Artigo da seção grupos Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz: 1978 Local de crição: (Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre)

Histórico
Companhia que realiza um teatro de pesquisa dramatúrgica, musical e plástica. Centra seu estudo na relação ator-espectador e no processo de criação coletiva, com espetáculos de sala e de rua. Define o ator como atuador, fusão de artista com ativista político, cuja atuação não deve ficar restrita ao palco e sim comprometida com a realidade. Na pesquisa cênica, o grupo experimenta recursos teatrais com base no trabalho autoral do ator e na cena ritualística, com influência de Antonin Artaud, Fernando Arrabal, Jerzy Grotowski e Bertolt Brecht.

O núcleo básico surge com Paulo Flores, Júlio Zanotta, Rafael Baião, Jussemar Weiss e Silvia Veluza, entre outros. Inaugura o primeiro espaço cênico em março de 1978, com dois textos de Zanotta reunidos num único espetáculo: A Divina Proporção, sobre a violência da especulação imobiliária, e A Felicidade Não Esperneia, Patati, Patatá, que trata da desumanização da medicina. Denúncia de instituições e da sociedade burguesa, o espetáculo tem uma linguagem teatral definida pelo crítico Cláudio Heemann como "crua, violenta, livre, grotesca, que vai do grand-guignol ao protesto, do surrealismo à contestação, os atores se atiram aos seus papéis (...) com grunhidos, contorções, epilepsias e um rude humor absurdo, numa pesada celebração de anarquia".1

Por causa da contundência da encenação, o Serviço de Fiscalização de Diversões Públicas da Secretaria de Segurança fecha o teatro em maio de 1978. Depois de protestos e negociações, o local é reaberto em agosto do mesmo ano.
No espetáculo seguinte, A Bicicleta do Condenado, de Fernando Arrabal, o público é colocado dentro da ação, sem distinção entre palco e plateia. A relação de opressão sugerida pelo texto ganha reforço no coro de personagens mudos e cegos, com figuras vendadas e amordaçadas. O crítico Aldo Obino afirma que a encenação tem "o signo do teatro do pânico, do desbragamento e animalização do homem (...) com os artistas atuando até nas arquitraves, vindo e subindo por cordas, com um elenco de uma dúzia de personagens sofridas com gaiola e preso, piano sem música, urinol, cusparadas, seminudismo, fornicações e orgasmos simbólicos (...). É outro espetáculo de envolvimento e para sacudir com o público".2

Em 1979, encena Ensaio Selvagem, de José Vicente, sobre uma estrela da Atlântida, metáfora do Brasil, que resiste à tentativa de empresários em transformá-la numa superstar a serviço do imperialismo. Na criação coletiva O Sentido do Corpo, que integra dança, cinema e artes plásticas, o elenco atua nu e propõe a utilização do corpo como um meio efetivo de comunicação e símbolo de liberdade. Com base no texto Havia uma Vez um Rei, do grupo chileno Aleph, monta O Rei Já Era, Parará, Tim Bum. A peça mostra três mendigos que se revezam numa brincadeira na qual, a cada semana, um será o rei. Em outro foco, um casal de noivos tenta contato através do corpo. A ação se passa num jardim construído com muitas camadas de terra e um chafariz que jorra água durante todo o espetáculo. A plateia deve decidir entre acomodar-se em bancos distantes, com pouca visibilidade, ou entrar e pisar no lodo.

No mesmo ano, com o objetivo de provocar o debate sobre o fazer teatral, integrantes do Ói Nóis Aqui fazem intervenções ao vivo, sem prévio aviso, em peças de outros grupos, como em Liberdade, Liberdade, dirigida por Carlos Carvalho, e Frankie, Frankie, Frankenstein, de Irene Brietzke, produção do Teatro Vivo. A proposta estético-política do grupo segue com a criação coletiva Ananke, a Luta pela Vida, que, no final, convoca o público a agir efetivamente na libertação da personagem-título.

De 1980 a 1982, em outro endereço, o grupo mantém a Casa para Aventuras Criativas, destinada à pesquisa do trabalho do ator, com laboratórios e oficinas. No local, são preparadas intervenções cênicas de rua nos movimentos populares e sindicais. A preocupação com a manutenção de um espaço para experimentação da linguagem cênica resulta, em 1984, na abertura da Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz num galpão de dois pisos e pátio de cerca de 500 metros quadrados, na Cidade Baixa, bairro boêmio e de tradição artística. Estreia com A Visita do Presidenciável, de Luís Francisco Rebello, parábola política sobre o momento civil de reivindicação por eleições presidenciais diretas no Brasil.

