Artigo da seção grupos Cia. Teatral Face & Carretos

Cia. Teatral Face & Carretos

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra Cia. Teatral Face & Carretos: 1982 Local de crição: (Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre) | Data de término 2000 Local de término: (Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre)

Histórico
A Cia. Teatral Face & Carretos se caracteriza pela adaptação de obras de autores contemporâneos, especialmente alemães, para a realidade latino-americana, mesclando textos de sentido filosófico com o uso intensivo de elementos cênicos nos quais convivem o trágico e o farsesco.

Durante a década de 1990, é um das companhias mais premiados de Porto Alegre, se apresenta em vários estados brasileiros, em países da América Latina e da Europa.

O grupo surge com o nome Faz-se Carretos, em 1982 - logo alterado para Face & Carretos -, com a direção de Camilo de Lélis, estudante que troca o curso de enfermagem pelo de artes cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), influenciado por montagens a que assiste em São Paulo, especialmente as do Teatro Oficina.

Participam da formação inicial Adriane Azevedo, Carlos Azevedo, Gilmar Hermes, Newton Rosa e, mais tarde, Marco Fronckowiak, Lígia Rigo, João Drummond, Elison Couto e João Luiz Martinez.

A maioria de seus integrantes vive em comunidade e procura sobreviver exclusivamente da atividade artística. "Foi a maneira que achamos de estar perto do centro morando em um apartamento agradável e com custos condizentes com o nosso orçamento, acontece que isso acabou por colocar a Face & Carretos numa situação muito particular, exercitávamos o teatro o dia todo, nossa intimidade e nossa disponibilidade também eram grandes e aumentavam a maturidade de funcionamento daqueles artistas enquanto grupo",1 relata o ator e cenógrafo Marco Fronckowiak.

Nos primeiros anos, a Face & Carretos se dedica ao teatro para o público infantil. Sua segunda peça, Quem Manda no Pampa, de 1983, mostra a visão de um menino sobre a perda da identidade econômica e cultural do interior gaúcho, onde a produção primária é substituída por fábricas. Após a estreia no Teatro Renascença, em Porto Alegre, o grupo excursiona, por três meses, pelo Rio Grande do Sul, em uma Kombi e percorre 52 cidades, apresentando-se em clubes e igrejas. Seguem-se outras montagens destinadas ao público infantil, com destaque para a adaptação de Peter Pan, em 1986, e de Alice no País das Maravilhas, em 1990.

Em 1985, com Sob o Signo do Unicórnio, o grupo passa a investir no teatro para o público adulto. O reconhecimento de crítica vem, em 1990, com O Ferreiro e a Morte, texto dos uruguaios Jorge Curi e Mercedes Rein, em que a obra do pintor espanhol Francisco Goya se destaca como elemento cênico, tanto nos estandartes empunhados pelas personagens como na cena da morte da personagem Miséria, reprodução teatral do quadro O Fuzilamento de Três de Maio, em que o artista plástico denuncia as atrocidades da invasão napoleônica na Espanha.

Camilo de Lélis comenta: "O personagem da peça resistia à ordem estabelecida, o homem que era fuzilado na pintura também. Ao reconhecer uma imagem de domínio popular - no caso o quadro de Goya -, o público se sente gratificado pelo saber que possui. Ele é tratado como espectador culto. No caso de as pessoas não terem esse conhecimento, a figura, por ter sido bem empregada, é eficaz para narrar a fábula da peça. Contudo, sabemos que as imagens, mais do que o texto, trazem em sua aura significados que fogem ao domínio do encenador".2

Depois de uma elogiada montagem, em 1988, de A Ópera do Invasor, baseada no conto Bola de Sebo, de Guy de Maupassant, a Face & Carretos parte para seu projeto mais ousado: a adaptação de um conto do autor alemão B. Traven, que Camilo de Lélis conhece desde a adolescência. Mesmo sem conseguir o texto original, o grupo resolve montar, em 1991, Macário, o Afortunado, espetáculo que resulta das lembranças do diretor e de improvisos dos atores. A história de um pobre mexicano cujo sonho é comer um peru e que se defronta com a Morte é o pretexto para que a peça, ambientada em 1642, questione a história oficial da América. A trama parte de um ponto de vista metalingüístico: o mistério em torno do autor, um alemão que emigra para o México cuja identidade nunca se descobre, tampouco o que acontece com ele. O narrador é um arqueólogo que procura pistas sobre o destino de Traven.

Para viabilizar o projeto, Camilo busca o apoio do diretor do Instituto Goethe de Porto Alegre, Hartmut Becher. Quando Becher consegue uma tradução do texto, a peça já está pronta, mas, apesar do descompasso, os principais elementos do conto estão presentes na montagem, definida pelo crítico de Zero Hora Cláudio Heemann como uma explosão de criatividade. "Como uma erupção de vulcânica, a encenação de Macário irrompe excessiva. Na ânsia de citar toda a fenomenologia da colonização, a narrativa perde o rumo natural, distancia-se por vezes, mas o vigor expositivo e a invenção cênica permanecem ativos".3

A peça conquista o Prêmio Açorianos da Prefeitura Municipal de Porto Alegre nas principais categorias: melhor espetáculo, diretor, cenografia e atriz, para Lígia Rigo, que faz seis aparições da Morte, três como homem e três como mulher.

