Artigo da seção grupos Grupo de Teatro Vivencial

Grupo de Teatro Vivencial

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra Grupo de Teatro Vivencial: 1974 Local de crição: (Brasil / Pernambuco / Olinda) | Data de término 1983 Local de término: (Brasil / Pernambuco / Olinda)

Histórico

Grupo teatral de Olinda, Pernambuco, que surge em 1974, sob a influência do tropicalismo e da contracultura. Regido pelo sistema de produção cooperativada e pela criação coletiva, desenvolvendo uma espécie de teatralização da subjetividade de seus integrantes, o Vivencial se torna um marco de irreverência e transgressão na cena cultural pernambucana dos anos 1970 e 1980.

O Vivencial aparece no âmbito de um trabalho de pastoral com a juventude, ligado à Arquidiocese de Olinda e Recife. Guilherme Coelho, diretor do grupo, na época postulante a monge beneditino, usa o teatro como meio de reflexão da comunidade na Associação dos Rapazes e Moças do Amparo (Arma). Para comemorar os dez anos da associação, Coelho monta o espetáculo Vivencial I, resultado de improvisações realizadas pelo grupo com base em vários textos de dramaturgos, filósofos e jornalistas. Essa montagem aborda assuntos polêmicos para o contexto: homossexualidade, violência, droga, política, tecnologia e massificação. O espetáculo é estruturado em quadros e tem ao fundo um telão com papel-jornal, que remete às notícias - conteúdo deste e de outros espetáculos do grupo. Estreia no auditório do Colégio São Bento, em maio de 1974. A reação do público é de estranheza e encantamento.

Logo depois, os beneditinos desalojam o Vivencial, que migra, então, para o Teatro do Bonsucesso, também em Olinda. Para escapar da censura federal, não se cobram ingressos. Setores da intelectualidade do Recife e de Olinda passam a prestigiar o espetáculo, contribuindo para que o Vivencial tenha mais repercussão. A partir dessa primeira montagem, o grupo, desligado da Arma, constitui-se como personalidade jurídica - Grupo de Teatro Vivencial Ltda. - e conta com Guilherme Coelho, Américo Barreto, Alfredo Neto, Miguel Ângelo e Fábio Coelho. Depois se juntam ao grupo Suzana Costa, Ivonete Melo, Auricéia Fraga, Fábio Costa e Beto Diniz.

Ainda em 1974, o Vivencial monta Genesíaco, que é apresentado no Mercado da Ribeira, em Olinda. Nesse espetáculo, de temática bíblica, a expressão corporal é posta em destaque. Ao mesmo tempo, outros integrantes, especialmente os mais novos agregados, realizam Madalena em Linha Reta, performance de Madalena Alves, reunindo poemas de Fernando Pessoa e canções interpretadas por Maria Bethânia. No mesmo ano, o grupo ainda leva à cena mais dois espetáculos: João Andrade em Conversa de Botequim e Auto de Natal.

Buscando diversificar o repertório, em 1975, o Vivencial chega ao universo do cordel, com o espetáculo O Pássaro Encantado da Gruta do Ubajara, inspirado pelo folheto homônimo escrito por Abraão Batista. Com direção de Guilherme Coelho, essa montagem estreia no Mercado da Ribeira, cumpre temporada no Teatro do Bonsucesso e participa do 1º Festival Estadual de Teatro, promovido pela Federação Nacional de Teatro (Fenata), no Nosso Teatro, no Recife. Nessa apresentação, o grupo desconstrói as matrizes estéticas do teatro folclórico e usa o escracho no jogo entre atores e público.

Em novembro de 1975, estreia Nos Abismos da Pernambucália, de Jomard Muniz de Britto, no Auditório do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). Esse texto, divulgado em edição xerocada, em 1973, serve ao grupo como um manifesto de princípios estéticos e ideológicos, que o acompanha até o seu desaparecimento, em 1983. O autor apresenta a "Pernambucália" como "contraimagem da Pernambucanidade", sem intenção de "salvar" nada.

Estreia, em abril de 1976, Vivencial II, nos mesmos moldes do Vivencial I, no Teatro do Bonsucesso, em Olinda, e depois no Teatro de Santa Isabel, no Recife, durante a 1ª Mostra de Teatro de Pernambuco, entre 17 e 31 de agosto. A censura federal corta muitas cenas da montagem. Ainda nesse ano, no Museu de Arte Contemporânea de Olinda, Roberto de França, o Pernalonga, estrela o espetáculo 7 Fôlegos, escrito por Jomard Muniz de Britto especialmente para o ator.

