Artigo da seção eventos O Sapato do meu Tio

O Sapato do meu Tio

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioO Sapato do meu Tio: 21-09-2005
Local de realização: (Brasil / Bahia / Salvador) | Instituição de realização: Teatro do Goethe-Institut
Tipo do evento: espetaculo

Análise

A combinação entre o teatro sem diálogo verbal e a arte da palhaçaria caracteriza o espetáculo O Sapato do meu Tio, um dos mais importantes do teatro na Bahia nos anos 2000. Protagonizado pelos atores Lúcio Tranchesi e Alexandre Luís Casali, sob direção de João Lima, o trabalho de trajetória longeva mostra as glórias e desventuras do ofício do riso, através da personificação do artista mambembe que leva a vida na estrada em cima de uma velha carroça vestido de palhaço, usando sapatos enormes e a indefectível máscara de nariz vermelho.

O foco central da trama é a relação entre um Tio (Lúcio Tranchesi), palhaço esquecido pelo público, mas orgulhoso de sua arte, e seu Sobrinho (Alexandre Luís Casali), que tenta aprender o ofício. Não é um convívio fácil. O mestre não tem mais plateia nem dinheiro no bolso e carrega nas costas a responsabilidade pelo sustento do jovem companheiro de estrada. O relacionamento se desgasta, mas também reacende em Tio a esperança de ver a sua arte ser perpetuada nas ações do seu discípulo.

Na análise do ator Alexandre Luís Casali, o texto sem palavras de O Sapato do meu Tio pode ser compreendido como um diálogo de corpos, de intenções. O roteiro se inspira em características da peça O Menor quer Ser Tutor (1990), de Peter Handke (1942), dentre as quais o aprofundamento de questões existentes entre o mestre e o aprendiz, o velho e o novo, o ensinar e o aprender.

A direção evita forçar um ritmo mais veloz às ações presentes na peça, valorizando aspectos que dimensionam um tempo mais desacelerado, como a repetição de gestos e a rotina dos personagens. O pesquisador Demian Moreira Reis aponta as três fontes técnicas que sustentam o espetáculo do ponto de vista da atuação: a fonte do ator, das práticas circenses e da arte do palhaço. Segundo ele:

A dramaturgia que se desenrola diante de nossos olhos é toda feita por meio de ações físicas. Não há uma palavra articulada. Apenas sons guturais emitidos pelo Sobrinho quando passeia pelas ruas divulgando o espetáculo do Tio. Essa estratégia irá concentrar o entendimento da peça na dança de ações percebidas pelo espectador. E aqui é apropriado indicar que esse aspecto aproxima a peça à palhaçaria, cuja comicidade depende em maior peso da apresentação de estruturas visuais.1

A cena inicial em que o Sobrinho come várias bananas que estão escondidas em sua roupa enquanto os espectadores vão ocupando os seus lugares na plateia, é um bom exemplo do tom de comicidade da encenação. Predomina um humor inocente que se mistura à condição dramática da vida do Tio e do Sobrinho. Ao ser construído sob a base técnica e dramatúrgica da arte do palhaço, o espetáculo amplia aspectos sociais, políticos e humanos já presentes na figura anárquica deste personagem tão popular.

O figurino tem assinatura de Rino Carvalho e busca a sobriedade e a praticidade de dois personagens itinerantes. Eles vestem roupas que são aproveitadas tanto no cotidiano quanto nas apresentações de seus números circenses, subvertendo o estereótipo do palhaço multicolorido e exagerado. A estética do figurino assimila influências dos filmes de Charles Chaplin (1889-1977) e Federico Fellini (1920-1993).

O cenário de Agamenon de Abreu segue a mesma linha conceitual e cria possibilidades práticas para facilitar o deslocamento do elenco em suas turnês. Um telão iluminado de azul, semicircular, instalado no fundo do palco dá um efeito de profundidade maior aos olhos do público e também um sentido de amplidão, de céu aberto que reforça o imaginário da rua, da estrada. A representação plástica da vida simples dos dois artistas é reforçada ainda na iluminação de Fábio Espírito Santo. A luz comunica a passagem de tempo e transita entre o tênue e a penumbra. O efeito de suas tonalidades resulta numa poética para a encenação e sugere nostalgia e solidão na trajetória dos personagens.

Assinada pelo diretor musical Jarbas Bittencourt, a trilha sonora composta para clarinete, fagote e violão exerce um papel decisivo na criação dos tons e climas das cenas. É composta originalmente para o espetáculo durante os ensaios com a presença dos músicos e dos dois protagonistas nos laboratórios propostos pela direção. Nesta fase preparatória são criadas sequências como a valsa do perna-de-pau, o treinamento do Sobrinho e toda a base musical da encenação inspirada em marchas, valsas e música circense. A trilha é posteriormente gravada no estúdio do TVV, em Salvador.

O espetáculo O Sapato do meu Tio marca um momento importante na carreira do diretor, ator e palhaço João Lima, que a partir desse projeto ganha visibilidade na imprensa baiana. Também celebra a vitoriosa parceria entre Alexandre Luís Casali (um estudioso da arte do palhaço no teatro, no circo e nas ruas) e Lúcio Tranchesi (um dos atores mais importantes da história das artes cênicas na Bahia).

A peça recebe seis indicações ao Prêmio Braskem de Teatro, em Salvador, conquistando os troféus de melhor ator (Lúcio Tranchesi), direção e espetáculo adulto do teatro baiano em 2005. Ao participar do projeto Sesc Palco Giratório, o elenco se apresenta em mais de 70 cidades brasileiras, numa extensa turnê que inclui quase todas as capitais do país. Além do êxito em seu país, a peça representa quatro vezes o Brasil em festivais e eventos internacionais, com passagens por Espanha, Chile, Guiana Francesa e República Dominicana.

Nota

1 REIS, Demian Moreira. A palhaçaria em O sapato do meu tio. Repertório – Revista Acadêmica de Teatro & Dança, n. 15, 2010, p. 165-175.

 

Ficha Técnica do evento O Sapato do meu Tio:

Fontes de pesquisa (6)

  • CASALI, Alexandre Luís. Alexandre Luís Casali. Salvador: [s.n.], 2012. Entrevista concedida a Marcos Uzel.
  • PROGRAMA do espetáculo O sapato do meu tio, Salvador, Teatro do Goethe-Institut, 21 set. 2005.
  • REIS, Demian Moreira. A palhaçaria em O sapato do meu tio. Repertório – Revista Acadêmica de Teatro & Dança, n. 15, 2010, p. 165-175. Disponível em: < http://www.portalseer.ufba.br/index.php/revteatro/article/viewFile/5222/3772 >. Acesso em: 26 nov. 2012.
  • SANTOS, Selma. Selma Santos. Salvador: [s.n.], 2012. Entrevista concedida a Marcos Uzel.
  • UZÊDA, Eduarda. Linguagem gestual. A Tarde, Salvador, 21 set. 2005, p. 2.
  • UZEL, Marcos. A noite do teatro baiano. Salvador: P55 Edições, 2010.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • O Sapato do meu Tio. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento635862/o-sapato-do-meu-tio>. Acesso em: 20 de Jan. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7