Artigo da seção grupos Teatro Cacilda Becker

Teatro Cacilda Becker

Artigo da seção grupos
Teatro  

Data/Local
1958/1960 - Rio de Janeiro RJ

1960/1973 - São Paulo SP

Histórico
O Teatro Cacilda Becker se forma de uma dissidência de profissionais oriundos do Teatro Brasileiro de Comédia. Sempre em busca da liberdade artística, Cacilda Becker e Walmor Chagas realizam, em nove anos de companhia, espetáculos memoráveis como Jornada de um Longo Dia para Dentro da Noite, Esperando Godot e Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?

Ao sair do Teatro Brasileiro de Comédia - TBC, Cacilda Becker leva consigo seu mestre, o diretor Ziembinski, seu marido, o ator Walmor Chagas, sua irmã, Cleyde Yáconis, e o parceiro de cena de nove anos, Fredi Kleemann. Antes mesmo de estrear, a companhia se vê diante de duas novas situações: o estrangulamento econômico, que não permite produções tão confortáveis como nos tempos áureos do TBC, e o crescente interesse pelas questões brasileiras que, no teatro, é liderado pela linha do Teatro de Arena. O primeiro projeto da companhia é a encenação de Jornada de um Longo Dia para Dentro da Noite, texto de Eugene O'Neill, ainda inédito no Brasil. Entretanto, por motivos políticos que envolvem a disputa por subvenções, o TCB estréia com um texto nacional.

O TCB, fundado em dezembro de 1957, estréia O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna, em março, e Jornada de um Longo Dia para Dentro da Noite em maio de 1958. Os dois espetáculos são ensaiados simultaneamente. No segundo semestre, o TCB monta um espetáculo com duas peças - O Protocolo, de Machado de Assis, e Pega Fogo, de Jules Renard, remontagem bem-sucedida do período tebecista. Nesta última, Cacilda Becker tem, no papel do garoto protagonista, a sua consagração como atriz. O espetáculo, apresentado em várias cidades do Brasil e também nos países por onde o grupo faz turnê, torna-se um clássico.

Por não possuir um teatro próprio, o TCB se vê obrigado a estar em constante viagem, aproveitando as datas em que os teatros de outras cidades estão livres para recebê-lo. Assim, com esse repertório formado no primeiro ano de vida, o TCB viaja para o sul do país, onde estréia Maria Stuart, de Schiller, ainda em 1958, e, de lá, segue para Montevidéu. No ano seguinte, permanece em São Paulo, onde apresenta Os Perigos da Pureza, de Hugh Mills, e Santa Marta Fabril S. A., de Abílio Pereira de Almeida. No final de 1959, o TCB passa três meses em Portugal e em seguida faz temporada em Paris.

Todos os espetáculos de 1958 têm direção de Ziembinski, que depois se separa da companhia. O seu afastamento tem razões artísticas: o diretor se mostra menos disponível que os atores a fazer concessões de repertório para um público pouco receptivo às obras de maior vulto. No programa de Os Perigos da Pureza, Cacilda Becker aborda o problema, em um franco desabafo ao espectador. Em 1959, Benedito Corsi e Cacilda Becker dirigem respectivamente A Dama das Camélias e Auto da Compadecida (Auto Sacramental Nordestino), e Ziembinski encena Os Perigos da Pureza Santa Marta Fabril S. A. Nos anos seguintes, Walmor Chagas, que além de ator se ocupa também da produção e da administração da companhia, se reveza com diretores convidados: Antônio Abujamra, Jean-Luc Descaves, Maurice Vaneau, Hermilo Borba Filho, Gianni Ratto.

"O número de companhias cresceu, a concorrência se tornou fato concreto, mas o público não acompanhou esse crescimento. É ainda reduzido como era em 1940. Para fazer o teatro que gostaríamos de fazer temos sempre que nos dirigir a uma elite, e, no caso, pequena, para o tanto que pretendemos e sonhamos. (...) Tudo temos feito para conquistar esse público, desde a concessão banal e condenável, que faz de nossos repertórios "ecléticos" um pandemônio, até os mais variados truques... Quando temos a ousadia de apresentar uma Jornada, tentamos em seguida "caçar" mais público numa comédia "deliciosa", para depois ter novamente o ensejo de "sapecar-lhe" um outro drama de fôlego. Fizemos de tudo e, por isso, às vezes estonteamos o público ao mesmo tempo que nos estonteamos. E quando vem ao teatro, esse público vem atraído por tudo menos pelo próprio teatro!" 1

Com esse texto, Cacilda Becker inaugura um procedimento que se tornará marca de sua companhia: o diálogo aberto com o público, expondo as dificuldades por que passa o grupo. Em 1960, o TCB se fixa em São Paulo, e Cacilda Becker se torna a primeira-dama do teatro paulista. Depois do fracasso da comédia brasileira, Virtude e Circunstância, de Clô Prado, Cacilda e Walmor decidem correr um grande risco. Criam o Teatro Experimental Cacilda Becker e montam um texto poético de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, ainda inédito nos palcos do Sudeste (subira à cena em uma única versão, por um grupo do Pará). O fracasso artístico e financeiro da iniciativa chega a colocar em risco a subvenção que o governo oferecia às companhias.