Em seguida, o grupo inicia a montagem de Sobrados e Mocambos, de Hermilo Borba Filho (adaptação da obra homônima de Gilberto Freyre), que estréia, em janeiro de 1977, com a direção de Guilherme Coelho. A montagem evidencia, de maneira debochada, a luta de classes que Hermilo Borba Filho vislumbra na obra de Freyre. A precariedade da cena e a constituição heterogênea do grupo, composto de pessoas de vários estratos sociais, intelectuais e de diferentes orientações sexuais, reiteram a abordagem irreverente do espetáculo. Após essa exibição no Nosso Teatro, mutilado por cortes da censura federal, cumpre temporada, a céu aberto, na parte superior da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco.

Viúva, porém Honesta, direção de Antonio Cadengue, também estreia e faz temporada numa sala da mesma biblioteca estadual, em 1977. O programa da peça é um jornaleco xerocado em tamanho ofício e intitulado A Marreta. O editorial assinado por Jomard Muniz de Britto, Genealogia da Cultura Nordestina, contrapõe a presença "deseducadora", "transgressiva" e de "guerrilha cultural" do Vivencial à "geração gilbertiana" (de Gilberto Freyre) e ao "megalomaníaco Movimento Armorial", de Ariano Suassuna.

Em agosto de 1978, o Vivencial realiza sua mais importante colagem - Repúblicas Independentes, Darling - com textos de Carlos Drummond de Andrade, Luis Fernando Verissimo e Carlos Eduardo Novaes. Em novembro do mesmo ano, participa do 1º Salão de Arte Moderna de Pernambuco, o "Salão dos Novos - Novas Propostas", no Museu de Arte Contemporânea de Olinda, com uma performance em que cinco atores - Ivonete Melo, Suzana Costa, Fábio Coelho, Gil Granjeiro e José Ramos - , pintados de cores diferentes, deslizam seus corpos seminus em uma tela branca, ao som de Rhythmetron, composição de Marlos Nobre. O grupo é contemplado com o primeiro lugar e a exibição feita, a princípio, apenas para a comissão julgadora, é aberta ao público.

No início de 1979, o Vivencial viaja para São Paulo e Rio de Janeiro e participa do Projeto Mambembão, do Serviço Nacional de Teatro (SNT). No Rio de Janeiro, a crítica Tania Pacheco constata: "O Vivencial nos traz um espetáculo ingênuo, é verdade. Uma montagem singela, simples, direta. Pobre em termos empresariais, rica no que tange a nos fazer refletir sobre os descaminhos do teatro ao qual assistimos [...]. Por isso mesmo, as poucas plumas e lantejoulas utilizadas no espetáculo, lá estão enquanto críticas expressivas. Por isso mesmo, tem menor importância se falta domínio da técnica teatral aos jovens integrantes do grupo. E os seus depoimentos nos atingem ainda mais na medida em que, em alguns casos, a timidez de se expor transparece na frase titubeada, quase gaguejada, revelando à plateia uma entrega difícil e valiosa".1

Com o dinheiro economizado ao longo de quase cinco anos de trabalho, o grupo constrói seu teatro no mangue, em uma favela localizada no limite entre Recife e Olinda. À margem da cidade, o novo espaço é chamado Vivencial Diversiones - uma espécie de café-concerto. Com o prestígio do público, o grupo abre novo mercado de trabalho para artistas, sobretudo transformistas, que são em geral marginalizados. O Diversiones passa a ter uma programação extensa, a cada fim de semana: às 21 horas, uma peça de teatro; às 23, um show musical; às 24, um show especial com dublagens e esquetes; e, à 1h30h, um show de variedades. Diversos travestis passam a integrar o grupo, profissionalizando-se como artistas, o que impede de serem presos por vadiagem. O grupo entra vertiginosamente nesse seu novo momento, mas não sem alguns cismas internos.

