Artigo da seção grupos Ponkã

Ponkã

Artigo da seção grupos
Teatro  

Histórico

Renovando as relações entre as culturas oriental e ocidental, o grupo destaca-se com um trabalho que alia modernos procedimentos performáticos com a expressividade milenar da cultura japonesa.

Em fins de 1982, um conjunto de atores realiza, em criação coletiva, algumas apresentações experimentais batizadas como Tempestade em Copo d'Água, sob a coordenação de Luiz Roberto Galizia. O espetáculo é uma espécie de declaração de princípios de um grupo que experimenta na carne a esquizofrenia e a dificuldade de harmonizar conceitos ocidentais e orientais de ética, filosofia e comportamento. O Grupo de Arte Ponkã nasce com o lançamento do Manifesto Ponkã, escrito por Ubiratã Tokugawa (Paulo Yutaka), em 1983. Da fundação participam Paulo Yutaka, Celso Saiki, Carlos Barreto, Ana Lúcia Cavalieri, Milton Tanaka, Hector Gonzales, Graciella de Leonnardis e Luiz Roberto Galizia.

A linha de pesquisa do elenco caracteriza-se pela intercessão entre as realidades do Oriente e do Ocidente, na qual convivem propostas puramente formais e abstratas, mescladas com aquelas que empregam estruturas narrativas e fabulares. Diferentemente do tom sisudo do experimentalismo então em voga, o grupo assume um humor crítico, almejando uma fusão dos padrões tradicionais. Ao contrário da fragmentação, as cenas são criadas dentro dos fundamentos estruturais da tradição teatral. Parte-se do princípio que o novo é sempre uma recriação do mais ancestral; com ênfase na influência japonesa como elemento evidente da cena, mas sem o caminho superficial da japonerie. Razão pela qual a "ponkã", a fruta resultante do cruzamento da mexerica com a laranja, tipicamente brasileira e produto do trabalho dos imigrantes japoneses, é escolhida como símbolo do grupo.

Em 1984 surge a segunda realização, a montagem de Aponkãlipse, inspirado no Apocalipse de João e no oráculo milenar chinês I-Ching, onde as sete primeiras cenas mostram as evidências do fim dos tempos na atualidade e as últimas sete criam uma saída poética para um novo homem. No final desse ano o grupo lança O Próximo Capítulo, realizações performáticas diárias que incluem um convidado a cada noite, onde a personagem Urbano funciona como elo de ligação. Entre outros, participam dessas performances José Celso Martinez Corrêa, J. C. Violla, Cláudia Alencar, Tato Fischer, Carlos Moreno, Pituco, Celina Fujii, Seme Lufti, Carlos Takeshi, Felícia Ogawa. A cada dia aborda-se um núcleo de narrativa, comandado por um dos integrantes, que são: Era uma vez..., de Celso Saiki; Kodomo no Koto, de Milton Tanaka; Relações Afetivas, de Ana Lúcia Cavalieri; Poeta Romântico, de Carlos Barreto, e Rock Performático, de Hector e Graciella.

A Primeira Noite, baseada numa lenda indígena, é uma performance realizada no Teatro Eugênio Kusnet, no mesmo período; enquanto Ballet da Informática, realizada no Masp, em 1985, coloca o tema do homem diante das máquinas e suas possibilidades de futuro.

Em 1986 o grupo cria seu mais acabado e realizado espetáculo: Pássaro do Poente, um texto de Carlos Alberto Soffredini, extraído de uma lenda japonesa: uma garça aprisionada numa armadilha é salva por um lavrador e, tornando-se humana, casa-se com ele, trazendo-lhe riqueza e felicidade. A direção de Marcio Aurelio é reputada como um dos grandes momentos da encenação nos anos 80, garantindo prêmios à equipe e muitas viagens, inclusive para Portugal. No elenco destacam-se Paulo Yutaka, Seme Lutfi, Celso Saiki, Carlos Takeshi, Carlos Barreto, Alice K., Paulo de Moraes, Celina Fujii, Paulo Garcia, Marcos Marcel e Fernando Gonçalves. A cenografia e direção de arte de Takashi Fukushima resultam em grande impacto.

Em 1991 o grupo volta em nova criação: Quioguem - Loucas Palavras, a partir de sete peças curtas do teatro de bonecos tradicional do Japão, datadas do século XIV e adaptadas à realidade brasileira. Sob a direção de Isa Kopelman, atuam Alice K.; Celina Fujii, Ceres Vitori, Gésio Amadeu e Paulo de Moraes, última realização do Ponkã.

Analisando o trabalho do grupo, o crítico Alberto Guzik salienta: "Composto por filhos e netos de imigrantes orientais e ocidentais, o Ponkã buscou articular uma síntese teatral que expressasse tal condição. (...) A ênfase na arte do ator, o uso do número mais reduzido possível de apetrechos cênicos, a tentativa quase gráfica de composições pelo espaço são patentes em O Próximo Capítulo, proeza que o Ponkã pôs em cena no Teatro Eugênio Kusnet. (...) O grupo, um dos responsáveis pelo depuramento, pelo novo rigor com que passou a considerar o trabalho experimental em São Paulo de uns poucos anos para cá, acrescenta ao seu repertório uma peça importante, fertilizada por muitas tendências, extremamente coerente com seus propósitos iniciais. Com fragmentos compõe um painel corrosivo e bem-humorado do mundo contemporâneo".1

Notas

1. GUZIK, Alberto. A novela do Ponkã, lúcida e atenta. Jornal da Tarde, São Paulo, p. 21, 8 nov. 1984.

Outras informações do grupo Ponkã:

  • Outros nomes
    • Grupo de Arte Ponkã
    • Grupo Ponkã
    • Grupo Poucan

Espetáculos (9)

Fontes de pesquisa (4)

  • APONKÃLIPSE. Direção Luiz Roberto Galizia. São Paulo, 1984. 1 folder. Programa do espetáculo.
  • CRONOLOGIA das artes em São Paulo 1975-1995: artes cênicas - teatro. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. v. 3.
  • LUIZ, Macksen. Como um sonho. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, p. 28, 22 jan. 1988.
  • PÁSSARO POENTE. Direção Marcio Aurelio. São Paulo, 1986. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro Galpão em março de 1986.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PONKÃ . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo399348/ponka>. Acesso em: 24 de Abr. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7