Artigo da seção grupos Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP)

Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP)

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP): 1940 Local de crição: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Data de término 1952 Local de término: (Brasil / Pernambuco / Recife)

Histórico
O Teatro do Estudante de Pernambuco é criado em 1940, e, até o ingresso de Hermilo Borba Filho no grupo, produz um teatro de cunho amador, com pouco compromisso artístico. Hermilo Borba Filho é convidado a assumir a direção artística da companhia em setembro de 1945. A partir de 1946, já sob o seu comando, o Teatro do Estudante de Pernambuco passa por um período de reformulação de objetivos e reestruturação, assumindo um papel de importância singular na consolidação da modernidade teatral no Nordeste não somente por seu fomento a uma dramaturgia ligada à cultura da região, mas também pela preocupação de levar um teatro de qualidade às camadas economicamente menos favorecidas da sociedade.

Egresso do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), em que se destaca como ator e como tradutor de peças entre 1942 e 1945, Hermilo Borba Filho começa a se opor a alguns dos princípios postulados por Valdemar de Oliveira, fundador do TAP, defensor da ideia de que "as grandes obras teatrais são feitas para a elite".1 Não por acaso, a conferência Teatro, Arte do Povo, cujo conteúdo propõe, em síntese, a democratização da arte cênica brasileira e a necessidade de criar uma nova literatura dramática, capaz de buscar seus temas "nos assuntos do povo",2 logo se torna uma espécie de manifesto, norteando as ações de Hermilo Borba Filho à frente dos estudantes. Em sua trajetória, integram o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), além de Hermilo Borba Filho, Ariano Suassuna, Aloísio Magalhães, José de Moraes Pinho, Joel Pontes, Genivaldo Wanderley, Gastão de Holanda, o músico Capiba, e outros.

Na noite de sua estreia como diretor do TEP, em abril de 1946, sobre um palco improvisado na biblioteca da Faculdade de Direito do Recife, Hermilo Borba Filho realiza a leitura de Teatro, Arte do Povo e, em seguida, tem início o espetáculo, composto de duas pequenas peças: O Urso, de Anton Tchekhov, e O Segredo, de Ramon J. Sender.

Desde 1938, Hermilo Borba Filho é amigo de Paschoal Carlos Magno, principal incentivador do empreendimento teatral dos estudantes pernambucanos. Se Paschoal serve a Hermilo como inspiração imediata, por seu exemplo de incansável realizador, Gilberto Freyre, com seu Regionalismo, parece ter exercido uma sutil, mas inequívoca, influência intelectual sobre o grupo, passando-lhe a determinação de equacionar modernidade, tradição e região - coincidentemente, uma proposta compatível com o legado artístico de Federico García Lorca, outra influência para o conjunto comandado por Hermilo Borba Filho.

Estes três nomes, Paschoal Carlos Magno, Gilberto Freyre e García Lorca, estão associados a uma das mais significativas realizações do TEP: o seu Concurso de Dramaturgia, uma das pioneiras ações de estímulo, no moderno teatro brasileiro, ao desenvolvimento de uma literatura dramática de caráter nacional.

Com Uma Mulher Vestida de Sol, tragédia em que se nota clara influência do teatro lorquiano, Ariano Suassuna vence a competição. Estão lançadas as bases daquilo que Paschoal Carlos Magno vai denominar "Teatro do Nordeste": toda uma linhagem de dramaturgos interessados em levar ao palco questões referentes à cultura nordestina, especialmente, abordando temas colhidos da tradição popular da região. Além de Ariano Suassuna, o caminho traçado pelo TEP é percorrido, de imediato, por muitos criadores pernambucanos. Posteriormente, outros dramaturgos da região seguem ecoando, e ampliando, muitas das ideias defendidas por Hermilo Borba Filho e por seus companheiros.

Se o intento de promover novos autores nordestinos não demora a dar sinais de sucesso, a outra proposição central do grupo, a de democratizar o acesso ao bom teatro, revela-se, com o passar dos anos, bem mais difícil de realizar. O primeiro espetáculo dirigido por Hermilo Borba Filho para o TEP é apresentado, com boa recepção, em sanatórios, cinemas de bairro e centros operários. A montagem seguinte, estreada em janeiro de 1947, no palco da Escola Técnica do Recife, é A Sapateira Prodigiosa, de García Lorca. Embora artisticamente mais sofisticada, com cenários e efeitos de luz, essa produção também é levada a escolas, conventos, quartéis e colônias penais. Depois de Lorca, Ibsen - outro autor cultuado pelo grupo. A Casa de Rosmer ganha a cena, no mesmo auditório da Escola Técnica, em maio de 1948. Apesar da temática densa, também percorre, com surpreendente aceitação, os espaços alternativos em que são mostradas as montagens anteriores. Por um lado, a resposta favorável do público não iniciado no teatro estimula os estudantes a seguirem, diletantemente, sem sequer cobrar ingressos, em sua "cruzada" cultural; por outro lado, a ausência de um apoio mais substancioso, quer do governo, quer da iniciativa privada, começa a dificultar a manutenção dos ideais.