O espetáculo-chave que atravessa os anos de 1979 e 1980, no último horário da casa, é Bonecas Falando para o Mundo, um sucesso incomum. Por mais que se alterem os quadros ou seus componentes sejam substituídos, o público comparece para enfrentar as contradições entre sexo e política e se divertir com elas. Darcy Penteado escreve no jornal Lampião da Esquina: "Assistindo ao espetáculo ocorreu-me remotamente os Dzi Croquettes ou a experiência do Royal Bexiga's Company, de São Paulo, porém, a colocação é toda outra, apenas o visual, às vezes, se assemelha, pela sátira e ironia".2 Ainda em 1979, estreiam As Criadas, de Jean Genet, direção de Fábio Costa; Ensaios Espontâneos, roteiro e direção de Beto Diniz; A Loja da Democracia, de Carlos Eduardo Novaes; e Perna, pra que Te Quero, de Jomard Muniz de Britto, ambos com direção de Guilherme Coelho.

Em 1980, o grupo encena Parabéns pra Você, de Fauzi Arap e Glauco Mattoso; Notícias Tropicais, adaptação de contos de João Silvério Trevisan e de crônicas de Carlos Eduardo Novaes. No mesmo ano, leva ao palco do Teatro de Santa Isabel All Star Tapuias, colagem de textos escritos por Antonio Cadengue, Carlos Bartolomeu e Guilherme Coelho, que também assinam a direção do espetáculo. Mutilada pelos cortes da censura federal, a montagem encerra a temporada no Teatro de Santa Isabel e vai para o Vivencial Diversiones, onde é lançado o Manifesto Quá-Quá-Quá, em que se reafirma: "O prazer é gargalhar". Em 1981, no aniversário do grupo, apresenta Vivencial − Manifesto Sete Anos, passando em revista toda a sua trajetória.

Antes de encerrar, em abril de 1982, a fase do café-concerto, tendo à frente Guilherme Coelho e Beto Diniz, o grupo ainda encena Rolla Skate; Nós Mulheres; Em Cartaz, o Povo; The Brazilian Tropical Super Star; Utilidade Pública; e Guerra das Estrelas. Há uma dispersão com a fundação de casas semelhantes em Natal e em Fortaleza. Roberto de França reabre o espaço em setembro de 1982 e põe em cena, com outros integrantes, os espetáculos Os Filhos de Maria Sociedade; Ôba Nana... Fruta do Meio; O Pastoral Culturil das Meninas do Brasil; Assim É Peia; e Mar e Cais, todos colagens de diversos textos. Depois do Carnaval de 1983, o Diversiones fecha definitivamente, por causa de dissidências internas e pela ausência de investimentos na produção de novos espetáculos.

João Silvério Trevisan situa o Vivencial no quadro da cultura homossexual no Brasil, posterior ao "boom-guei" dos anos 1970, como uma das experiências mais fascinantes e originais na transfiguração do lixo em beleza, e reflete seu desfecho: "Um dia o Vivencial acabou. Sua ambiguidade se esgotara, sua originalidade também. Não sei até que ponto o sucesso foi responsável por seu fim. Arrisco a dizer que o Vivencial Diversiones não conseguiu sobreviver porque se aproximou demais dos centros de poder e, com isso, abandonou a difícil arte da corda bamba que a marginalidade lhe permitia. Secou. Ao absorver sua proposta, a sociedade cooptou o grupo e transformou-o num modismo rapidamente exaurido. Assim confiscou-lhe o passaporte para a poesia".3

O Vivencial Diversiones repercute no café-concerto Opera Buffo, no Recife, em 1984; nos espetáculos dirigidos nos anos subsequentes por Américo Barreto e Fábio Costa; e no megassucesso do teatro recifense dos anos 1990, Cinderela, a História que Sua Mãe Não Contou, texto e direção de Henrique Celibi, pela Trupe do Barulho.

Jomard Muniz de Britto, autor de vários textos encenados pelo grupo, e criador de diversos filmes produzidos com o elenco do Vivencial, elabora o seguinte perfil do conjunto: "[...] o grupo de teatro vivencial nunca pretendeu despistar sua condição de marginalidade em face da maioria das produções teatrais. está para o teatro estabelecido assim como a lixeratura ou a poesia de mimeógrafo para a literatura. [...]. assim como a lixeratura e o superoito mais crítico, o grupo vivencial deseja colocar em cena, no nível de uma discussão permanente, a dialética entre o erótico e o político, sem pedir permissão nem a platão nem a marx-engels para revolucionar a palavra no corpo. [...] a palavra vivencial é assumida ao pé da letra e consumida nas letras do corpo, desnorteando as ó-posições incômodas, travestindo a política de pornografia e vice-versa" [sic].4

Notas

1. PACHECO, Tania. Repúblicas independentes, darling: um espetáculo sincero que justifica a ida ao teatro. O Globo, Rio de Janeiro, 20 jan. 1979. Segundo Caderno, p. 40.

