Artigo da seção eventos Semana de Arte Moderna (1922 : São Paulo, SP)

Semana de Arte Moderna (1922 : São Paulo, SP)

Artigo da seção eventos
Artes visuais / literatura  
Data de inícioSemana de Arte Moderna (1922 : São Paulo, SP): 11-02-1922 | Data de término: 18-02-1922
Local de realização: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Instituição de realização: Theatro Municipal de São Paulo
Tipo do evento: exposicao | Classificação do evento: Coletiva
Imagem representativa do artigo

A Semana de Arte Moderna , s.d. , Belmonte
Reprodução fotográfica Humberto Medeiros Estúdio

Histórico
Inserida nas festividades em comemoração do centenário da independência do Brasil, em 1922, a Semana de Arte Moderna apresenta-se como a primeira manifestação coletiva pública na história cultural brasileira a favor de um espírito novo e moderno em oposição à cultura e à arte de teor conservador, predominantes no país desde o século XIX. Entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922, realiza-se no Theatro Municipal de São Paulo um festival com uma exposição com cerca de 100 obras e três sessões lítero-musicais noturnas. Entre os pintores participam Anita Malfatti (1899-1964), Di Cavalcanti (1897-1976), Ferrignac (1892-1958), Jonh Graz (1891-1980), Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), Zina Aita (1900-1968), Yan de Almeida Prado (1898-1991) e Antônio Paim Vieira (1895-1988), com dois trabalhos feitos a quatro mãos, e o carioca Alberto Martins Ribeiro, cujo trabalho não se desenvolveu depois da Semana de 22. No campo da escultura, estão Victor Brecheret (1894-1955), Wilhelm Haarberg (1891-1986) e Hildegardo Velloso (1899-1966). A arquitetura é representada por Antonio Moya (1891-1949) e Georg Przyrembel (1885-1956). Entre os literatos e poetas, tomam parte Graça Aranha (1868-1931), Guilherme de Almeida (18901-1969), Mário de Andrade (1893-1945), Menotti Del Picchia (1892-1988), Oswald de Andrade (1890-1954), Renato de Almeida, Ronald de Carvalho (1893-1935), Tácito de Almeida (1889-1940), além de Manuel Bandeira (1886-1968) com a leitura do poema Os Sapos. A programação musical traz composições de Villa-Lobos (1887-1959) e Debussy (1862-1918), interpretadas por Guiomar Novaes (1895-1979) e Ernani Braga (1888-1948), entre outros.

A Semana de 22 não foi um fato isolado e sem origens. As discussões em torno da necessidade de renovação das artes surgem em meados da década de 1910 em textos de revistas e em exposições, como a de Anita Malfatti em 1917. Em 1921 já existe, por parte de intelectuais como Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia, a intenção de transformar as comemorações do centenário em momento de emancipação artística. No entanto, é no salão do mecenas Paulo Prado, em fins desse ano, que a ideia de um festival com duração de uma semana, trazendo manifestações artísticas diversas, toma forma inspirado na Semaine de Fêtes de Deauville, cidade francesa. Nota-se que sem o empenho desse mecenas o projeto não sairia do papel. Paulo Prado, homem influente e de prestígio na sociedade paulistana, consegue que outros barões do café e nomes de peso patrocinem, mediante doações, o aluguel do teatro para a realização do evento. Também é fundamental seu papel na adesão de Graça Aranha à causa dos artistas "revolucionários". Recém-chegado da Europa como romancista aclamado, a presença de Aranha serve estrategicamente para legitimar a seriedade das reivindicações do jovem e ainda desconhecido grupo modernista.

Sem programa estético definido, a Semana desempenha na história da arte brasileira muito mais uma etapa destrutiva de rejeição ao conservadorismo vigente na produção literária, musical e visual do que um acontecimento construtivo de propostas e criação de novas linguagens. Pois, se existe um elo de união entre seus tão diversos artífices, este é, segundo seus dois principais ideólogos, Mário e Oswald de Andrade, a negação de todo e qualquer "passadismo": a recusa à literatura e à arte importadas com os traços de uma civilização cada vez mais superada, no espaço e no tempo.  Em geral todos clamam em seus discursos por liberdade de expressão e pelo fim de regras na arte. Faz-se presente também certo ideário futurista, que exige a deposição dos temas tradicionalistas em nome da sociedade da eletricidade, da máquina e da velocidade. Na palestra proferida por Mário de Andrade na tarde do dia 15, posteriormente publicada como o ensaio A Escrava que Não É Isaura , 1925, ocorre uma das primeiras tentativas de formulação de idéias estéticas modernas no país. Nessa conferência, o autor antevê a importância de temperar o processo de importação da estética moderna com o nativismo, o movimento de voltar-se para as raízes da cultura popular brasileira. A dinâmica entre nacional e internacional torna-se a questão principal desses artistas nos anos subseqüentes.

