. O público, durante todo o tempo do espetáculo, permanece consciente de que está assistindo a uma representação teatral. Ainda sobre a montagem, ela é mais antiaristotélica do que se possa imaginar. Com esse trabalho continuamos o aprofundamento no sentido de cada vez mais nos aproximarmos de um teatro despojado, sem truques, onde a intenção é levar o público a pensar e não levá-lo a um estado de transe emocional. Isso não significa que desprezamos o valor da emoção, mas apenas queremos da parte dos atores e da plateia, uma emoção crítica - o espírito brechtiano do teatro".3

Ex-integrante do TPN, grupo responsável, em 1967, pela primeira encenação dessa obra de Dias Gomes no Recife, Luiz Maurício Carvalheira fica impressionado com a qualidade da direção de Marcus Siqueira e comenta: "[Marcus Siqueira] Deu soluções àquele espetáculo que foi (sic) uma coisa tão grandiosa para mim quanto o espetáculo de Hermilo, e que não tinha nada a ver com o espetáculo de Hermilo. Eu participei dos dois e vi que foi uma coisa de criação de Marcus, uma sensação muito boa, tanto que foi um grande sucesso".4 Esse sucesso chega a Regina Duarte, detentora dos direitos autorais da peça, e a temporada é suspensa.

No ano seguinte, o grupo faz uma incursão ao teatro de Bertolt Brecht: Os Fuzis da Senhora Carrar. Marcus Siqueira explica a realização da montagem: "Existe uma coerência estética no nosso trabalho, onde a verbalização é mais valorizada do que os aspectos visuais da peça. O uso da cor preta é constante no vestuário e no cenário, dentro de uma linha despojada. Nesta peça de Brecht, utilizamos máscaras nos atores, o que é característico do teatro épico, além do efeito de distanciamento crítico, entre personagem e ator, e ator e plateia, com o uso de luzes acesas, sobre a mesma, durante todo o espetáculo".5 Essa montagem é considerada um dos melhores espetáculos de 1978, entre os realizados no Recife, pelo Serviço Nacional de Teatro (SNT).

Depois desse espetáculo, o THBF é desalojado do casarão de Olinda, e ocupa a Academia de Tânia Trindade, aluna do curso de teatro oferecido pelo grupo, por um breve período, até que encena Um Grito Parado no Ar, de Gianfrancesco Guarnieri, no auditório da TV Jornal do Commercio, com direção de Rubem Rocha Filho. Monta, ainda, O Amor do Não, de Fauzi Arap, no Teatro Joaquim Cardozo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e recebe abrigo na Casa da Cultura, então dirigida por Enéas Alvarez, que cede dois espaços: a Sala Clênio Wanderley, para espetáculos, e outra para os cursos. Na Casa da Cultura, o THBF monta o último espetáculo: Murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal. Às vésperas da estreia de Por Telefone, de Antonio Fagundes, com direção de João Denys, protagonizada por Marcus Siqueira e Sandra Carreira, o diretor-presidente do THBF, Marcus Siqueira, falece e com isso também se finda o grupo.

Além de ter suscitado o talento de jovens e grupos que nascem sob sua inspiração, o THBF com nítido posicionamento de esquerda e comprometimento com as forças progressistas de então, implanta, a seu modo, uma mentalidade profissional. Ou, nas palavras de João Denys: "Marcus lutava, apaixonadamente, para educar atores e atrizes conscientes de seu papel de artistas e cidadãos artistas que combatessem por liberdade e justiça social com as armas da arte: as únicas que possuíamos e dispúnhamos para vender. Essa era nossa ideologia. Éramos um time com uma exclusividade de partido artístico, cuja moeda era um mínimo de coerência com as ideias e ideais que cultivávamos e nos diferenciavam de todos os outros grupos existentes nas cercanias de Olinda e Recife. Muito dessa diferença devia-se à opção estética das encenações de Marcus Siqueira, centrada no trabalho do ator, que nos obrigava a atuar como sobre um poema cru. E era essa crueldade que ele nos ensinava, fazendo-nos caminhar por dentro de um teatro menos alienado; palmilhar as entranhas de uma arte que atendia a uma espécie de 'encomenda social' do momento' ".6

Notas
1. BACCARELLI, Milton. O teatro em Pernambuco: trocando a máscara. Prefácio José Mário Austregésilo. Recife: Fundarpe, 1994. p. 70.

