Artigo da seção grupos Cia. Clara de Teatro

Cia. Clara de Teatro

Artigo da seção grupos
Teatro  

Data/Local
2002 - Belo Horizonte MG - 30 de julho

Histórico
A Cia. Clara de Teatro afirma-se como uma companhia que constrói e consolida, a partir de 2002, um lugar de pesquisa e experimentação no teatro da capital mineira. Desde os trabalhos iniciais, o grupo cria a própria dramaturgia, o que passa a ser uma das marcas de seu fazer teatral. Os temas de suas peças tangenciam sempre as relações humanas, os encontros e desencontros do mundo contemporâneo.

A Cia. Clara é fundada por representantes de uma nova geração de artistas mineiros, recém-formados no curso de teatro do centro de formação artística da Fundação Clóvis Salgado. A parceria entre o diretor Anderson Aníbal e o dramaturgo Gustavo Naves Franco se estabelece no Festival de Cenas Curtas, do Galpão Cine Horto, em que apresentam duas cenas curtas, Alice H e Todas as Belezas do Mundo, respectivamente, em 2000 e 2001. Nessa época integram a companhia os atores Grace Passô, que posteriormente funda o Grupo Espanca!, além de Herbert Tadeu, Raquel Pedras, Saulo Souza e Carolina Amaral. O primeiro espetáculo do grupo, Todas as Belezas do Mundo, de Gustavo Naves Franco, resulta do projeto vencedor do Prêmio Estímulo às Artes Cênicas Maria Clara Machado da Fundação Clóvis Salgado e estreia na Sala João Ceschiatti, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em julho de 2002.

Todas as Belezas do Mundo é a primeira peça da trilogia A Natureza das Coisas, composta também pelos espetáculos Coisas Invisíveis, em 2003, e Cinema, em 2005. Distingue-se pela simplicidade no uso dos elementos do teatro. O cenário é composto de um gramado artificial, que demarca a área de atuação no palco, e o figurino de roupas muito próximas do cotidiano. A economia de recursos cênicos coloca em destaque a humanidade das personagens apresentadas pelos atores e também a própria humanidade dos atores que não se escondem nas personagens, ao contrário, deixam em evidência seu trabalho de atuação. Anderson Aníbal afirma: "Gosto de pensar que o princípio do teatro é o ator estar ali naquele lugar, naquela hora. Digo muito aos atores que no meu trabalho eles não são outra pessoa e o público sabe disso".1

Com a peça Coisas Invisíveis, também texto de Gustavo Naves Franco, a Cia. Clara consegue projeção no cenário teatral brasileiro. Essa montagem participa da Mostra Paralela do Festival de Teatro de Curitiba - Fringe, em 2004, e é eleita o melhor espetáculo da mostra pelo jornal Folha de S.Paulo, que publica: "Para falar sobre as relações e de tudo aquilo que acontece a nossa volta sem que vejamos - as coisas invisíveis -, o espetáculo recorre à singeleza das falas, das expressões e dos gestos. As partidas, as despedidas, os desencontros e a solidão, sentimentos inerentes à vida, são tratados e compartilhados com a plateia de maneira poética e tocante".2 Nesse momento, juntam-se ao grupo os atores Gustavo Bones e Marcelo Castro, posteriormente integrantes do Espanca!, e a atriz Ana Vida.

Cinema, de Anderson Aníbal, segue os mesmos princípios de economia no uso dos recursos teatrais. Num teatro em que palavra e imagem carregam ao mesmo tempo uma simplicidade e uma densidade poéticas, a presença do ator e a música ao vivo falam diretamente ao espectador. Certa suspensão de espaço e de tempo marca também os trabalhos do diretor Anderson Aníbal, que não se preocupa em situar as histórias num espaço ou tempo precisos. Com isso, o que fica em evidência são as relações humanas, já que importa pouco onde e quando elas acontecem.