2. PENTEADO, Darcy. Veredas tropicais. Lampião da Esquina, Rio de Janeiro, p. 3, 1981.

3. TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. 6ª ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 329.

4. BRITTO, Jomard Muniz de. vivencial, vivecas, diversiones, devassidões. In: ______. Terceira aquarela do Brasil: textos de humor e horror, com acessos líricos, sob o trópico de pernambucâncer. Recife, 1982. p. 63-65.

Outras informações do grupo Grupo de Teatro Vivencial:

  • Outros nomes
    • Grupo de Teatro Vivencial Ltda.
    • Vivencial Diversiones

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Fontes de pesquisa (18)

  • BACCARELLI, Milton J. Do Vivencial ao Vivencial Diversiones. In: ______. Trocando a Máscara... - 20 anos de Teatro em Pernambuco. Prefácio José Mário Austregésilo. Recife: Fundarpe, 1994. 186 p.
  • BRITTO, Jomard Muniz de. Depoimento. Jornal da Cidade, Recife, p. 19, 16 a 22 nov. 1975.
  • BRITTO, Jomard Muniz de. vivencial, vivecas, diversiones, devassidões. In: ______. Terceira Aquarela do Brasil: textos de humor e horror, com acessos líricos, sob o trópico de pernambucâncer. Recife, 1982, p. 63 a 65.
  • CABRAL, Sanelvo. Show Bom Taí, no "Vivencial". Diário de Pernambuco, Recife, 23 out. 1981. Viver, B-8.
  • CADENGUE, Antonio. Teatro Pernambucano 77: Rascunho de Impasses. Jornal da Cidade, Recife, p. 32, 1 a 31 de ago. 1978.
  • COELHO, Guilherme. Depoimento. Jornal da Cidade, Recife, p. 19, 16 a 22 nov. 1975.
  • COUTINHO, Valdi. O Teatro Pernambucano à Procura de Caminhos Alternativos em 1980. Diário de Pernambuco, Recife, 19 jan. 1980. Viver, p. 1.
  • COUTINHO, Valdi. Sonho não Acaba e o Vivencial Vai Reabrir. Diário de Pernambuco, Recife, 18 ago. 1982. Viver, p. B-6.
  • COUTINHO, Valdi. Vivencial em Guerra. Diário de Pernambuco, Recife, 6 fev. 1982. Viver, p. B-10.
  • COUTINHO, Valdi. Vivencial Revitaliza o Movimento. Diário de Pernambuco, Recife, 10 set. 1982. Viver, p. B-8.
  • GUIMARÃES, Ana Maria; LACERDA, Ângela. Rebolado "Gay" Sacode as Noites do Recife. Diário de Pernambuco, Recife, p. A-12, 24 jun.1979.
  • MEDEIROS, Fátima Maria Costa. Vivencial - Vida e Morte de uma Vanguarda. 1986. 67 f. Monografia (Especialização em Artes Cênicas) - Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1986.
  • PACHECO, Tania. Repúblicas Independentes, Darling: um espetáculo sincero que justifica a ida ao teatro. O Globo, Rio de Janeiro, 20 jan. 1979. Segundo Caderno, p. 40.
  • PENTEADO, Darcy. Veredas tropicais. Lampião da Esquina, Rio de Janeiro, ano 3, n. 33, p. 3, jul. 1981.
  • TREVISAN, João Silvério. Devassos no Paraíso: a homossexualidade no Brasil, da Colônia à atualidade. 6ª ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Record, 2004. 588 p.
  • TREVISAN, João Silvério. Vivencial Diversiones apresenta: frangos falando para o mundo. Lampião da Esquina, Rio de janeiro, nº 18, p. 15, nov. 1979.
  • VIVENCIAL Revive Integralismo. Diário de Pernambuco, Recife, p. A-5, 17 nov. 1980.
  • VIVENCIAL: Sagrada Subversão. Direção Luciana Cardoso e Renata Calumby. Direção de Produção, Edição, Direção de Arte: George Meireles, Luciana Cardoso e Renata Calumby. Câmera Alex Costa e Rogério Matos. Trabalho de conclusão do curso de jornalismo. Universidade Católica de Pernambuco, Recife, 2005. Cor, 25 min.

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  • GRUPO de Teatro Vivencial. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo514477/grupo-de-teatro-vivencial>. Acesso em: 25 de Jul. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7