2. RAMOS, José. In: FERRAZ, Leidson; DOURADO, Rodrigo; WELLINGTON JÚNIOR. (Orgs.). Memórias da cena pernambucana 01. Prefácio Newton Moreno. Recife: Ed. dos Autores, 2005. p. 31.
 
3. SIQUEIRA, Marcus. Apud COUTINHO, Valdi. THBF monta O santo inquérito: uma mensagem de respeito humano. Diário de Pernambuco, Recife, 22 nov. 1977. Viver, p. 1.

4. CARVALHEIRA, Luiz Maurício. In: BACCARELLI, Milton. O teatro em Pernambuco: trocando a máscara. Prefácio José Mário Austregésilo. Recife: Fundarpe, 1994. p. 73.

5. SIQUEIRA, Marcus. Apud ROCHA FILHO, José. Os Fuzis da Senhora Carrar: a luta conta a opressão. Diário de Pernambuco, 6 nov. 1978. Viver, p. 1. [Acervo Stella Maris Saldanha]

6. LEITE, João Denys Araújo. Arte, razão, paixão, utopia, diversão, ensino e compromisso social. In: FERRAZ, Leidson; DOURADO, Rodrigo; WELLINGTON JÚNIOR. (Orgs.). Memórias da cena pernambucana 01. Prefácio Newton Moreno. Recife: Ed. dos Autores, 2005. p. 26-27.

Outras informações do grupo Teatro Hermilo Borba Filho (THBF):

  • Outros nomes
    • Teatro Hermilo Borba Filho (Olinda, PE)
    • THBF

Espetáculos (6)

Fontes de pesquisa (11)

  • BACCARELLI, Milton. O Teatro em Pernambuco: trocando a máscara. Prefácio José Mário Austregésilo. Recife: Fundarpe, 1994, p. 70.
  • COUTINHO, Valdi. Lágrimas por um homem de teatro. Diario de Pernambuco, Recife, 13 maio 1981. Viver, [s. p.].
  • COUTINHO, Valdi. THBF monta O Santo Inquérito: uma mensagem de respeito humano. Diario de Pernambuco, Recife, 22 nov. 1977. Viver, p. 1.
  • EGIPTO, Ednaldo do. Quarenta anos do teatro paraibano. João Pessoa: Secretaria de Educação/Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo, 1988.
  • FERRAZ, Leidson; DOURADO, Rodrigo; WELLINGTON JÚNIOR. (Orgs.). Memórias da Cena Pernambucana 01. Prefácio Newton Moreno. Recife: Ed. dos Autores, 2005, p. 31.
  • FRAGA, Maria Auricéia Vasconcelos. O Curso de Formação do Ator da Universidade do Recife (1958-1966). 111 f. Monografia (Especialização em Artes Cênicas). Centro de Artes e Comunicações, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1986.
  • LEITE, João Denys Araújo. Arte, razão, paixão, utopia, diversão, ensino e compromisso social. . In: FERRAZ, Leidson; DOURADO, Rodrigo; WELLINGTON JÚNIOR. (Orgs.). Memórias da Cena Pernambucana 01. Prefácio Newton Moreno. Recife: Ed. dos Autores, 2005, p. 26-27.
  • MICHALSKI, Yan. Os melhores de 78 em nove Estados. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, [s.d./s.p]. [Acervo Stella Maris Saldanha].
  • MOURA, Ivana. Marcus Siqueira: Lembrando um teatro comprometido com o homem e sua luta. Diario de Pernambuco, Recife, 16 maio 1991. Viver, p. 1.
  • RIVAS, Lêda. Marcus Siqueira e a luta por um teatro popular. Diario de Pernambuco, Recife, 17 jun. 1977. Viver, p. 1.
  • ROCHA FILHO, José. Os Fuzis da Senhora Carrar: a luta conta a opressão. Diario de Pernambuco, 6 nov. 1978. Viver, p. 1. [Acervo Stella Maris Saldanha].

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TEATRO Hermilo Borba Filho (THBF). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo517226/teatro-hermilo-borba-filho-thbf>. Acesso em: 18 de Nov. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7