Artigo da seção grupos Grupo Geração

Grupo Geração

Artigo da seção grupos
Teatro  

Data/Local
1967/1969 - Belo Horizonte MG

Histórico
O Grupo Geração marca a história das artes cênicas de Belo Horizonte por representar a emergência de um teatro de resistência ao golpe militar de 1964. É o primeiro grupo local a incorporar, desde a sua fundação, a tendência que surge no fim da década de 1950 no teatro brasileiro de criar no palco uma linguagem nacional e popular, por meio da busca de uma nova dramaturgia e de formas próprias de encenar e atuar.

A opção política, entretanto, não é panfletária, a preocupação prioritária do Grupo Geração é, como se pode ler no programa de seu primeiro espetáculo, antes de tudo "fazer teatro".1 Inova também em termos de organização, propondo superar a estrutura amadora do teatro local.

Fundado por José Antônio de Souza, Eid Ribeiro e José Ulisses de Oliveira, alunos recém-formados do Teatro Universitário (TU), o Geração, provavelmente o primeiro conjunto teatral de Belo Horizonte a ter no nome a palavra "grupo", estreia, em maio de 1967, no Teatro Marília, com a montagem de A Vida Impressa em Dólar, de Clifford Odets. A peça, com direção José Antônio de Souza, relata o drama de uma família americana de classe média abalada pela crise econômica de 1929. A opção por esse texto, segundo Eid Ribeiro, visa denunciar o "capitalismo selvagem" e mostrar como a manipulação da economia afeta as relações familiares.2

Em 1968, estreia a segunda montagem, Mortos sem Sepultura, de Jean-Paul Sartre, que conta a história da tortura de membros da Resistência Francesa na luta contra a ocupação nazista. Nesse caso o objetivo é explícito: denunciar a ditadura brasileira, que a cada dia se torna mais cruel e repressora.

Ainda nesse ano, tendo como referência o Teatro de Arena de São Paulo, o Grupo Geração constitui um segundo núcleo, para lançar novos diretores e atores. E monta, simultaneamente, O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna, dirigida por Marta Martins (uma das primeiras direções femininas do teatro de Belo Horizonte), e Pic-Nic no Front, de Fernando Arrabal, com direção de Alcione Araújo.

No segundo semestre de 1968, encena Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, dirigida por José Antônio de Souza, com o intuito de falar abertamente dos problemas brasileiros. A produção envolve mais de quarenta pessoas. No cartaz do espetáculo há um gorila (animal identificado na época com os militares), que carrega um estandarte imitando os utilizados pela Tradição, Família e Propriedade (TFP), entidade que apoia o golpe de 1964 e marca presença no centro de Belo Horizonte recolhendo assinaturas contra o comunismo. O ano termina com a decretação do Ato Institucional nº 5, que demarca o início da fase mais dura do regime militar brasileiro.

Devido ao endurecimento da ditadura, em 1969, o Grupo Geração chega a uma encruzilhada: largar o palco e entrar para a resistência armada contra o regime ou combater a ditadura com as armas do teatro? José Antônio de Souza deixa o grupo e Eid Ribeiro assume a direção do espetáculo seguinte, Fábula da Hora Final, adaptação de Zoo Story, de Edward Albee. O texto critica os valores da sociedade norte-americana e mostra como eles submetem as pessoas a um inescapável processo de alienação.

Uma das primeiras montagens do teatro de Belo Horizonte no formato arena, Fábula da Hora Final utiliza também a técnica de desdobrar as personagens, representadas por mais de um ator. Quatro arquibancadas cercam um palco redondo onde quatro atores - interpretando uma das personagens, Jerry, o revoltado - contracenam diretamente com o público, que "responde" através da voz gravada da segunda personagem - Peter, o pequeno burguês acomodado. De repente, para espanto do público, Peter, encarnado no quinto ator, levanta-se na plateia e parte para o confronto final com seu antagonista.

Fábula da Hora Final é a última montagem do Grupo Geração. Em busca da profissionalização, José Antônio de Souza e Eid Ribeiro se mudam para São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente.

Ainda em 1970, com produção do Teatro Experimental, José Antônio de Souza dirige a primeira peça de sua autoria, O Fedor. Esse trabalho realiza um dos sonhos do Grupo Geração, de encenar textos de autoria de seus integrantes. Alguns anos depois Eid Ribeiro e Alcione Araújo, que também se muda para o Rio de Janeiro, tornam-se bem-sucedidos dramaturgos. A obra literária de ambos somada à de José Antônio de Souza talvez seja o maior legado do Grupo Geração ao teatro e à cultura brasileira.

Notas
1. A VIDA impressa em dólar, de Clifford Odets, direção de José Antônio de Souza, 1967.

2. Texto escrito em 2005 por Eid Ribeiro para o livro Grupos de Teatro na Belo Horizonte Contemporânea, organizado por Bernardo Novais da Mata Machado, no prelo.

Fontes de pesquisa (2)

  • A VIDA impressa em dólar, de Clifford Odets, direção de José Antônio de Souza, 1967.
  • Texto escrito em 2005 por Eid Ribeiro para o livro Grupos de Teatro na Belo Horizonte Contemporânea, organizado por Bernardo Novais da Mata Machado, no prelo.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GRUPO Geração. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo405816/grupo-geracao>. Acesso em: 17 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7