Outra característica da companhia é a busca por uma atuação e dramaturgia que dialoguem com os dias atuais.  O ator está no palco mais para apresentar personagens do que para representar uma personagem, "fingindo" ser outra pessoa. Tudo se apresenta como é, sem subterfúgios: o cenário é o espaço em que acontece a cena, a luz deixa ver os atores e o figurino os veste. O que pode, a princípio, ser encarado como necessidade de produção a custos baixos se consolida ao longo dos anos como linguagem da companhia. A execução da música ao vivo, composta pelo músico João Márcio, que é responsável pela criação de todas as trilhas da Cia. Clara, com exceção de Cinema, é também uma marca na linguagem, reafirmada nos espetáculos, Alguns Leões Falam, em 2007, e Vilarejo do Peixe Vermelho, em 2008, projeto resultante o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, em 2007; ambos com direção e texto de Anderson Aníbal.

A montagem de Alguns Leões Falam é viabilizada por um projeto de residência, iniciativa que reúne jovens atores do interior do Estado de Minas Gerais, para um mergulho na criação de um espetáculo com os profissionais da Cia. Clara. As personagens que se apresentam em cena são três amigos de infância, que estão em diferentes estágios da vida. O livro homônimo de Anderson Aníbal, uma reunião de crônicas, contos e reflexões, serve de estímulo para o desenvolvimento da dramaturgia do espetáculo. Segundo a crítica mineira Soraya Belusi: "Aníbal comprova em Alguns Leões Falam que é interlocutor dos dilemas da juventude, um público que vem acompanhando seu trabalho desde Todas as Belezas do Mundo, de 2002".3

O espetáculo Vilarejo do Peixe Vermelho abre perspectivas distintas de abordagem da relação entre o amor e distâncias, com base em três pequenas histórias, com pessoas e lugares diferentes.

Com essa trajetória artística, a Cia. Clara consegue visibilidade nacional e parcerias importantes para manter um espaço próprio, no qual ocorrem os ensaios, residências artísticas, seminários, debates, entre outras atividades. A Caixa Clara, que funciona desde 2006, reúne uma diversidade de projetos como a implementação de fóruns de discussão sobre o fazer teatral, o fomento de trabalhos de novos grupos de teatro em fase de formação e oficinas de formação de atores. A edição 2009 do Fórum Caixa Clara, por exemplo, cujo tema é "palavra e teatro", promove um trabalho de discussões sobre a produção da dramaturgia contemporânea, em Minas Gerais e no Brasil.

O funcionamento da sede fortalece o processo de estruturação artística e social da companhia, amplia seu contato com o público e abre novos caminhos de pesquisa e compartilhamento com outros grupos e artistas.

O projeto Conexão Clara-Piollin é contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2008. Trata-se do intercâmbio entre a Cia. Clara e o grupo Piollin, da Paraíba. Em 2009, estreia o espetáculo Nada Aconteceu, inspirado em conto A Dama do Cachorrinho de Anton Tchekhov.

Notas
1. BELUSI, Soraya. Peça retrata uma vida de amizades. O Tempo, 11 out. 2007.

2. FIDALGO, Janaína. Estreante, Cia. Clara faz sucesso no Fringe de Curitiba. Folha on line, 25 mar. 2004.

3. BELUSI, Soraya. Peça retrata uma vida de amizades. O Tempo, 11 out. 2007.

Outras informações do grupo Cia. Clara de Teatro:

  • Outros nomes
    • Cia. Clara
    • Cia. Clara de Teatro (Belo Horizonte, MG)
  • Relações com outros artigos da enciclopédia:

Espetáculos (7)

Fontes de pesquisa (3)

  • BELUSI, Soraya. Peça retrata uma vida de amizades. O tempo, 11 out. 2007.
  • CIA. Clara de Teatro. Site da companhia. Disponível em: [http://www.ciaclara.com.br/]. Acesso em: 08/07/2010.
  • FIDALGO, Janaína. Estreante, cia. Clara faz sucesso no Fringe de Curitiba. Folha on line, 25 mar. 2004.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CIA. Clara de Teatro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo500620/cia-clara-de-teatro>. Acesso em: 20 de Ago. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7