Artigo da seção eventos Nova Objetividade Brasileira

Nova Objetividade Brasileira

Artigo da seção eventos
Artes visuais  
Data de inícioNova Objetividade Brasileira: 06-04-1967 | Data de término: 30-04-1967
Local de realização: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Instituição de realização: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Tipo do evento: exposicao | Classificação do evento: Coletiva
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Carro Vermelho , 1967 , Roberto Magalhães
Reprodução fotográfica Paulo Scheuenstuhl

Histórico
Realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), em abril de 1967, e organizada por um grupo de artistas e críticos de arte, a mostra Nova Objetividade Brasileira reúne diferentes vertentes das vanguardas nacionais - arte concreta, neoconcretismo, nova figuração - em torno da idéia de "nova objetividade". A noção começa a ser definida por Hélio Oiticica (1937-1980) no evento Propostas 66, realizado na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo, que visa examinar a situação da arte no país. Nos debates - dos quais participam Mário Pedrosa (1900-1981), Mário Barata (1921), Aracy Amaral (1930), Mário Schenberg (1914-1990), Otávio Ianni, Vilanova Artigas (1915-1985), Flávio Império (1935-1985), entre outros -, Oiticica defende ser o termo "nova objetividade" o que mais fielmente traduz as experiências das vanguardas brasileiras, em geral, e a sua, em particular. Diz ele: "Toda a minha evolução de 1959 para cá tem sido na busca do que vim a chamar recentemente de uma nova objetividade e creio ser esta a tendência específica da vanguarda brasileira atual (...)." Para Hélio Oiticica há uma tendência à superação dos suportes tradicionais (pintura, escultura etc.), em proveito de estruturas ambientais e objetos.

A criação de objetos de diversos tipos, bem como a defesa de soluções propriamente nacionais, que não sejam cópias do que se produz nos centros internacionais, definem o espírito central da mostra, espécie de balanço dos diversos caminhos trilhados pela arte nacional. Tomada de posições políticas, superação do quadro de cavalete, participação corporal, tátil e visual do espectador, eis os ingredientes básicos da nova objetividade, que não almeja ser um movimento artístico, nos termos de Hélio Oiticica. "A nova objetividade", diz ele, "sendo um estado, não é pois um movimento dogmático, esteticista (como por exemplo foi o cubismo e também outros ismos constituídos como unidades de pensamento), mas uma 'chegada' constituída de múltiplas tendências, onde a falta de 'unidade de pensamento' é uma característica importante (...)". Em outras palavras, a exposição não pretende constituir um grupo artístico e sim ser a confluência de diferentes tendências.

O texto A Declaração de Princípios Básicos da Nova Vanguarda acompanha a exposição. Assinado por Hélio Oiticica, Antonio Dias (1944), Carlos Vergara (1941), Rubens Gerchman (1942-2008), Lygia Pape (1927-2004), Glauco Rodrigues (1929-2004), Carlos Zilio (1944) , Mário Pedrosa, Maurício Nogueira Lima (1930-1999), entre outros, defende a liberdade de criação, o emprego de uma linguagem nova, a análise crítica da realidade e a "utilização de meios capazes de reduzir à máxima objetividade o subjetivismo". Trata-se de privilegiar o objeto, de acordo com o ideário de Hélio Oiticica, ao recusar as tendências fantásticas e neo-surrealistas das novas figurações, que predominam em mostras como Opinião 65. Dois grandes módulos organizam a Nova Objetividade Brasileira: um primeiro voltado para uma retrospectiva do objeto na arte brasileira, que acentua a "vocação construtiva" das nossas produções artísticas; e um segundo sobre as manifestações atuais. Artistas saídos do concretismo e do neoconcretismo, assim como adeptos das novas figurações e dos novos realismos, reúnem-se no evento. Participam da mostra, além dos signatários do texto, Sérgio Ferro (1938), Waldemar Cordeiro (1925-1973), Flávio Império, Geraldo de Barros (1923-1998), Nelson Leirner (1932), Marcello Nitsche (1942), Mona Gorovitz (1937), Alberto Aliberti (1935-1994), Ivan Serpa (1923-1973), Sonia von Brüsky (1941), entre outros. Chamam a atenção no conjunto experiências com claras conotações antiarte, como, por exemplo, a Caixa de Baratas, 1967, de Lygia Pape; os "objetos relacionais", e "máscaras sensoriais" de Lygia Clark (1920-1988); O Eu e o Tu - Roupa-Corpo-Roupa e a Tropicália, 1967, de Hélio Oiticica.

