Artigo da seção grupos Companhia do Latão

Companhia do Latão

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra Companhia do Latão: 1997 Local de crição: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Histórico
Grupo teatral criado em São Paulo, em 1997, cujo núcleo é formado por Sérgio de Carvalho (1967), Márcio Marciano (1962), Ney Piacentini (1960) e Maria Tendlau (1972). Desenvolve pesquisas sobre teatro épico, sobretudo com base na obra do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), com o objetivo de criar uma dramaturgia própria, voltada para a representação dos problemas da sociedade brasileira. Questionando os modos de trabalho dominantes na produção teatral, a Companhia do Latão investe numa experiência coletiva de criação artística. Sua prática passa pela desconstrução da hierarquia entre os membros do grupo e pela busca de uma forma igualitária de trabalho na sala de ensaios, ponto de partida para a politização do teatro.

Valendo-se de recursos cênicos anti-ilusionistas, seus espetáculos procuram revelar os mecanismos de construção da cena – tanto do ponto de vista dramatúrgico quanto cenográfico. Na contramão do emocionalismo e do hermetismo, as criações da Companhia do Latão buscam a inteligibilidade. Com base nas técnicas de distanciamento próprias do teatro de Brecht, o trabalho dos atores no grupo busca estimular uma postura crítica do espectador, para a qual contribui a música, elemento relevante nas produções da trupe. 

Interesse social, político e pesquisa formal são as bases de seu projeto artístico. No decorrer de sua trajetória, a Companhia do Latão realiza inúmeros experimentos cênicos, monta textos de autoria própria e adapta clássicos da dramaturgia de Brecht, como Santa Joana dos Matadouros e O Círculo de Giz Caucasiano. O processo de criação do grupo pressupõe um conjunto de atividades que passam por oficinas, pesquisa sobre os temas pertinentes a cada espetáculo, debates e exercícios de improvisação. A Companhia do Latão lança a revista Vintém, dedicada à discussão entre arte e sociedade, e outras publicações nas quais relata sua experiência. Dedica-se a levar suas peças para fora do circuito tradicional das salas e mantém ainda um núcleo de pesquisas audiovisuais.

Em 1996, o diretor Sérgio de Carvalho e um grupo de atores reúnem-se para encenar uma adaptação de A Morte de Danton, texto do escritor alemão Georg Büchner (1813-1837). E o surgimento da companhia está ligado à montagem do espetáculo Ensaio para Danton, que encerra alguns dos principais elementos que orientam as futuras pesquisas da trupe – a busca por um teatro anti-ilusionista, em diálogo crítico com a tradição do teatro épico.

A experiência teórica e prática adquirida com a montagem de Ensaio para Danton fornece o material para que o diretor Sérgio de Carvalho organize o projeto Pesquisa em Teatro Dialético, com o qual, em abril de 1997, vence um edital da Fundação Nacional de Artes (Funarte) que prevê a ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Para iniciar os trabalhos, Carvalho convida uma série de artistas, incluindo Márcio Marciano, que, a partir desse momento, se torna o principal companheiro do diretor na dramaturgia e na direção do grupo. O projeto de ocupação do Arena propõe o estudo aprofundado da obra de Brecht como um modelo possível para a representação das contradições da sociedade brasileira. É com essa ocupação que o grupo se constitui efetivamente. Desse trabalho de pesquisa surge o Ensaio sobre o Latão

A residência no Teatro de Arena dá origem a dois outros espetáculos: Santa Joana dos Matadouros, adaptação do texto de Brecht, e O Nome do Sujeito. A montagem de Santa Joana assinala um momento importante na história do grupo – o contato com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o incentivo para a elaboração de uma dramaturgia própria. O Nome do Sujeito nasce do estudo da obra de Gilberto Freyre (1900-1987) e da leitura do poema dramático Fausto, de Goethe (1749-1832), e é escrito com base no material gerado pelos atores durante os ensaios.

