Artigo da seção grupos Universidade Católica de Pernambuco (Recife, PE)

Universidade Católica de Pernambuco (Recife, PE)

Artigo da seção grupos
Teatro  

Data/Local
1967 - Recife PE - Teatro da Universidade Católica de Pernambuco - Tuca Recife - 11 de agosto

1971 - Recife PE - Teatro da Universidade Católica de Pernambuco - Tucap - 6 de abril

Histórico
Grupo universitário fundado por iniciativa de Joacir Castro, ex-integrante do Teatro de Cultura Popular (TCP) e do Teatro Popular do Nordeste (TPN). Ligado à Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), destaca-se pela qualidade estética dos espetáculos e do repertório e pela sintonia com o teatro universitário de cunho político, especialmente nos anos 1960 e 1970.

O Teatro da Universidade Católica de Pernambuco (Tucap) surge em 1967, por iniciativa de uma comissão formada pelos estudantes Joacir Castro, José Mário Austregésilo e Roberto Pimentel. Nesse momento, em homenagem ao Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Tuca), o grupo se autodenomina Tuca Recife e sua principal preocupação é a valorização da dramaturgia brasileira. Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, é a primeira montagem do Tuca Recife, com direção de Lúcio Lombardi. No programa da peça, o texto, assinado por Joacir Castro, enfatiza o compromisso político-social do novo grupo: "Para nós, alunos da Universidade Católica de Pernambuco, a existência do Tuca mostra ser possível e necessário o diálogo entre o corpo docente e discente e, consequentemente, sua integração na realidade socioeconômica da pátria brasileira. E Black-Tie..., que aqui vai sob a direção do jovem Lúcio Lombardi, é a síntese dessa realidade representada pelas inúmeras favelas e mangues que ainda existem na era atômica. Realidade que denuncia perante a Nação o atraso secular em que estamos e que será superado pela geração jovem. O Tuca é de todos os universitários e do Recife. Todos devem apoiá-lo".1 O financiamento dos espetáculos é feito pelos diretórios acadêmicos, que repassam ao grupo uma verba oriunda de um percentual das taxas de inscrição do vestibular da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). E o pagamento dos diretores do grupo é responsabilidade da própria universidade.

A partir de 1968, o Tuca Recife começa a realizar experiências teatrais dentro das salas de aulas, com a montagem de O Cão sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto, de Elegia, de Cassiano Ricardo, e de outros espetáculos que seguem uma tendência do período, as colagens de texto e música influenciadas pelo modelo de Liberdade, Liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel. Após as apresentações, as pequenas cenas são discutidas com os alunos. A montagem seguinte é A Derradeira Ceia, de Luiz Marinho, direção de Rubens Teixeira.

José Mário Austregésilo, ao terminar o curso de ciências econômicas, em 1970, deixa o grupo e a universidade, indicando para a direção do Tuca Recife o ator e artista plástico João Batista Dantas, que se afasta do grupo antes mesmo de dirigir a primeira montagem, por discordar da escolha do texto a ser encenado em 1971. O novo espetáculo tem direção de Marcus Siqueira, ator e diretor paraibano, então radicado na capital pernambucana, que assume a coordenação do Tuca Recife, que passa a se denominar Tucap. A montagem seguinte ocorre ainda em 1971: O Escurial, de Michel de Ghelderode. Mas, por problemas internos, Marcus Siqueira se afasta do grupo e é substituído por José Francisco Filho, em 1972.

