Artigo da seção grupos Grupo TEAR

Grupo TEAR

Artigo da seção grupos
Teatro  

Data/Local
1980 - Porto Alegre RS

Histórico
O grupo Tear forma-se em 1980, sob a direção de Maria Helena Lopes, com a intenção de criar espetáculos com base na investigação de linguagens e estilos de interpretação. Simultaneamente, investe na preparação dos atores e tem a improvisação como fundamento para a criação e a formação continuada.

Os integrantes da formação original têm em comum, em sua maioria, a passagem pelo Departamento de Arte Dramática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - DAD/UFRGS, como alunos ou professores. São eles: Pedro Wayne, Nazaré Cavalcanti, Ângela Gonzaga, Marco Fronchetti, Clarissa Malheiros, Sergio Lulkin e Sonia Coppini. A partir de 1983, integram o grupo por vários anos Eleonora Prado e Marcos Carbonell.

No ano de 1981, em seu primeiro espetáculo, Quem Manda na Banda, o grupo investe num processo de criação com base em improvisações registradas e roteirizadas pela direção e aborda o universo infantil através das relações entre meninos e meninas que brincam num espaço abandonado. O trabalho minucioso sobre o comportamento infantil qualifica as atuações com autenticidade, sem cair nas armadilhas dos estereótipos. O crítico Cláudio Heemann, do jornal Zero Hora, destaca a sensibilidade da direção por sua teatralidade ao recriar brincadeiras infantis, "fazendo eco para os aspectos do real e deixando as intenções se definirem nas entrelinhas". 

A seguir, o Tear apresenta Os Reis Vagabundos, em 1982, no qual explora o universo dos catadores de lixo narrado por meio da linguagem do clown. A direção novamente aborda diferentes temas a partir de improvisações. Maria Helena experimenta a circulação de suas criações por outros espaços com apresentações em parques e presídios.

O grupo participa com destaque do 1º Festival Nacional das Mulheres nas Artes, em 1982, promovido por Ruth Escobar em São Paulo e, no ano seguinte, Os Reis Vagabundos é contemplado com a participação no Projeto Mambembão/1983, promovido pelo Instituto Nacional de Artes Cênicas, do Ministério da Educação e Cultura - Inacen/MinC, o que permite apresentações em Vitória, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Por sua repercussão, retorna à capital paulista e cumpre temporada no Sesc Pompéia.

O diretor Ulysses Cruz define o espetáculo como uma "farsa trágica exuberante" e descreve a primeira reação diante de Os Reis Vagabundos como de incredulidade, mas que aos poucos os personagens tomam de assalto a consciência dos espectadores e os levam "com mãos macias e gestos carinhosos por uma estranha viagem ao mundo da poesia simples".2  

Em sua trajetória pelo Brasil, Os Reis Vagabundos ganha inúmeras reportagens e críticas que destacam a presença do grupo no panorama nacional e afirmam a importância da pesquisa de linguagem teatral.

Em 1984, o Tear apresenta Crônica da Cidade Pequena, adaptação de Crônica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, destaque em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, com repercussão na imprensa cultural. E integra, no ano seguinte, a programação do Teatro Sesc Anchieta e do Centro Cultural São Paulo - CCSP, ambos em São Paulo. No verão de 1986, Crônica da Cidade Pequena participa do Festival de Verão do Inacen/MinC no Teatro Glauce Rocha, no Rio de Janeiro. Maria Helena Lopes ganha, com a Crônica, o Troféu Mambembe na categoria especial, concedido pelo Inacen/MinC para os melhores espetáculos da temporada teatral paulista em 1985, e o Prêmio Governador do Estado de São Paulo, como a melhor autora em teatro adulto.

A imprensa paulista destaca a montagem pela sua história pungente e por evitar o tom de um dramalhão de província. O silêncio, a delicadeza dos gestos dos personagens, e mesmo o riso, têm medidas sensíveis, sem apelos fáceis. Irion Nolasco, professor de direção no DAD/UFRGS, analisa: "Algumas soluções cênicas passam da foto ao tableau, para o movimento marcadamente cinematográfico. Às vezes o foco dramático é deslocado sutilmente pelos atores em sucessão vertiginosa e a impressão que se tem é que estamos assistindo a um travelling de uma câmara ausente. A fusão, outro recurso de linguagem do cinema, é usada de maneira sintética e lírica, focando e desfocando a ação através de convenções tipicamente teatrais".3

Em 1987, o grupo estreia Império da Cobiça, inspirado livremente na obra Nascimentos, de Eduardo Galeano, no Teatro Sesc Anchieta, em São Paulo, e a seguir em Campinas e Marília, cidades paulistas. Faz apresentações no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, seguindo para Porto Alegre, com temporada no Teatro São Pedro e no Renascença, em 1988. Sonia Goldfeder, crítica da revista IstoÉ, escreve sobre o espetáculo: "Com inteligência e fina ironia, gatilho apontado para as mazelas do poder, Império da Cobiça é impiedoso ao retratar a aristocracia em sua decadência (e pouca finesse), a igreja e sua ambição corrupta. Mérito total para o elenco, se desdobrando nas dezenas de personagens, trabalhando com brilho os bufões, em todo seu caráter irreverente e exacerbado".4

O Tear, em 1988, dedica-se a uma coprodução em outro gênero: a ópera La Serva Padrona, com a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro e solistas, com regência de José Pedro Boéssio, e a direção de Maria Helena Lopes. Diversifica sua experimentação e convida novos atores para formar o coro e elenco de apoio.