Instalado no Teatro Federação, o TCB estréia, ainda em 1960, um de seus maiores sucessos, Em Moeda Corrente do País, de Abílio Pereira de Almeida. Ao completar três anos, em 1961, a companhia tem na bagagem 800 apresentações em 30 cidades. A companhia se recupera do mau resultado artístico e financeiro de Raízes, de Arnold Wesker, com o caixa de Oscar, de Magnier, que revela o comediante Jô Soares em uma peça pouco ambiciosa. Em 1962, Cacilda e Walmor, tendo ao seu lado Sergio Cardoso, conquistam o público com um texto menor, A Terceira Pessoa do Singular, de Andrew Rosenthal. O trabalho dos atores e em especial a interpretação de Cacilda Becker garantem o relativo êxito de A Visita da Velha Senhora, de Dürrenmatt. Em 1963, Ziembinski retorna ao TCB para uma empreitada mal-sucedida: César e Cleópatra, de Bernard Shaw não é bem recebida pelo público e pela crítica. Seguem-se O Santo Milagroso, de Lauro César Muniz, direção de Walmor Chagas; Onde Canta o Sabiá, de Gastão Tojeiro, dirigido por Hermilo Borba Filho, ambos ainda em 1963 e, no ano seguinte, A Noite do Iguana, de Tennessee Williams, mais uma direção de Walmor Chagas, e O Preço de um Homem, de Steve Passeur, direção de Maurice Vaneau.

O sucesso artístico retorna apenas em 1965, com Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de Edward Albee, em que Cacilda e Walmor assumem a crueldade do diálogo e a violência do texto com absoluta sinceridade, causando impacto na platéia. A dupla inaugura, no teatro particular de 60 lugares de sua residência, o Centro de Estudos Teatrais, com o objetivo de divulgar novos autores por meio da leitura de suas obras. O autor de maior destaque nessas leituras, Bráulio Pedroso, escreve mais tarde Isso Devia Ser Proibido, em que Cacilda e Walmor, sozinhos em cena, misturam vida e ficção interpretando um ator e uma atriz. Em 1969, Cacilda Becker falece durante a temporada do espetáculo Esperando Godot, de Samuel Beckett, com direção de Flávio Rangel, um dos papéis de maior ousadia e brilho da atriz. Walmor Chagas prossegue com o trabalho da companhia por mais quatro anos.

A luta para manter a estabilidade da equipe, característica de todos os conjuntos profissionais da época, parece tornar-se especialmente desgastante no TCB, cada vez que os artistas se vêem obrigados a fazer concessões de repertório. Ainda assim, a companhia é talvez a que mais se dispõe ao risco com autores como João Cabral de Melo Neto, Eugène Ionesco, Dürrenmatt e Samuel Beckett.

Notas

1. BECKER, Cacilda. Programa do espetáculo 'Os Perigos da Pureza'. Citado por ALMEIDA, Maria Inez Barros de. Panorama visto do Rio: Teatro Cacilda Becker. Rio de Janeiro: Inacen, 1987. p. 51-52.

Outras informações do grupo Teatro Cacilda Becker:

  • Outros nomes
    • TCB
    • Teatro Cacilda Becker (Rio de Janeiro, RJ)

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Fontes de pesquisa (4)

  • ALBUQUERQUE, Johana. Teatro Cacilda Becker (ficha curricular). In: __________. ENCICLOPÉDIA do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Material elaborado em projeto de pesquisa para Fundação VITAE. São Paulo, 2000.
  • ALMEIDA, Maria Inez Barros de. Panorama visto do Rio: Teatro Cacilda Becker. Rio de Janeiro: Inacen, 1987. 174 p.
  • BRANDÃO, Tania. As modernas companhias de atores. In: O TEATRO através da história. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1994. v. 2.
  • TEATRO Cacilda Becker. Rio de Janeiro: Funarte / Cedoc. Dossiê Grupos Artes Cênicas.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TEATRO Cacilda Becker. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo399343/teatro-cacilda-becker>. Acesso em: 16 de Jan. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7