Com a distância de mais de 80 anos, sabe-se que, com respeito à elaboração e à apresentação de uma linguagem verdadeiramente moderna, a Semana de 22 não representa um rompimento profundo na história da arte brasileira. Pois no conjunto de qualidade irregular de obras expostas não se identifica uma unidade de expressão, ou algo como uma estética radical do modernismo. No entanto, há de se reconhecer que, a despeito de todos os antagonismos, esse evento configura-se como um fato cultural fundamental para a compreensão do desenvolvimento da arte moderna no Brasil, e isso sobretudo pelos debates públicos mobilizados (cercados por reações negativas ou de apoio) e riqueza de seus desdobramentos na obra de alguns de seus realizadores. 

Ficha Técnica do evento Semana de Arte Moderna (1922 : São Paulo, SP):

Representação (4)

Midias (2)

Direção Roberto Moreira Edição José Carlos Daniel e Eduardo Lopes Roteiro Otávio Gomes, Roberto Moreira, Sylvio Pinheiro Produção Andréa Marques Barbosa Trilha sonora Wilson Sukorski, Lívio Tragtenberg Locução Martha Mellinger. Itaú Cultural

O professor de literatura brasileira e pesquisador Jorge Schwartz palestra sobre o Modernismo. Tendo como marco zero a Semana de Arte Moderna de 22, realizada no Teatro Municipal, o modernismo é indissociável de São Paulo e da trajetória dos poetas paulistanos Mário e Oswald de Andrade. São Paulo na Literatura é uma série programas que tratam da cidade de São Paulo no imaginário da literatura brasileira. Com curadoria do jornalista e ensaísta Manuel da Costa Pinto e participação do grupo teatral Bendita Trupe, a série é formada por quatro programas -- Romantismo, Modernismo, Concretismo e Realismo Urbano. Gravado em fevereiro de 2004, na Sala Itaú Cultural, em São Paulo.

Espetáculos (1)

Exposições (5)

Fontes de pesquisa (9)

  • ADES, Dawn. Arte na América Latina: a era moderna, 1820-1980. Tradução Maria Thereza de Rezende Costa. São Paulo, SP: Cosac & Naify, 1997. 365 p., il. color. p&b.
  • ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita ao museu. São Paulo: Perspectiva : Diâmetros Empreendimentos, 1976. 241 p., il. p&b. (Debates, 133).
  • AMARAL, Aracy. Artes plásticas na Semana de 22. 5. ed. São Paulo, SP: Editora 34, 1998. 335 p.
  • ANDRADE, Mário de. Aspectos da literatura brasileira. 5. ed. São Paulo: Martins, 1974. 262 p.
  • BATISTA, Marta Rosseti; Lopez, Telê P. Ancona; Lima, Yone Soares de (orgs.). Brasil: primeiro tempo modernista - 1917/29. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, 1972.
  • BOAVENTURA, Maria Eugênia (org.). 22 por 22: a Semana de Arte Moderna vista pelos seus contemporâneos. São Paulo: Edusp, 2000. 461 p., il. p.&b.
  • CAMARGOS, Marcia Mascarenhas de Rezende. Semana de 22: entre vaias e aplausos. São Paulo: Boitempo, 2002. 183 p., il. p&b color. (Paulicéia. Memória).
  • MICELI, Sérgio. Nacional estrangeiro: história social e cultural do modernismo artístico em São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 211 p., il. color.
  • PEDROSA, Mário. Acadêmicos e modernos: textos escolhidos III. Organização Otília Beatriz Fiori Arantes. São Paulo : Edusp, 1998. 429 p.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • SEMANA de Arte Moderna (1922 : São Paulo, SP). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento84382/semana-de-arte-moderna-1922-sao-paulo-sp>. Acesso em: 23 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7