Macário, o Afortunado marca a primeira de uma série de montagens de textos de autores alemães. Seguem-se dois textos de Tankred Dorst, Uma Chance para Feuerbach, em 1992, e O Estranho Senhor Paulo, que conquista o Prêmio Açorianos de melhor espetáculo, melhor direção e melhor atriz coadjuvante para Renata de Lélis, filha de Camilo. A estreia, em 1996, conta com a presença do próprio autor, o que rende a Camilo de Lélis uma bolsa de estudos em Berlim por quatro anos. O Estranho Senhor Paulo participa de um projeto da Fundação Nacional de Artes (Funarte), percorre 13 capitais do Brasil e é considerado o melhor espetáculo do Festival Internacional de Teatro de Buenos Aires, prêmio compartilhado com a montagem de Arturo Ui, de Bertolt Brecht, pelo Berliner Ensemble.

A Face & Carretos repete, em 1997, as premiações do ano anterior. A Bota e Sua Meia, de Herbert Achternbusch, é o grande vencedor do Prêmio Açorianos, nas categorias de melhor espetáculo, melhor direção, melhor ator, para Lutti Pereira, melhor atriz, para Lígia Rigo, e melhor trilha sonora, para Marcelo Delacroix e Gustavo Finkler. Recebe ainda sete prêmios no 2º Conesul de Teatro, realizado em Pelotas, Rio Grande do Sul, concorrendo com produções do Brasil, Argentina e Uruguai. No ano seguinte, A Bota e Sua Meia representa o Brasil no Festival Internacional de Munique, na Alemanha.

Em 1995, a Face & Carretos participa da ópera-pop Jacobina, uma Balada para o Cristo Mulher, retomando a história da líder messiânica Jacobina Maurer, que lidera uma rebelião na região de colonização alemã no Rio Grande do Sul, no século XIX. A montagem é realizada em conjunto com a Cia. de Óperas e conta com a presença dos músicos Bebeto Alves, Paulo Gaiger e Beto Herrmann. Jacobina integra a trilogia composta também por O Ferreiro e a Morte, que trata de temática universal, e Macário, o Afortunado, abordando a realidade latino-americana.

Os Crimes da Rua Arvoredo, do autor gaúcho Hércules Grecco, encenado pela Face & Carretos em 1999, mistura a narrativa de um crime marcante na história de Porto Alegre, ocorrido no século XIX, quando um açougueiro é condenado por transformar carne humana em linguiça, com uma ficção contemporânea envolvendo a venda de órgãos.

No ano seguinte, o grupo faz seu último espetáculo, Mehrda, Presidentas, do alemão Werner Schwab. A montagem cria um ambiente carnavalesco e conquista o Prêmio Açorianos de melhor espetáculo, direção e atriz. Em 2001, é apresentado em Montevidéu e participa do projeto En-Cena Brasil, da Funarte, fazendo temporada no Teatro Gláucio Gill, no Rio de Janeiro.

Segundo Stella Bento, "ao contrário da montagem alemã, de características realistas, que expunha aniquilamento e morte, Camilo de Lélis descartou o realismo, aprofundou-se nas referências escatológicas e criou uma encenação que enfatiza o renascimento, a força vital, a transformação da morte em vida, tendo como força impulsionadora a concepção estética do realismo grotesco e a forma do drama satírico".4

A Cia. Teatral Face & Carretos encerra suas atividades em 2000, mas, em 2003, alguns remanescentes ainda apresentam A Bota e Sua Meia no evento 6ª Cena Lusófona, em Coimbra, Portugal. A grande maioria dos participantes se mantém na atividade teatral. A Face & Carretos deixa um legado consistente de experimentação e inventividade que reiteram sua importância no panorama do teatro gaúcho do período. 

Notas
1. Entrevista a Paulo Brody.

2. Idem.

3. HEEMANN, Cláudio. Macário é uma explosão de criatividade. Zero Hora, Porto Alegre, 22 jun. 1991.

4. Entrevista a Airton Oliveira.

Outras informações do grupo Cia. Teatral Face & Carretos:

  • Outros nomes
    • Cia. Face e Carretos

Espetáculos (2)

Fontes de pesquisa (3)

  • Entrevista a Airton Oliveira.
  • Entrevista a Paulo Brody.
  • HEEMANN, Cláudio. Macário é uma explosão de criatividade. Zero Hora, Porto Alegre, 22 jun. 1991.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CIA. Teatral Face & Carretos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo429114/cia-teatral-face-carretos>. Acesso em: 25 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7