Em Partituras - Os Atos, as Palavras e as Metáforas, de 1990, três homens e duas mulheres encontram-se numa sala de espera e vão revelando, em silêncio, suas características mais sórdidas enquanto desfilam seus hábitos diários. O diretor Luiz Paulo Vasconcellos, em crítica para o Zero Hora, evidencia o jogo circular, episódico e fragmentado da narrativa, na qual "os personagens transitam da espera tediosa ao paroxismo da violência e da obscenidade, da representação naturalista à estilização, da ação cotidiana, aleatória, à expressão mais íntima de um monólogo interior que prescinde da mediação censora do ego".5  Para o crítico, a palavra funciona menos como elemento significante e mais como uma sonoridade complementar da tensão emocional.

Montado em 1992, Kalldewey - A Farsa do Convidado Obsceno, de Botho Strauss, aborda o homem e suas questões existenciais como a realização no amor, as satisfações pessoais e a solidão. Em narrativa fragmentada e irônica, os personagens falam por (e para) um coletivo com rigor na precisão do gesto e na potência da palavra como ação. No Jornal do Comércio, o crítico Antonio Hohlfeldt percebe a farsa de Kalldewey em diferentes perspectivas: por vezes lírica, ora puramente dramática, ora discursiva, e até mesmo uma perspectiva própria do psicodrama. Destaca que o gênero permite a passagem direta do registro realista para a paráfrase, através da "paródia de representações dramáticas mais populares ou massificadas".

Após um período afastado dos palcos, o Tear retorna à criação com o projeto Para Viver o Teatro: Espaços Possíveis, cujo primeiro espetáculo é Shakexperience, apresentado no Mercado Público de Porto Alegre, em 1998. Nesse momento, a criação resulta diretamente da exploração dos espaços que o grupo ocupa e a maneira como os atores interagem com esses ambientes. Na última montagem do projeto e do grupo, Solos em Cena, de 2001, o ator Sergio Lulkin ocupa um espaço único com três cadeiras, ambiente análogo à cenografia proposta em Partituras, em que há apenas cinco cadeiras e um biombo. Nesse espaço, que tanto pode ser de espera quanto de proposição (simpósio ou seminário), Lulkin representa três personagens simultâneos que estabelecem uma discussão sobre questões da sociedade contemporânea: jogos de poder, sexo e religião. Novamente, a direção de Maria Helena propõe o desdobramento do ator em diferentes representações, com texto elaborado com base em improvisações e excertos de literatura não teatral.

No decorrer de 20 anos, o grupo se recompõe de acordo com as necessidades da criação e participação de vários artistas: Maria Lúcia Raymundo, Lucia Serpa, Marta Biavaschi, Miriam Benigna, Nair Dagostini, Roberto Camargo, Ciça Reckziegel, Fernando Severino, Gilda Zunino, Ilana Kaplan, Jezebel de Carli, Lisa Becker, Tatiana Cardoso, Breno Ketzer e Nelson Diniz. Para manter a equipe afinada com as propostas da direção, o grupo acolhe Fiapo Barth e Rosangela Cortinhas para várias criações em cenografia e figurino, Luiz Francisco Acosta, Marília Fichtner e Glênio Póvoas.

A trajetória do Tear representa, de forma inconfundível, a direção de Maria Helena Lopes. Ela diz que, por meio de seus espetáculos, procura renovar o espírito da descoberta, tanto para o público como para os atores.  Esse estado, segundo a diretora, se exercita pela renovação quer de alguns aspectos do jogo cênico, quer entre as personagens, ou mesmo pela relação com os novos espaços por onde o grupo passa. Nesses processos, recupera-se o prazer da criação, a capacidade de surpreender-se e a preservação do contato vivo entre e a cena e o público, o que caracteriza a expressão cênica e a torna única.

Notas
1. HEEMANN, Cláudio. "Quem manda na banda", a imaginosa teatralidade. Zero Hora, Porto Alegre, 8 jul. 1981.

2. CRUZ, Ulysses. Os reis vagabundos: uma farsa trágica exuberante. Diário do Grande ABC, São Paulo, 14 set. 1982.

3. NOLASCO, Irion. Texto impresso no programa do espetáculo, acervo do Tear. Porto Alegre, 1984.

4. GOLDFEDER, Sonia. Sem escrúpulos nem piedade.  IstoÉ, São Paulo, 8 abr.1987.

5. VASCONCELLOS, Luiz Paulo.  Partituras: belo exemplo de uma crise.  Zero Hora, Porto Alegre, 30 dez. 1990.

6. HOHLFELDT, Antonio. Uma farsa estimulante. Jornal do Comércio, Porto Alegre, 13 ago. 1992.

Outras informações do grupo Grupo TEAR:

  • Outros nomes
    • TEAR
    • Tear (Porto Alegre, RS)

Espetáculos (21)

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Fontes de pesquisa (6)

  • CRUZ, Ulysses. Os reis vagabundos: uma farsa trágica exuberante. Diário do Grande ABC, São Paulo, 14 set. 1982.
  • GOLDFEDER, Sonia. Sem escrúpulos nem piedade. IstoÉ, São Paulo, 8 abr.1987.
  • HEEMANN, Cláudio. "Quem manda na banda", a imaginosa teatralidade. Zero Hora, Porto Alegre, 8 jul. 1981.
  • HOHLFELDT, Antonio. Uma farsa estimulante. Jornal do Comércio, Porto Alegre, 13 ago. 1992.
  • NOLASCO, Irion. Texto impresso no programa do espetáculo, acervo do Tear. Porto Alegre, 1984.
  • VASCONCELLOS, Luiz Paulo. Partituras: belo exemplo de uma crise. Zero Hora, Porto Alegre, 30 dez. 1990.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GRUPO TEAR. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo510512/grupo-tear>. Acesso em: 15 de Jun. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7