A presença de José Francisco Filho à frente do Tucap provoca uma reviravolta estética nas diretrizes do grupo. A cena torna-se tão ou mais importante que o texto e não se pensa mais em valorização da dramaturgia nacional, embora o primeiro texto encenado seja Torturas de um Coração ou Em Boca Fechada Não Entra Mosquito, de Ariano Suassuna, que faz uma única apresentação no Recife, antes de viajar para o 4º Festival de Teatro Amador de São José do Rio Preto, interior de São Paulo. A encenação do texto surpreende por sua ousadia estilística, segundo atesta o crítico Celso Marconi: "A direção [...] não se preocupou com uma desnecessária fidelidade do texto; aproveitou dele o lado folclórico e autêntico, inteligente, adaptando-o, de modo perfeito, ao transbunde/geral".2 Por essa nota se antecipa tanto a filiação estética a que o espetáculo se vincula quanto o confronto que vai se dar com o autor.

Torturas de um Coração se apresenta no 4º Festival de Teatro Amador de São José do Rio Preto e se anuncia como uma montagem tropicalista, que reverencia o teatro de revista e é dedicada a Leila Diniz. A imprensa que cobre o festival constata que a direção "conseguiu arredondar de tal forma o texto que, se Ariano visse a peça, naturalmente protestaria. Foi mostrada ao público, que vibrou intensamente, e ao júri, que riu muito, uma peça para o burlesco, que nós chamamos popularmente de teatro de revista".3 A montagem se esmera no escárnio à "macheza" nordestina, carregando nos trejeitos de Vicentão e do Cabo Setenta, os machões da peça, além de colocar em cena uma vedete e inserir músicas carnavalescas como O Teu Cabelo Não Nega e Vassourinhas, o hino do carnaval de Pernambuco.

Embora não tenha se distanciado do texto original, a montagem é imediatamente vetada pelo autor: "Não concordo com as ideias e atitudes do movimento tropicalista, aliás, já morto e enterrado [...]. Todos os que me conhecem no Recife sabem disso. Todo o meio teatral nordestino sabe disso também. Assim, não foi por omissão casual que os membros do Tucap que foram a minha casa deixaram de me comunicar a linha deturpadora que tinham resolvido imprimir à minha peça. Este é o motivo de estar me dirigindo neste momento à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais no sentido de proibir este espetáculo. Só não tomei a medida antes do Festival de Rio Preto porque não vi o espetáculo no Recife".4

Ainda em 1972, José Francisco Filho dirige A Revolta dos Brinquedos, de Pernambuco de Oliveira e Pedro Veiga, um sucesso de público que é remontado dois anos depois, e financia a produção do espetáculo seguinte e a viagem que o grupo faz para participar do 1º Festival de Teatro Amador de Goiânia. Com direção de José Francisco Filho, o grupo encena Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, em 1973. Nessa montagem, o encenador tira partido da expressão corporal do elenco, por meio de movimentos intensos, que ocupa toda a igreja do Rosário dos Pretos, no centro do Recife, onde o espetáculo se apresenta durante a Semana Santa. Em razão da liturgia da Semana Santa, as imagens barrocas da igreja são cobertas por panos roxos, cor também utilizada nos figurinos dos atores, que se revezam em vários papéis.

O Tucap realiza, também em 1973, o show musical Parto de Música Livre do Nordeste, criação e produção de Don Antonio, Tonico Aguiar, Eurico Andrade, Gaspar de Andrade e Rodolfo Aureliano, que se apresenta no Teatro de Santa Isabel. O evento ocorre em junho, com a participação de Luiz Gonzaga, Flaviola, Lula Côrtes, do cartunista e músico Lailson, da Banda Phetus, do quarteto musical do Tucap, do Tamarineira Village, com Marco Polo, Kátia de França, e performance de Paulo Bruscky, e outros intérpretes.

Estreia, em 1974, Os Escolhidos, de Hilda Hilst (1930 - 2004), que participa do 1º Festival Nacional de Teatro de Campina Grande, Paraíba, no qual recebe o prêmio de melhor espetáculo. Em 1975, é encenado A Barca d'Ajuda, de Benjamin Santos, um musical pop inspirado no cancioneiro folclórico, com o elenco realizando acrobacias ao mesmo tempo que canta e dança, em uma cenografia que mimetiza de maneira sintética um navio em alto-mar. Nesse espetáculo, o grupo, com mais de 30 integrantes, retoma o gênero de show-revista e desagrada os setores conservadores da universidade, fazendo o Tucap interromper suas atividades.
 