Em outubro de 1947, o TEP inicia uma série de "sabatinas", espécie de mesas-redondas, sobre diversos aspectos da arte teatral. Na primeira delas, com a participação do poeta Ascenso Ferreira, são discutidas as "Representações Populares" do Nordeste, isto é, o mamulengo, o bumba meu boi, o pastoril e as demais manifestações dramáticas. Tal interação com a arte dos brincantes se torna, com o passar do tempo, um elemento cada vez mais presente na produção artística de alguns dos membros do TEP. Aspecto especialmente visível na obra de Ariano Suassuna e do próprio Hermilo Borba Filho, sobretudo na primeira metade dos anos 1960, quando os dois lideram o Teatro Popular do Nordeste (TPN).

O TEP inaugura, em setembro de 1948, A Barraca, um palco desmontável, feito de lona, madeira e vigas de ferro, inspirado no teatro ambulante de García Lorca, La Barraca. Construída pelos técnicos da Base Naval do Recife, essa estrutura, pesada demais e de complicada montagem, não serve plenamente ao propósito do grupo, de levar seus espetáculos, com agilidade, a diversos locais, garantindo-lhes um bom padrão de qualidade técnica. Assim, em vez de ser móvel, A Barraca permanece fixa, no centro do Recife, no terreno do Parque 13 de Maio.

Com A Barraca, as dificuldades financeiras do TEP se avolumam. Na tentativa de amenizar as dívidas, o grupo, avesso ao "aburguesamento da arte",3 vê-se impelido a apresentar sua encenação seguinte, Édipo Rei, de Sófocles, no palco do requintado Teatro de Santa Isabel, então sede do TAP, frequentado pelas elites recifenses. Todavia, a despeito da boa acolhida da crítica especializada, a montagem, que estreia em maio de 1949, fracassa na bilheteria, agravando o desequilíbrio na contabilidade do grupo.

Meses antes de estrear a tragédia de Sófocles, Hermilo Borba Filho lança, por sugestão de Paschoal Carlos Magno, o Clube dos Amigos do TEP, sistema em que associados, pagando uma pequena mensalidade, asseguram assentos nas primeiras apresentações de cada novo espetáculo. Chegando a reunir mais de cem sócios, essa estratégia, se não resolve os problemas do grupo, pelo menos possibilita a sua continuidade.

Sem deixar que a pressão orçamentária imponha concessões ao repertório, o TEP decide encenar outra obra de Ibsen: Quando Despertamos de entre os Mortos. A temporada, no palco do modesto Teatro do Dérbi, inicia-se em novembro de 1949. Esse espetáculo marca o retorno de Aloísio Magalhães ao grupo, após um ano de permanência no Rio de Janeiro. Em apenas seis récitas, a peça tem um público ainda menor que o de Édipo Rei.

Em junho de 1950, com O Vento do Mundo, o TEP volta a se apresentar no Teatro de Santa Isabel, dentro da programação festiva pelo centésimo aniversário dessa casa de espetáculos. Escrita em versos brancos, ou seja, versos que apresentam métrica, mas não possuem rima, a peça de Hermilo Borba Filho atualiza o mito grego de Ájax, imprimindo-lhe certa conotação cristã. Dessa vez, o trabalho do TEP divide a crítica local, mas desperta pouco interesse do público, totalizando apenas sete apresentações.

À medida que seus integrantes vão se graduando, passam a se dedicar às suas profissões, isso, somado ao acúmulo de dívidas, ameaça cada vez a existência do TEP. Depois de O Vento do Mundo, o grupo leva quase um ano e meio para apresentar um novo espetáculo, realizado graças a uma subvenção concedida pelo Serviço Nacional de Teatro (SNT). Intuindo que essa montagem "talvez fosse a última de sua carreira", os estudantes optam por uma "coisa grandiosa, capaz de marcar época".4 Em novembro de 1951, estreiam Otelo, de William Shakespeare, mais uma vez no Teatro de Santa Isabel. Com apenas um mês de ensaios, o espetáculo sobe ao palco e agrada tanto aos críticos quanto aos espectadores: "E pela primeira vez uma peça não deu prejuízo ao Teatro do Estudante", admite Hermilo Borba Filho, na Folha da Manhã.5 Apesar do sucesso, essa é a última direção de Hermilo Borba Filho para o TEP. No ano seguinte, ele se muda para São Paulo, só voltando a trabalhar no Recife em 1958.