Teon é o primeiro espetáculo levado para as ruas pelo Ói Nóis, em 1985. A peça, cujo título significa morte em tupi-guarani, aborda o extermínio dos índios pelos brancos num ritual de dança, canto e pantomima. 

Nas dependências da Terreira, é apresentado o cerimonial místico-erótico As Domésticas, primeira peça da Trilogia da Condição Humana. Adaptação do texto Les Bonnes, de Jean Genet, a montagem inspira o pintor Iberê Camargo a realizar algumas telas sobre os seus personagens. Em 1986, o espaço transforma-se numa grande lata de lixo e abrigo antinuclear, cenário para a temporada de Fim de Partida, texto de Samuel Beckett. O espetáculo recebe cinco troféus Açorianos, premiação concedida pela prefeitura de Porto Alegre. A trilogia encerra-se, em 1987, com Ostal, roteiro de Aldo Rostagno, do grupo italiano Cfr (Confrontação), que aborda a esquizofrenia.

São desse ano a criação coletiva Manchas no Lençol, uma investigação sobre a técnica de sombra chinesa, e o espetáculo de rua A Exceção e a Regra, de Bertolt Brecht, com 27 intérpretes.

A História do Homem que Lutou sem Conhecer Seu Grande Inimigo abre, em 1988, o projeto Caminho para um Teatro Popular, que se caracteriza por apresentações ao ar livre no centro da cidade, periferia e áreas rurais. A proposta é democratizar o espaço da arte e realizar um teatro político que sirva de instrumento de reflexão. O grupo atua nas ruas com Dança da Conquista, Deus Ajuda os Bão, Se Não Tem Pão, Comam Bolo!, A Heroína da Pindaíba e A Saga de Canudos, entre outros.

Em busca das raízes do teatro como comunhão entre atores e público, estreia, em 1990, o espetáculo Antígona - Ritos de Paixão e Morte, baseado na tragédia de Sófocles, com fragmentos de textos de Albert Camus, Antonin Artaud, Dante Alighieri, Fiodor Dostoiévski e Friedrich Nietzsche. O trabalho envolve dois anos de criação e preparação. A ação transcorre em cinco ambientes cênicos da Terreira, com o deslocamento do espectador em meio a cenas de batalhas e rituais. A crítica Maristela Bairros Schmidt considera a encenação "provocadora, incômoda, abusada e por vezes tão obscena quanto o poder que questiona. Mas é também impactante, inventiva, reveladora e completamente consequente. (...) Nunca uma peça me solicitou de uma forma tão radical e visceral".3

Em 1994, com base em texto de Wolfgang Goethe, o grupo encena Missa para Atores e Público sobre a Paixão e o Nascimento do Dr. Fausto de Acordo com o Espírito de Nosso Tempo. É uma superprodução com trinta cenas, mais de noventa personagens, doze atores, quatro contrarregras e quatro horas de duração. O crítico alemão Friedrich Dieckmann assiste à montagem e escreve na revista Theater der Zeit, de Berlim: "A encenação do Fausto (...) deu ao conceito de um teatro épico aquele sentido amplo (...) o sentido de um jogo cênico, que explode as relações do palco em imagens, à medida que ele transforma os espectadores em acompanhantes das suas próprias andanças".4

Até o fim da década de 1990, quando é obrigado a fechar a Terreira da Tribo por solicitação dos proprietários do prédio, o Ói Nóis apresenta A Incrível História de Héracles, criação coletiva; Álbum de Família, de Nelson Rodrigues; A Morte e a Donzela, de Ariel Dorfman; e Hamlet Máquina, roteiro inspirado em Heiner Müller.

