Artigo da seção grupos Grupo Giramundo

Grupo Giramundo

Artigo da seção grupos
Teatro  


Giramundo - espetáculo As Relações Naturais, 2009 - Itaú Cultural

Outros nomes
Grupo Giramundo
Giramundo Teatro de Bonecos

Data/Local
1970/1976 - Lagoa Santa MG
1976 - Belo Horizonte MG

Histórico
O Grupo Giramundo realiza espetáculos para o público adulto e infantil, com as mais variadas técnicas de criação, confecção e manipulação de bonecos. É um dos grupos de teatro de bonecos mais premiados em todo o mundo e com intensa atuação profissional em diversos campos: criação e produção de espetáculos, museu, teatro e escola.

O grupo é fundado em 1970, em contexto familiar, com a união dos artistas Álvaro Apocalypse e Terezinha Veloso e sua amizade com Maria do Carmo Martins, a Madu. Em entrevista concedida ao jornalista José Carlos Santana, Álvaro Apocalypse relata como se origina o grupo: "O primeiro desenho animado para o cinema feito em Belo Horizonte fui eu que fiz. [...] Aí eu passei a fazer desenho animado para a televisão, para a TV Itacolomi. Vinhetinhas. Mas ficava muito caro e tivemos que parar. Depois eu tentei fazer animação com bonecos, como se fazia na Europa, mas também tive de desistir [...]. Aí eu pensei: se não posso fazer animação, faço um teatro de bonecos".1

A respeito da escolha do nome, Álvaro relembra: "A gente procurava um nome de boi, um nome de animal, bem brasileiro. Já estávamos dispostos a adotar Mimoso quando alguém sugeriu Giramundo e dissemos: é esse aí".2 

Na casa de Álvaro e Terezinha é instalada a primeira oficina do grupo e marca o que Marcos Malafaia, integrante do Giramundo, chama de "período Lagoa Santa", de 1971 a 1976. "Do ponto de vista das condições de produção dos espetáculos, esta época caracterizou-se pela oficina em Lagoa Santa, [...] pela aproximação de novos e importantes colaboradores (principalmente Júlio Espíndola, Sandra Bianchi, Ivana Andrés, Felício Alves) e pelo financiamento das montagens com recursos próprios. Três outras características, que se tornariam influentes em fases seguintes do grupo, se salientam neste momento: a produção/adaptação de textos por Álvaro Apocalypse, a ênfase na cultura popular como fonte temática e o uso de trilha sonora gravada".3

A primeira montagem do grupo é A Bela Adormecida. Pensada inicialmente como um espetáculo a ser apresentado a familiares e amigos, integra a programação do Teatro Marília, a convite de seu diretor, Júlio Varela, com estreia em 5 de maio de 1971, e ótima aceitação por parte da imprensa e do público. Malafaia descreve os bonecos do espetáculo: "Nada mais que cabeças espetadas em cabos de vassoura. Assim eram os primeiros bonecos do Giramundo, máscaras de papel copiadas a partir de modelagem em argila e pintadas como quadros. Braços e mãos pendentes sem controle, puro couro e varetas. Figurinos simples, verdadeiras saias, cuidadosamente costuradas, e só. Mas, desde já, a marca que faria do Giramundo um estilo e uma referência importante no Teatro de Bonecos: o desenho que antecipa e a concepção do boneco como obra de arte".4

El Retablo de Maese Pedro, de 1976, produzido no âmbito do Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, é um divisor de águas na trajetória do grupo. A convite do maestro Sérgio Magnani, Álvaro Apocalypse dirige um espetáculo comemorativo do centenário de nascimento do compositor espanhol Manuel de Falla e propõe que os personagens sejam bonecos em tamanho natural, inspirados no bunraku - arte de representação japonesa. O espetáculo é um sucesso e, ao apresentar-se no Rio de Janeiro, é visto por Yan Michalski, que elogia a montagem: "Na roupagem que o grupo lhe deu, a pequena ópera de Manuel de Falla é, antes de mais nada, obra de artistas plásticos, adotando como ponto de partida uma imagem realista da figura humana, mas, submetendo-a a uma estilização intensamente expressiva e poética, chegou-se a um resultado fascinante em termos de criação visual: a cor, a forma, a expressão facial, a valorização através da luz e do movimento juntam-se harmonicamente para fazer surgir em cena uma emoção estética em estado puro".5

Pela excelente recepção do espetáculo e pelo fato de todos os integrantes do Giramundo serem professores da UFMG, a própria universidade oferece um espaço anexo à Escola de Belas Artes para o funcionamento do grupo. Essa parceria, que também conta com o financiamento parcial das montagens pelo Festival de Inverno da UFMG, dura até 1999, período que Malafaia denomina de "universitário".

Em 1979, o Giramundo apresenta o espetáculo Cobra Norato, criado com base no do poema homônimo do escritor modernista Raul Bopp. O texto é uma adaptação de Apocalypse e, segundo Malafaia, tem como principal virtude "a ampliação dos limites e mudança nos parâmetros do Teatro de Bonecos brasileiro por meio de uma equilibrada e sensível mescla entre qualidade técnica e elementos tradicionais e populares da cultura do Brasil".6 O espetáculo conquista vários prêmios no Brasil e no exterior, entre eles destacam-se dois troféus Mambembe (técnica e iluminação, e grupo, movimento ou personalidade), em 1979, o grande prêmio da crítica da Associação Paulista dos Críticos de Arte - APCA, em 1980; e o Prêmio Molière (melhor diretor - Álvaro Apocalypse), também em 1980.

