Artigo da seção eventos Merlin ou A Terra Deserta

Merlin ou A Terra Deserta

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioMerlin ou A Terra Deserta: 29-04-1993
Local de realização: (Brasil / Bahia / Salvador) | Instituição de realização: Teatro do Goethe-Institut
Tipo do evento: espetaculo

Análise

Merlin ou A Terra Deserta, do dramaturgo alemão Tankred Dorst (1925), é um dos espetáculos mais arrojados e significativos da história do teatro na Bahia. É lançado em 1993 numa versão dividida em duas partes, sendo a primeira exibida em abril e a segunda em junho do mesmo ano. Sua produção exige de toda equipe longa preparação que envolve o cumprimento de uma metodologia de pesquisa para a assimilação do conteúdo diversificado do projeto e da poética da encenação. O resultado cênico é dotado de atmosfera mágica em seus efeitos e dialoga com várias culturas. Signos do imaginário popular local e regional se misturam às influências europeia, africana, ameríndia, balinesa e indiana. Nesse mosaico cabem inspirações como o teatro épico, a crônica literária, a poesia, o circo e o teatro de revista, tendo o trabalho do ator como foco principal. Dirigida por Carmen Paternostro, a montagem baiana é uma das mais de 60 adaptações de Merlin pelo mundo.

A encenação se baseia na lenda da Távola Redonda, com histórias sobre o rei Arthur, os cavaleiros medievais e o mago Merlin. Os 17 artistas selecionados entre 80 candidatos passam por uma fase preparatória que inclui leituras, oficinas, palestras, ensaios e exibição de filmes. Formado por atores e dançarinos, o elenco escolhido reúne jovens profissionais e estudantes de teatro dentro de um coletivo de experiência de níveis diversos. Entre os integrantes estão profissionais que ao longo da carreira se tornam nomes expressivos da história do teatro baiano, a exemplo de Diogo Lopes Filho, Evelin Buchegger, Iami Rebouças, Lúcio Tranchesi, Marcelo Praddo e Paulo Pereira.

Um mês antes da estreia, Paternostro apresenta uma mostra desse processo a Tankred Dorst e a Ursula Ehler (que colabora com Dorst na dramaturgia da peça). O autor alemão declara em entrevista à imprensa baiana que essa adaptação é uma das mais autênticas da sua obra. Também compõem o projeto uma exposição fotográfica sobre o processo criativo do espetáculo, assinada por Maria Sampaio e Célia Aguiar, e um videoteatro de 30 minutos com direção de Mônica Simões.

A peça original, lançada na Alemanha em 1981, dura em torno de 14 horas, mas a versão de Paternostro, que além de dirigir participa da criação coreográfica, da iluminação e da trilha sonora do espetáculo, é bem mais enxuta: dura quatro horas. A encenadora opta por uma exibição de forma seriada distribuída em duas datas. A primeira parte, A Távola Redonda, tem duração de duas horas e meia e narra a história do mago Merlin, o filho do diabo com uma inocente mulher. A Távola representa o ideal de democracia que é destruído pelos próprios homens. A segunda parte, O Santo Graal, dura uma hora e meia e enfoca a busca mística pela redenção. Através da relíquia do Graal, o cálice sagrado que pertenceu a Jesus Cristo, Merlin faz a última tentativa de evitar a destruição do reino de Arthur. A frase “a civilização é um grande tapete sobre a terra deserta” sintetiza o pensamento de Dorst nesta imensa obra que reflete sobre a queda das utopias diante das ambições e fraquezas humanas.

Na pesquisa de doutorado em que estuda duas peças do seu repertório (Dendê & Dengo e Merlin ou A Terra Deserta) a também dançarina e coreógrafa Carmen Paternostro enfatiza o prazer de experimentar o subjetivo, o místico, e o propósito de criar uma encenação influenciada por várias culturas. “Este foi o direcionamento que mais afinou com a dimensão poética que se pretendia dar à montagem. Não celta, não baiana, não alemã e, no entanto, um pouco de nossas travessias em cada uma delas, acrescidas de outras expressões”. Em sua tese, Paternostro destaca algumas características de sua versão, dentre as quais a variedade de funções atribuídas aos objetos manipulados pelo elenco e o trabalho simultâneo entre corpo e voz.

Músicas da cultura celta, balinesa e indiana, dentre outras, contribuem para que a atmosfera sensorial acentue a intenção da diretora de investir na variedade de culturas. Gravada e/ou cantada ao vivo, a trilha sonora é um elemento integrador determinante nesta proposta. Em Merlin, a musicalidade oxigena o tempo longo da encenação, enriquece a dinâmica das coreografias e eleva o impacto de sequências, como a Batalha Final, a condenação da Rainha Ginevra e a busca do Santo Graal, entre outros momentos altos da trama.

A inspiração não realista da cenografia e do figurino criados por Sonia Rangel evoca fontes diversas, a exemplo dos filmes de cavalaria, das histórias em quadrinhos, do industrial, do artesanal, do popular e do primitivo. O reaproveitamento de objetos leva Rangel a valorizar plasticamente materiais como couro velho de cadeiras, calotas e câmaras de ar. Tudo isso sob uma iluminação de predominante tonalidade sépia, que contribui para a ambiência de passado imaginada pela diretora, que em parceria com Rita Lago produz para a encenação 400 efeitos de luz.

Desde o anúncio do projeto embrionário até a estreia, Merlin ou A Terra Deserta provoca grande repercussão midiática em Salvador, com sucessivas matérias na imprensa local sobre os passos do seu processo criativo. Após permanecer por seis meses no Teatro do Goethe-Institut (com 140 lugares), alternando as suas duas partes, a montagem ganha uma versão compilada e faz quatro apresentações no Teatro Castro Alves (com capacidade para cerca de 1.500 pessoas). Desta vez, condensa as duas partes em três horas e meia de duração. Na primeira edição do Troféu Bahia Aplaude o projeto Merlin é consagrado com dois prêmios nas categorias melhor direção e melhor espetáculo do teatro baiano em 1993. No ano seguinte, reafirma o seu prestígio ao exibir a sua versão sintética numa temporada de três semanas no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, onde encerra a sua trajetória.

Nota

1 PATERNOSTRO, Carmen. Dendê e dengo e Merlin: aspectos interculturais e pós-dramáticos. Tese de doutorado aprovada pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Salvador: UFBA, 2011.

Ficha Técnica do evento Merlin ou A Terra Deserta:

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • MERLIN ou A Terra Deserta. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento633962/merlin-ou-a-terra-deserta>. Acesso em: 18 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7