Artigo da seção grupos Atelier-Abstração

Atelier-Abstração

Artigo da seção grupos
Artes visuais  

Histórico

Criado por Flexor (1907-1971), o Atelier-Abstração é um dos espaços mais importantes de formação artística na cidade de São Paulo na década de 1950. O artista faz de sua casa um ateliê onde reúne um grupo de jovens para pintar e desenhar. A proposta é "criar um espaço para desenvolver uma ordenação calculada de formas e cores", explica Flexor. O teste para entrada, lembram os alunos, consiste em desenhar um violão com régua e esquadro. Trata-se de ensinar a interpretar as formas essenciais das figuras escolhidas como modelos, fragmentando-as em planos geométricos, à moda cubista. O desenho em perspectiva sobre papel quadriculado é outro recurso freqüentemente utilizado pelo professor, que faz a abstração ser introduzida paulatinamente. Em um segundo estágio é realizado o trabalho com as cores, primeiro as quentes, depois as frias. Participam do grupo, entre outros, Izar do Amaral Berlinck (1918), Zilda Andrews, Emílio Mallet, Leopoldo Raimo (1912), Jacques Douchez (1921), Maria Antonia Berlinck, Leyla Perrone-Moisés, Norberto Nicola (1930 - 2007), Wega Nery (1912 - 2007), Anésia Pacheco Chaves (1931), Alberto Teixeira (1925) e Nelson Leirner (1932), este último por curto período.

Flexor e seus alunos realizam uma série de exposições conjuntas. Da primeira, em 1953, no Instituto dos Arquitetos do Brasil - IAB/SP, em São Paulo, participam Izar, Douchez, Wega, Raimo e Teixeira. A segunda coletiva dá-se em julho de 1954, no Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM/SP, num momento em que a residência-ateliê do artista, projetada por Rino Levi (1901-1965), passa a funcionar na rua Gaspar Lourenço, 587, Vila Mariana. Em 1955, segue-se outra, no Instituto Mackenzie. Em 1956, a nova exposição do grupo no MAM/SP dá uma visão mais clara dos ensinamentos da escola: a busca de equilíbrio entre as formas geométricas, a tentativa de imprimir ritmo e movimento à composição, o desenvolvimento da sensibilidade cromática, a procura da unidade estrutural da obra. No texto do catálogo, visto como uma espécie de manifesto do Atelier-Abstração, Flexor indica: "Um quadro abstrato não representa, mas se apresenta/ Um quadro abstrato não exprime, mas se exprime/ Um quadro abstrato em si mesmo já é uma presença e significa só ele mesmo". Com isso o artista explicita sua visão da pintura não como arte da imitação, mas como próxima da arte musical e da arquitetura, artes maiores pela "capacidade de invenção, de ordem e sensibilidade". Nessa definição, indicam os estudiosos, difícil não localizar ecos do neoplasticismo de Piet Mondrian (1872-1944) e da arte concreta de Theo van Doesburg (1883-1931).

Instalando-se em São Paulo, em fins de 1948, após longo período de formação fora do Brasil - primeiro em Bruxelas, depois em Paris (em 1930, adquire nacionalidade francesa) -, Flexor encontra na cidade um ambiente artístico marcado pelos debates sobre a arte abstrata. A exposição de Max Bill (1908-1994) no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp e a presença da delegação suíça na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, ambas em 1951, abrem o país para as novas tendências construtivas, que são amplamente exploradas a partir de então. Os prêmios concedidos à escultura Unidade Tripartida (1948/1949), de Max Bill, e à tela Formas (1951), de Ivan Serpa (1923-1973), na 1ª Bienal, constituem sintomas da atenção despertada pelas novas linguagens pictóricas. As pesquisas abstratas se beneficiam também das seguintes exposições: 19 Pintores, na Galeria Prestes Maia, em São Paulo, 1947, semente do grupo concreto paulista; Do Figurativismo ao Abstracionismo, no MAM/SP, 1949; Alexander Calder, no Masp, 1949; e Fotoformas, de Geraldo de Barros (1923-1998), no Masp, 1950. O ano de 1952 e a exposição do Grupo Ruptura, por sua vez, marcam o início oficial do movimento concreto em São Paulo. No Rio de Janeiro, alunos do curso de Ivan Serpa no MAM/RJ formam o Grupo Frente. As divergências entre Rio e São Paulo se explicitam no início da ruptura neoconcreta, efetivada em 1959.

