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Teatro Experimental do Negro (TEN)

  • Análise
  • Histórico
    O Teatro Experimental do Negro (TEN) é fundado em 13 de outubro de 1944, no Rio de Janeiro, por iniciativa do economista e ator Abdias do Nascimento (1914-2011), com o apoio de amigos e intelectuais brasileiros. A proposta de ação da companhia é reabilitar e valorizar socialmente a herança cultural, a identidade e a dignidade do afro-brasileiro por meio da educação, da cultura e da arte. 

    Em dezembro de 1944, o grupo faz uma participação especial em uma cena da peça Palmares, da poetisa Stella Leonardos (1923), representada pelo Teatro do Estudante do Brasil (TEB). Por intermédio do escritor Aníbal Machado (1894-1964), o TEN consegue o empréstimo dos salões e do restaurante da sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), e o espaço é utilizado no período noturno, após o término das atividades da entidade estudantil, para a realização de ensaios e atividades culturais.

    O TEN elabora um trabalho alternativo de educação direcionado à população negra e oferece programas de alfabetização e iniciação cultural. A criação de um curso de alfabetização surge pela dificuldade dos atores em memorizar e decorar o texto, e as aulas de iniciação cultural utilizam as peças teatrais como principal material pedagógico.

    Com essas atividades, o TEN valoriza a construção de uma identidade negra e viabiliza a formação de elenco próprio. Em plena década de 1940, tal fato implica uma mudança no mercado de trabalho e na expectativa do público, habituado a ver atores brancos que se pintam para poder representar personagens negros.

    Para a estreia do TEN, Nascimento não encontra, na dramaturgia brasileira, um texto adequado ao objetivo do grupo, que é mostrar os “heróis negros” da “epopeia afro-brasileira”. O repertório nacional possui apenas alguns “poucos dramas superados, nos quais o negro faz o cômico, o pitoresco, ou a figuração decorativa”.1 A alternativa mais indicada para o momento é O Imperador Jones, do dramaturgo norte-americano Eugene O'Neill (1888-1953). A peça, dirigida por Nascimento, estreia em 1945, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Na abertura do espetáculo, o Recitativo Coral do TEN apresenta uma seleção de poesias afro-americanas. Apesar da descrença do meio intelectual em relação à ousadia do grupo amador de intérpretes, quase todos desconhecidos, de montar um autor da força de O’Neill, a encenação obtém boa receptividade e elogios da crítica ao protagonista Aguinaldo Camargo (ca.1918-1952).

    Nos anos 1940, o TEN, assim como Os Comediantes, se destacam das companhias profissionais por apresentar uma perspectiva inovadora. Ambos optam por uma dramaturgia que coloca desafios à representação, enquanto os artistas profissionais dão pouca importância ao texto teatral e ignoram as técnicas modernas de encenação. Em 1946, o sucesso de estreia leva o TEN à escolha de outra peça de O’Neill, intitulada Todos os Filhos de Deus Têm Asas, com a direção de Camargo. O crítico Gustavo Doria (1910-1979) comenta a modernidade da companhia no tocante à escolha do repertório e ao cuidado na mise-en-scène e observa que, além do interesse em representar, a direção do grupo tem um programa de trabalho de longo prazo.2 

    Em colaboração com Os Comediantes, o TEN encena, em 1947, Terras do sem Fim, do escritor Jorge Amado (1912-2001), adaptação do ator Graça Mello (1914-1979), direção do polonês Zygmunt Turkow (1896-1970) e cenários de Santa Rosa (1909-1956), considerado o primeiro cenógrafo moderno brasileiro. o TEN procura estimular a criação de textos que sirvam aos seus propósitos. A primeira resposta à demanda dramatúrgica da companhia é O Filho Pródigo, do escritor Lucio Cardoso (1913-1968), reinterpretação da parábola bíblica e o primeiro original brasileiro do repertório, encenado em 1947.

    Aruanda, de Joaquim Ribeiro (1907-1964), estreia em 1948. O texto, escrito especialmente para a companhia, versa sobre a religiosidade afro-brasileira e possui uma ação simples que estrutura os conflitos abordados na peça: uma lenda de amor entre Rosa Mulata e a entidade Gangazuma, encarnada em Quelé, seu marido. Em 1949, é a vez de Filhos de Santo, de José de Moraes Pinho, que trata de várias questões diretamente ligadas à temática do grupo como o preconceito racial, a desigualdade social e a religiosidade de matriz africana. 

    Com base nas dissidências do TEN, surgem algumas companhias de teatro e dança criadas por ex-participantes: o Grupo dos Novos, em 1949, liderado por Haroldo Costa, mais tarde transformado no Teatro Folclórico Brasileiro e, em seguida, no Balé Brasiliana; o Teatro Popular Brasileiro, fundado em 1950, pelo ator Solano Trindade (1908-1974) e o Balé Folclórico Mercedes Baptista, criado em 1953, pela coreógrafa Mercedes Baptista (1921-2014).