Na década de 1990, valendo-se das Leis de Incentivo à Cultura, o Giramundo estreia 12 espetáculos, o que contribui para o processo de profissionalização de seus integrantes. O crescimento das atividades da companhia gera conflitos com a UFMG e determina o rompimento da sua parceria, em 1999.

Inicia-se, com a saída da UFMG, a terceira fase do Giramundo, chamada por Malafaia, de "período institucional". No começo dos anos 2000, o grupo instala-se em um imóvel adquirido por seus fundadores, no bairro Floresta, em Belo Horizonte. O Teatro Giramundo é inaugurado, mas pouco tempo depois, devido a dificuldades administrativas, o grupo vê-se obrigado a fechá-lo. Em 2001, é criado o Museu Giramundo, em cujo acervo figura boa parte dos bonecos do grupo, recuperados para esse fim. Em meio aos ensaios de Pinocchio, em 2003, morre Álvaro Apocalypse, o que abala profundamente o grupo. O Giramundo consegue, entretanto, retomar suas atividades e, em 2005, estreia o espetáculo.

Em 2004, a Escola Giramundo começa seu trabalho oferecendo oficinas a jovens da favela Pedreira Prado Lopes. Nesse momento, dá-se também a transferência do comando administrativo do grupo, exercido anteriormente por Álvaro Apocalypse, para um quarteto formado por filhas e assistentes mais próximos ao fundador.

Além de vários projetos educacionais, entre os quais os miniteatros ecológicos - pequenos espetáculos sobre ecossistemas brasileiros inicialmente pensados para apresentação em salas de aula, mas que encontram ótima repercussão e se difundem em circuito mais amplo -, o Giramundo investe na restauração de seus espetáculos e na preservação da memória de seus fundadores. Exemplo disso é o Arquivo Apocalypse, organização do acervo pessoal de Álvaro e Terezinha.

Sobre a longevidade do grupo, discorre Malafaia: "Talvez isso tenha ocorrido porque Álvaro Apocalypse estruturou um cotidiano prático muito próximo daquele dos ateliês de ofícios, marcado pela transmissão informal de conhecimentos, pelo uso do exemplo como recurso didático, pelo aspecto progressivo do aprendizado, pela ênfase no trabalho manual e pela generalização, em oposição à especialização funcional."7

Em 2008, o grupo conta com 50 integrantes, e sua diretoria, responsável pela criação artística, é formada por Ulisses Tavares, Marcos Malafaia e Beatriz Apocalypse. O Grupo Giramundo escreve parte da história do teatro de bonecos no Brasil, tornando-se referência fundamental para as companhias que se estabelecem em Belo Horizonte nos anos seguintes ao seu surgimento. Nesse ano, o Giramundo recebe do governo federal a Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo Ministério da Cultura - MinC. Tramita na Câmara Municipal de Belo Horizonte um projeto de reconhecimento do grupo como Patrimônio Imaterial da Cidade.

Notas
1. SANTANA, José Carlos. Entrevista com Álvaro Apocalypse. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 20 jun. 1998. Caderno 2. p. 1.
2. Idem.
3. MALAFAIA, Marcos. Giramundo: memórias de um teatro de bonecos. Jan. 2008. Disponível em: [http://www.terra.com.br/pensarte/projetos/giramundo.html]. Acesso em 12 nov. 2008. p. 3.
4. Idem.
5. MICHALSKY, Yan. Crítica El Retablo de Maese Pedro. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, p. 1., abr. 1977.
6. MALAFAIA, Marcos. Giramundo: memórias de um teatro de bonecos. Jan. 2008. Disponível em: [http://www.terra.com.br/pensarte/projetos/giramundo.html]. Acesso em 12 nov. 2008. p. 7.
7. Idem. p. 14.

Outras informações do grupo Grupo Giramundo:

Espetáculos (44)

Todos os espetáculos

Fontes de pesquisa (5)

  • GRUPO GIRAMUNDO. Site Oficial do Grupo. Belo Horizonte, 2008. Disponível em: [http://www.giramundo.org/]. Acesso em: 12 nov. 2008.
  • Grupo Giramundo. [Currículo]. Enviado pelo grupo em 25 nov. 2008.
  • MALAFAIA, Marcos. Giramundo: memórias de um teatro de bonecos. Jan. de 2008. Disponível em: [http://www.terra.com.br/pensarte/projetos/giramundo.html]. Acesso: 12 nov. 2008.
  • MICHALSKY, Yan. Crítica El Retablo de Maese Pedro. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, abr. 1977.
  • SANTANA, José Carlos. Entrevista com Álvaro Apocalypse. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 20 de jun. 1998. Caderno 2. p. 1.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GRUPO Giramundo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo387394/grupo-giramundo>. Acesso em: 25 de Jun. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7