Com direção de Carlos Varella, que inicia um novo trabalho com atores estreantes, o Tucap ressurge em 1983. A princípio, faz uma homenagem à trajetória do grupo com uma retrospectiva dos espetáculos anteriores, recriados e encenados durante a Calourada, recepção dos novos alunos da Unicap. Nesse mesmo ano, dirige O Coronel de Macambira, de Joaquim Cardozo, mas, logo em seguida, é obrigado a se afastar do grupo. Em 1985, José Francisco Filho volta ao grupo especialmente para dirigir A Farsa do Advogado Pathelin. A partir de 1992, assume a direção do Tucap o ator e dramaturgo Elmar Castelo Branco, que realiza, até 1997, dez espetáculos, todos circunscritos ao campus da Unicap.

Notas
1. Texto de Joacir de Castro, lido pelo ator João Ferreira, no projeto Memórias da Cena Pernambucana, da Federação de Teatro de Pernambuco - Feteape, que ocorre no Recife, em 1998, na ocasião dos depoimentos dos integrantes do Teatro da Universidade Católica de Pernambuco - Tucap. Transcrito de: FERRAZ, Leidson; DOURADO, Rodrigo; WELLINGTON JÚNIOR. (Orgs.). Teatro da Universidade Católica de Pernambuco. In: _____. Memórias da cena pernambucana 01. Prefácio Newton Moreno. Recife: Ed. dos Autores, 2005. p. 44.

2. MARCONI, Celso. Torturas do coração. Jornal do Commercio, Recife, [s. p.], 6 jul. 1972. [Arquivo pessoal de José Francisco Filho].

3. A PLATEIA vibrou, o júri riu muito - está cotado. Jornal de São Paulo, São Paulo, [s.d. /s.p.]. [Arquivo pessoal de José Francisco Filho].

4. SUASSUNA acha que tropicalismo deturpa Torturas de um coração. A Notícia, São José do Rio Preto, [s.p.], 3 ago. 1972,. [Arquivo pessoal de José Francisco Filho].

Outras informações do grupo Universidade Católica de Pernambuco (Recife, PE):

  • Outros nomes
    • TUCAP
    • Unicap (Recife, PE)
    • Universidade Católica de Pernambuco. Teatro
    • Tucap

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (6)

  • A PLATEIA vibrou, o júri riu muito - está cotado. Jornal de São Paulo, São Paulo, [s.d. /s.p.] [Arquivo pessoal de José Francisco Filho].
  • BACCARELLI, Milton. O Teatro em Pernambuco: trocando a máscara. Prefácio José Mário Austregésilo. Recife: Fundarpe, 1994.
  • DON ANTONIO. Tucap. Disponível em: http://www.memorialpernambuco.com.br/memorial/112artescenicas/tucap/index.html. Acesso em: 14 jul. 2009.
  • FERRAZ, Leidson; DOURADO, Rodrigo; WELLINGTON JÚNIOR. (Orgs.). Memórias da Cena Pernambucana 01. Recife: Ed. Dos Autores, 2005, p. 44-60.
  • MARCONI, Celso. Torturas do Coração. Jornal do Commercio, Recife, [s. p.], 6 jul. 1972. [Arquivo pessoal de José Francisco Filho].
  • SUASSUNA acha que tropicalismo deturpa Torturas de um Coração. A Notícia, São José do Rio Preto, [s. p.], 3 ago. 1972. [Arquivo pessoal de José Francisco Filho].

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • UNIVERSIDADE Católica de Pernambuco (Recife, PE). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo240830/universidade-catolica-de-pernambuco-recife-pe>. Acesso em: 15 de Ago. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7