    Paralelamente à atividade teatral, o TEN propõe a reflexão e o debate em torno de temas ligados à cultura afro-brasileira e promove uma série de encontros, como a 1ª Reunião da Convenção Nacional do Negro, em 1945, e o 1º Congresso do Negro Brasileiro, em 1950. Funda o Instituto Nacional do Negro, em 1949, departamento de estudos e pesquisas do TEN e publica, entre 1948 e 1950, dez números do jornal Quilombo, com notícias sobre as atividades do TEN e de outras entidades do movimento negro. 

    Nascimento escreve Sortilégio para o TEN, encenada por Léo Jusi (1930) no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1957. De acordo com o crítico Edélcio Mostaço (1949), o texto revela influências de O´Neill, Nelson Rodrigues (1912-1980) e Shakespeare (1564-1616), sendo uma “obra dramaturgicamente amadurecida, não desmerecendo os modelos nos quais deliberadamente se apoia”.  A peça sintetiza o longo percurso do grupo na procura de uma dramaturgia intrinsecamente negra.4  É criado, em 1964, o Curso de Introdução ao Teatro Negro e às Artes Negras.

    Em 1966, já no período da ditadura militar, o TEN é impedido pelo Ministério das Relações Exteriores de se apresentar no 1º Festival de Arte Negra no Senegal com a peça Além do Rio – uma adaptação de Medeia, de Eurípides (484- 406 a.C.), feita por Agostinho Olavo. O espetáculo é considerado pelas autoridades como não representativo da cultura brasileira. 

    Com a repressão política, as estratégias de ação do TEN tornam-se restritas. Nascimento fica à frente do Teatro Experimental do Negro até 1968, mas, em decorrência do endurecimento do regime militar e da inclusão do seu nome em vários inquéritos policiais militares, acaba por exilar-se nos Estados Unidos.

    O antropólogo Julio Cesar Tavares classifica o TEN como “teatro de intervenção”: “[...] seu signo mais relevante foi de ordem pedagógico-política. Sua função se afirmou, num país de analfabetos, como a de um veículo conscientizador e gerador de novas saídas para o negro, dentro da clausura gerada por um processo de permanente exclusão”.5 O TEN contribui para a formação de uma importante geração de atores negros para teatro, cinema e televisão, da qual fazem parte Ruth de Souza (1930), Haroldo Costa, Léa Garcia (1933) e José Maria Monteiro (1923-2010)

    Para Abdias do Nascimento: “O Teatro Experimental do Negro é um processo. A negritude é um processo. Projetou-se a aventura teatral afro-brasileira na forma de uma antecipação, uma queima de etapas na marcha da história. Enquanto o negro não desperta completamente do torpor em que o envolveram. Na aurora do seu destino, o Teatro Negro do Brasil ainda não disse tudo ao que veio”.6
     
    Notas
    1 NASCIMENTO, Abdias do. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões. Estudos Avançados. São Paulo, USP, vol.18, n.50, jan.-br. 2004. pp. 209-224. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100019 >. Acesso em: 25 set. 2010.
    2 DÓRIA, Gustavo. Teatro Experimental do Negro. O Globo, Rio de Janeiro, 18 jul. 1946.
    3 PEREIRA, Victor Hugo Adler. O TEN e a modernidade. Dionysos. Especial: Teatro Experimental do Negro, Rio de Janeiro, MinC/Fundacen, n. 28, p.73, 1988.
    4 MOSTAÇO, Edélcio. O legado de Set. Dionysos. Especial: Teatro Experimental do Negro. Rio de Janeiro, MinC/Fundacen, n. 28, p.61, 1988.
    5 TAVARES, Júlio César. Teatro Experimental do Negro: contexto, estrutura e ação. Dionysos. Especial: Teatro Experimental do Negro. Rio de Janeiro, MinC/Fundacen, n.28, p.81, 1988.
    6 NASCIMENTO, Abdias. O teatro negro no Brasil: uma experiência sócio-racial. Revista da Civilização Brasileira, 1968. Caderno Especial 2.

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Fontes de Pesquisa

CEVA, Antonia Lana de Alencastre. O negro em cena: a proposta pedagógica do Teatro Experimental do Negro (1944-1968). 2006. 122 fl. Dissertação (Mestrado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.

MENDES, Miriam Garcia. O negro e o teatro brasileiro (1889 e 1892). São Paulo: Hucitec, 1993. 207 p.

MÜLLER, Ricardo Gaspar (Org.). Teatro experimental do negro. Dionysos, Rio de Janeiro, n. 28, 1988. Edição especial.

NASCIMENTO, Abdias do (org.). Teatro Experimental do Negro: testemunhos. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1966.

NASCIMENTO, Abdias do. Teatro Experimental do Negro: trajetória e reflexões. Estudos avançados, São Paulo, v. 18, n. 50, jan-abr 2004. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100019 >. Acesso em: 25 set. 2010.

NASCIMENTO, Abdias do. Teatro negro no Brasil: uma experiência sócio-racial. Revista Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, n. 2, 1968. Caderno Especial.

ROSA, Daniela Roberta Antonio. Teatro Experimental do Negro: estratégia e ação. 2007. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2007.

SEMOG, Éle; NASCIMENTO, Abdias. Abdias Nascimento: o griot e as muralhas. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.