Flexor participa ativamente da vida artística da época: integra duas importantes exposições - a Bienal de 1951 e Do Figurativismo ao Abstracionismo -, realiza mostras coletivas com seus alunos e escreve textos defendendo suas posições estéticas (por exemplo, Considerações sobre a Arte Abstrata, publicado no número 28 da revista Habitat, 1956). Ocupa lugar particular na cena do momento, não engrossando as fileiras de nenhum dos grupos existentes. Sua defesa da abstração não o aproxima nem da abstração lírica nem dos movimentos concreto e neoconcreto. Para ele, a pintura abstrata ancora-se em conceitos matemáticos e geométricos. Além disso, indicam alguns críticos, ele jamais abandona completamente a figura, nem em sua fase mais radicalmente abstrata. Aderindo, a partir de 1945, ao abstracionismo de feição cubista (Menino Estudando Matemática, por exemplo), com forte inspiração picassiana em alguns trabalhos (Figura, 1946, e La Creole, 1947), Flexor aponta para uma solução de compromisso entre a figura e as pesquisas geométricas (Peixes, 1948). Nos anos 1950, momento em que a abstração conhece o ápice - em trabalhos como Invenções (1952), Modulações (1954), e Arlequinadas (1956) -, o estudo da figura feminina das épocas anteriores é retomado, convivendo com os estudos puramente geométricos.

O grupo reunido no Atelier-Abstração se dispersa em 1958, após uma última coletiva realizada em Nova York, na Galeria Rolland Arnelle. Em 1961, Flexor constitui um novo grupo, o Ateliê Abstração 2, que tem vida curta e menor coesão entre seus membros. Charlotta Adlerová (1908-1989), Halina Drapinski, Maria Helena Occhi, Ida Shaib, Michiko Komatsu, André Cahen, Hans Grunebaum e Sérgio de Freitas Azevedo compõem essa fase. Mesmo com intenso trabalho como professor, que a experiência do Atelier-Abstração atesta, Flexor tem atividade diversificada como artista. Além de pintor, trabalha como ilustrador e autor de projetos ligados à arquitetura, como, por exemplo, o vitral para a família Hoolnagem (1952), os painéis para o Clube Paulistano e para o Hospital São Luiz, os afrescos para sua casa e a de seu aluno Leopoldo Raimo.

Outras informações do grupo Atelier-Abstração:

  • Outros nomes
    • Ateliê Abstração
  • Relações com outros artigos da enciclopédia:

Fontes de pesquisa (4)

  • BRILL, Alice. Samson Flexor: do figurativismo ao abstracionismo. São Paulo: MWM-IFK, 1990. 261p., il. p&b. color.
  • FLEXOR. Modulações. Curadoria e texto Denise Mattar; texto Tadeu Chiarelli, Ferreira Gullar, Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2003. 136 p., il. p&b color.
  • PONTUAL, Roberto. Arte brasileira contemporânea: Coleção Gilberto Chateaubriand. Apresentação Pereira Carneiro; tradução Florence Eleanor Irvin, John Knox. Rio de Janeiro: Edições Jornal do Brasil, 1976. 478 p.
  • ZANINI, Walter (Coord.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto Moreira Salles: Fundação Djalma Guimarães, 1983. v.2.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ATELIER-ABSTRAÇÃO . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo434202/atelier-abstracao>. Acesso em: 14 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7