A Terreira da Tribo abre novo espaço num galpão alugado no bairro Navegantes. No local, estreia sua leitura mítica sobre a Guerra de Tróia no espetáculo Kassandra in Process - Gênese, em 2001. Um ano depois, a pesquisa é concluída com Aos que Virão Depois de Nós, Kassandra in Process, adaptação do romance de Christa Wolf e fragmentos de outros autores.
O grupo, que já havia realizado turnês pelo Brasil com peças de rua, desta vez circula por diversas cidades com um espetáculo feito para o interior de um prédio, onde as cenas ocorrem em ambientes separados entre si. O público percorre as salas distintas e experimenta a dimensão física do espaço. Entre 2003 e 2007, a montagem passa pelo Rio de Janeiro, Ceará, São Paulo, Festival de Teatro de Curitiba e Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto. Kassandra conquista o Prêmio Shell de Teatro em São Paulo, na categoria especial pela pesquisa e criação coletiva e na categoria música para Johann Alex de Souza, entre outras premiações.

Em 2006, conclui a pesquisa cênica A Missão (Lembrança de uma Revolução), de Heiner Müller, considerado o melhor espetáculo no 2º Prêmio Brasken do 14º Porto Alegre em Cena.

Desde o início de sua trajetória, Ói Nóis compartilha suas experiências estéticas por meio de oficinas populares de teatro. Elas são desenvolvidas nos bairros a fim de fomentar a formação de grupos culturais autônomos, utilizando jogos cênicos como instrumento de indagação e conhecimento do mundo. A proposta pedagógica cria, em 2000, a Escola de Teatro Popular, gratuita. As disciplinas práticas e teóricas visam à formação do ator, com aulas diárias e duração de um ano e meio.

Homenageado pelo 15º Porto Alegre em Cena, o grupo estreia, em 2008, o espetáculo de rua O Amargo Santo da Purificação, uma visão alegórica e barroca da vida, paixão e morte do revolucionário Carlos Marighella. Com 25 atores, 13 deles formados pelas oficinas do grupo, une "impacto visual e sonoro, ampla visibilidade e dramaturgia elaborada", define a crítica Beth Néspoli.5 Em três décadas de atuação, passam pelo Ói Nóis nomes de destaque do teatro gaúcho, como Sandra Possani, Beatriz Britto e Fernando Kike Barbosa. Do núcleo inicial, permanecem Paulo Flores e atuadores mais antigos como Clélio Cardoso e Tânia Farias.

Na luta pelo espaço definitivo, assina, em 2008, com a prefeitura o Termo de Cedência de um terreno para construção da Terreira da Tribo, que volta ao bairro Cidade Baixa.


Notas

1. HEEMANN, Cláudio. Zero Hora, 24 abr. 1978.

2. OBINO, Aldo. Correio do Povo, novembro, 1978.

3. SCHMIDT, Maristela Bairros. Correio do Povo, 28 mar. 1990.

4. DIECKMANN, Friedrich. Theather der Zeit, julho/agosto 1995.

5. NÉSPOLI, Beth. O Estado de S. Paulo, 22 set. 2008.

Outras informações do grupo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz:

  • Outros nomes
    • Terreira da Tribo
    • Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
    • Terreira da Tribo Produções Artísticas Ltda
    • Ói Nóis Aqui Traveiz

Espetáculos (108)

Todos os espetáculos

Eventos relacionados (2)

Artigo sobre Rumos Teatro no 25º Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau (Fitub). Fingimos que Fumo e Vortemos, Ói Nóis e Clowns de Shakespeare Juntos Traveiz - A Música da Cena e Outros Encontros (2012 : Blumenau, SC)

Artigo da seção eventos
Temas do artigo:  
Data de inícioRumos Teatro no 25º Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau (Fitub). Fingimos que Fumo e Vortemos, Ói Nóis e Clowns de Shakespeare Juntos Traveiz - A Música da Cena e Outros Encontros (2012 : Blumenau, SC): 07-07-2012  |  Data de término | 09-07-2012
Resumo do artigo Rumos Teatro no 25º Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau (Fitub). Fingimos que Fumo e Vortemos, Ói Nóis e Clowns de Shakespeare Juntos Traveiz - A Música da Cena e Outros Encontros (2012 : Blumenau, SC):

Fontes de pesquisa (3)

  • ALENCAR, Sandra. Atuadores da paixão. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura, 1997.
  • SANTOS, Valmir (Org.). Aos que virão depois de nós: Kassandra in process, o desassombro da utopia. Porto Alegre: Ói Nóis Aqui Traveiz, 2004.
  • VECCHIO, Rafael. A utopia em ação. Porto Alegre: Terreira da Tribo Produções Artísticas, 2007.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TRIBO de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo387844/oi-nois-aqui-traveiz>. Acesso em: 24 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7