Antes de encerrar suas atividades, o TEP realiza ainda mais dois espetáculos. O primeiro, em abril de 1952, é voltado para o público infantil. Dirigida por Genivaldo Wanderley, a produção reúne três pequenas peças: A Cabra Cabriola, de Hermilo Borba Filho; Mãe da Lua, de José de Moraes Pinho; e A Caipora, do próprio Genivaldo Wanderley. As duas primeiras, montadas anteriormente pelo Departamento de Bonecos do TEP, são agora interpretadas por atores. Com esse trabalho, o grupo volta a se apresentar em escolas, centros operários e cinemas de bairro, exatamente como no início da carreira. E volta a enfrentar as mesmas adversidades. No segundo semestre, com direção do colombiano Enrique Buenaventura, de passagem pelo Recife, o grupo encerra suas atividades, levando ao palco do Teatro de Santa Isabel mais um texto de Hermilo Borba Filho. A farsa Três Cavalheiros a Rigor apresenta-se apenas cinco vezes, desagradando igualmente à crítica e ao público.

Luiz Maurício Carvalheira, principal estudioso da trajetória do TEP, resume o espírito desse grupo com as seguintes palavras: "Enfim, a crença maior na arte como meio de humanização, de formação do humano no homem, transcendendo o indivíduo para atingir a coletividade - pareceu-nos ser a raiz dessa convivência dos estudantes pernambucanos com o teatro, a descoberta de uma identidade a caminho de um povo e de uma terra".6

Notas
1. OLIVEIRA, Valdemar. Apud CARVALHEIRA, Luiz Maurício. Por um teatro do povo e da terra: Hermilo Borba Filho e o Teatro do Estudante de Pernambuco. Prefácio  Maximiniano Campos. Recife: Fundarpe, 1986, p. 102.

2. BORBA FILHO, Hermilo. Teatro, arte do povo. In: Diálogo do encenador - teatro do povo, Mise-en-scène e A donzela Joana. Prefácio Luís Augusto Reis. Recife: Edições Bagaço: Editora Massangana, 2005 [1964]. p. 23, 36.

3. _________. Diálogo do encenador - teatro do povo, Mise-en-scène e A donzela Joana. Prefácio Luís Augusto Reis. Recife: Edições Bagaço: Editora Massangana, 2005 [1964]. p. 33.

4. Idem. p. 215.

5. BORBA FILHO, Hermilo. Vida e morte do teatro do estudante v. Folha da Manhã, Recife, 19 fev. 1953.

6. CARVALHEIRA, Luiz Maurício. Por um teatro do povo e da terra: Hermilo Borba Filho e o Teatro do Estudante de Pernambuco. Prefácio Maximiniano Campos. Recife: Fundarpe, 1986. p. 233.

Outras informações do grupo Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP):

  • Outros nomes
    • TEP

Espetáculos (13)

Fontes de pesquisa (6)

  • BACCARELLI, Milton. O teatro em Pernambuco: trocando a máscara. Prefácio de José Mário Austregésilo. Recife: Fundarpe, 1994. 184 p.
  • BORBA FILHO, Hermilo. In Depoimentos V. Rio de Janeiro: MEC - SEC - (SNT), 1981.
  • CARVALHEIRA, Luiz Maurício. Por um teatro do povo e da terra: Hermilo Borba Filho e o Teatro do Estudante de Pernambuco. Prefácio de Maximiniano Campos. Recife: Fundarpe, 1986. 212 p.
  • PONTES, Joel. O teatro moderno em Pernambuco. São Paulo: DESA / São Paulo Editora S. A., 1966. 157 p.
  • REIS, Luís Augusto. Fora de cena, no palco da modernidade: um estudo do pensamento teatral de Hermilo Borba Filho. 457 f. Tese (Doutorado em Letras/Teoria da Literatura) Departamento de Pós-Graduação em Letras, Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2008.
  • TEIXEIRA, Flávio Weinstein. O Movimento e a linha: presença do Teatro do Estudante e d'O Gráfico Amador no Recife (1946-1964). Recife: Editora Universitária da UFPE, 2007. 334 p.

Como citar?

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  • TEATRO do Estudante de Pernambuco (TEP). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo404785/teatro-do-estudante-de-pernambuco-tep>. Acesso em: 14 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7