Tropicália pode ser descrita como um ambiente labiríntico composto por dois Penetráveis, PN2, 1966 - Pureza é um Mito e PN3, 1966/1967 - Imagético, associados a plantas, areia, araras, poemas-objetos, capas de parangolé e um aparelho de televisão. As imagens tropicais - donde o título - são evidentes: areia, araras, plantas. Um ambiente que "ruidosamente apresenta imagens", segundo o seu criador, que invade todos os sentidos (visão, tato, audição, olfato) e convida ao jogo e à brincadeira. O uso de signos e imagens convencionalmente associados ao Brasil não tem como objetivo figurar uma dada realidade nacional, mas objetivar uma imagem brasileira pela "devoração" dos símbolos da cultura brasileira. A idéia da "devoração", nada casual, remete diretamente à retomada da antropofagia e ao modernismo em sua vertente oswaldiana, da qual se beneficia a obra de Hélio Oiticica. Com os Parangolés, expostos em Opinião 65, Hélio Oiticica dá o passo decisivo que leva a arte à vida e ao ambiente. É nesse momento que descobre o samba, a Mangueira (escola de samba da qual se torna passista) e a arquitetura particular das favelas a que Tropicália faz referência. A "antiarte ambiental" inaugurada aí aparece sistematizada teoricamente no texto escrito pelo artista, Esquema Geral da Nova Objetividade Brasileira, dialoga tanto com os postulados das vanguardas brasileiras, quanto com referências variadas da arte internacional, como a arte povera, a arte conceitual, as propostas dadaístas e construtivistas.

Uma "vontade construtiva" alimenta as propostas presentes na Nova Objetividade Brasileira, o que permite flagrar o embasamento concreto das formulações das novas vanguardas, que se beneficiam das produções anteriores de Hélio Oiticica, da arte objetual , de Franz Weissmann (1911-2005) e Aluísio Carvão (1920-2001), além das produções de Waldemar Cordeiro após 1964 (por ele denominadas de "arte concreta semântica" e de "arte popcreta"). A mostra e os textos que a acompanham podem ser lidos como desdobramentos de outros eventos que têm lugar na década de 1960, como, por exemplo, as exposições Opinião 65 e Opinião 66 (Rio de Janeiro), Propostas 65 e Propostas 66 (São Paulo), Vanguarda Brasileira (Belo Horizonte, 1966) e o happening PARE, comandado por Mário Pedrosa na Galeria G- 4.

Ficha Técnica do evento Nova Objetividade Brasileira:

Obras de Nova Objetividade Brasileira: (4) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (5)

  • ALVARADO, Daisy Valle Machado Peccinini de. Figurações Brasil anos 60: neofigurações fantásticas e neo-surrealismo, novo realismo e nova objetividade brasileira. São Paulo: Edusp / Itaú Cultural, 1999.
  • DUARTE, Paulo Sérgio. Anos 60: transformações da arte no Brasil. Rio de Janeiro: Lech, 1998.
  • DUARTE, Paulo Sérgio. Hélio Oiticica: a Tropicália além da forma. In: DUARTE, Paulo Sérgio; NAVES, Santuza Cambraia (orgs.). Do samba-canção à Tropicália. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Faperj, 2003.
  • FAVARETTO, Celso. A Invenção de Hélio Oiticica. São Paulo: Edusp, 1992. 234 p. (Texto & arte, 6).
  • ZANINI, Walter (Coord.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto Moreira Salles: Fundação Djalma Guimarães, 1983. v.2.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • NOVA Objetividade Brasileira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento81894/nova-objetividade-brasileira-1967-rio-de-janeiro-rj>. Acesso em: 15 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7