Artigo da seção grupos Mergulho no Trágico

Mergulho no Trágico

Artigo da seção grupos
Teatro  

Data/Local
1987/1995 - Rio de Janeiro RJ

Histórico
Entre 1987 e 1992, o grupo realiza seis montagens de tragédias gregas, Édipo Rei, Oréstia, Prometheus, com direção de José Da Costa; Medéia e Ifigênia, dirigidas por André Paes Leme e Antígone, direção de Alexandre Mello.

O espetáculo de estreia é Édipo Rei, de Sófocles, 1987. O grupo se prepara para as montagens por meio de pesquisa teórica, com a produção de debates, palestras e leituras públicas. Valoriza-se o coro, tanto na atuação sonora quanto plástica. A iniciativa é bem acolhida pela crítica, apesar de algumas restrições sobre a interpretação. Macksen Luiz escreve a respeito de Édipo Rei, de Sófocles, 1987: "O peso das palavras e a intensidade da ação se mantêm num plano de dignidade teatral, permitindo assim que aqueles que não conhecem o texto sejam introduzidos às suas qualidades. Da Costa demonstra cuidado no trato do material disponível, procurando oferecer a cada ator uma oportunidade de rediscutir o conceito do trágico à luz da contemporaneidade".1

Em 1989, o grupo realiza a primeira montagem brasileira da Oréstia, trilogia de Ésquilo, que foi condensada de modo a ser representada em uma hora e quarenta minutos. Percebendo a dificuldade de encontrar penetração em um mercado nada afeito ao gênero, os integrantes iniciam uma campanha junto às escolas e universidades. Seguem-se a leitura dramatizada de Édipo Rei e Édipo em Colono, de Sófocles, 1990, com a participação do ator Othon Bastos; Prometheus, criação livre do diretor e ator Alexandre Mello com base no texto homônimo de Ésquilo, 1990; As Troianas, de Eurípides, 1992. Esse último espetáculo é apontado pela crítica como de linguagem indefinida e asséptica, com ressalva para o trabalho da atriz convidada, Suzana Faini, no papel de Hécuba. No entanto, o mérito de levar ao teatro o público jovem é ressaltado. Barbara Heliodora escreve: "É provável que o grupo Mergulho no Trágico esteja apresentando um público novo ao teatro grego, mesmo que de forma modesta. Mesmo que fiquem ainda bem longe de Eurípides, já prestam com isso um serviço ao teatro".2

Em 1991, Da Costa e o grupo Mergulho no Trágico recebe o Prêmio Shell, na categoria especial, pela continuidade da pesquisa do grupo em torno da tragédia grega.  Em 1991, Da Costa e o grupo Mergulho no Trágico recebe o Prêmio Shell, na categoria especial, pela continuidade da pesquisa do grupo em torno da tragédia grega. Em 1994, são convidados a participar do Festival de Teatro Grego do Sesc de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, para o qual montam Antígone, dirigido por Alexandre Mello, com Nanci de Freitas no papel título e realizam debate com Junito Brandão. Em seguida, apresentam essa peça no Teatro Dulcina, Rio de Janeiro. Alcassino e Nicoleta, encenado no mesmo ano, com direção de André Paes Leme, se torna um dos espetáculos exemplares da tendência que, na década de 1990, se utiliza de obras não dramáticas para criar uma nova teatralidade.

Mantendo, ao longo de seu repertório, a coerência de sua proposta, o grupo Mergulho no Trágico caminha na contramão da estética que, nos anos 1980, tende a valorizar a espetacularidade em detrimento da palavra.

Numa avaliação panorâmica do teatro carioca nos anos 1980, a pesquisadora e dramaturga Claudia Braga comenta: "A insatisfação com relação ao teatro de seu tempo, ao esvaziamento artístico e intelectual de sua geração levou, por exemplo, o jovem diretor José Da Costa Filho a uma volta radical às origens. Através da leitura de Artaud e do estudo aprofundado da história do teatro, Da Costa vislumbrou, na tragédia grega clássica o precioso auxílio de que sentia necessidade para compreender e traduzir o mundo moderno. Desde 1987 à frente do grupo Mergulho no Trágico, [...] o diretor encontrou nos mitos da tragédia ática, na consciência trágica do herói grego, o caminho para empreender a árdua tentativa de entender o esvaziamento ético do homem contemporâneo e suas contradições".3

Notas
1. LUIZ, Macksen. Édipo Rei: mergulho no trágico. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 abr. 1988.

2. HELIODORA, Barbara. Uma montagem sem estilo. O Globo, Rio de Janeiro, 25 abr. 1992.

3. BRAGA, Cláudia. O teatro carioca atual: a liberdade da encenação. Revista USP, São Paulo, n. 14, jun./ago., 1992.

Espetáculos (12)

Fontes de pesquisa (5)

  • ALBUQUERQUE, Johana. Da Costa (ficha curricular) In: _________. ENCICLOPÉDIA do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Material elaborado em projeto de pesquisa para a Fundação VITAE. São Paulo, 2000.
  • BRAGA, Cláudia. O teatro carioca atual: a liberdade da encenação. Revista USP, São Paulo, n. 14, jun./ago. 1992.
  • LOYOLA, C. Da intenção ao gesto. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 6 abr. 1988.
  • LUIZ, Macksen. Édipo Rei: mergulho no trágico. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 abr. 1988.
  • MERGULHO no Trágico. Rio de Janeiro: Funarte / Cedoc. Dossiê Grupo Teatro Adulto.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • MERGULHO no Trágico. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo399361/mergulho-no-tragico>. Acesso em: 17 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7