A Comédia do Trabalho radicaliza a experiência de criação coletiva. Para levantar a peça, o grupo ocupa, em março de 2000, a Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo. Concebida como uma peça de intervenção, o espetáculo rompe os limites do palco, valendo-se de uma estrutura cênica passível de ser montada em todo tipo de espaço, até mesmo ao ar livre. Expõe de maneira didática, e em tom de farsa, o estado do sistema produtivo capitalista e amplia o intercâmbio da trupe com os movimentos sociais do Brasil.

O grupo segue com o projeto de construir uma dramaturgia própria e, depois de Auto dos Bons Tratos, de 2002, criada com base em episódio da história colonial brasileira, leva aos palcos, em 2003, O Mercado do Gozo, com a história de um rapaz que pertence à burguesia industrial paulista do início do século XX, e relega sua condição de classe e mergulha no submundo da prostituição. Este projeto é contemplado com o Programa Municipal de Fomento ao Teatro. Parte do jogo da peça é levar o espectador a desconfiar da narrativa sempre que ela utiliza os recursos encantatórios da indústria cultural. No ano seguinte, o grupo se debruça sobre a obra de Machado de Assis (1839-1908). Com uma série de oficinas voltadas para integrantes de movimentos sociais, como o MST, a companhia se dedica à pesquisa do método narrativo do escritor carioca. Dessa experiência, surge Visões Siamesas, livre adaptação do conto As Academias de Sião.

Por ocasião das celebrações do cinquentenário da morte de Brecht, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, convida, em 2006, o diretor Sérgio de Carvalho a encenar uma nova peça do dramaturgo. No ano em que faz os preparativos para comemorar os dez anos de existência, a companhia retorna à obra de Brecht com a montagem de O Círculo de Giz Caucasiano, com a participação de atores convidados e de crianças e adolescentes do grupo Filhos da Mãe Terra, do MST. A peça retoma o diálogo crítico com o legado do dramaturgo alemão a fim de, nas palavras de Carvalho, “modificá-lo a partir de suas premissas, em atrito com a nossa versão local do capitalismo mundial e com a nossa história de cultura periférica”.1 

Com a abertura do Estúdio do Latão, em 2007, no bairro da Vila Madalena, o grupo obtém condições para o desenvolvimento de suas pesquisas cênicas e disponibiliza para consulta pública o material produzido, desde 2006, pelo Projeto Companhia do Latão 10 Anos: Memória, Estúdio, Pesquisa. 

Após dois anos de pesquisa, estreia, em 2010, no Rio de Janeiro, Ópera dos Vivos – Estudo Teatral em 4 Atos. O espetáculo, que integra cinema, teatro e música, discute a produção cultural brasileira, e é o resultado de uma série de experimentos audiovisuais e estudos desenvolvidos no Núcleo de Cinema do Latão.

Nota
1 CARVALHO, Sérgio de. A contribuição do teatro para a luta de classes: a experiência da Companhia do Latão. Entrevista realizada por Iná Camargo Costa para a Revista Crítica Marxista, n. 26, 2008.

Outras informações do grupo Companhia do Latão:

  • Outros nomes
    • Cia. do Latão

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Fontes de pesquisa (4)

  • A COMÉDIA DO TRABALHO. Direção Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano. São Paulo, 2000. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado em 2000.  
  • COELHO, Marcelo. Companhia do Latão ilumina a razão no Centro Cultural. Folha de S.Paulo, São Paulo, p. 4-8, 15 set. 1999.
  • COSTA, Iná Camargo. Por um teatro épico. Vintém, São Paulo, ano 2, n. 3, p. 12-17.
  • LIMA, Mariângela Alves de. 'O Nome do Sujeito' une dilemas míticos e temas sociais. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 out. 1998. Caderno 2, p. D4.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • COMPANHIA do Latão. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo356573/companhia-do-latao>. Acesso em: 24 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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