Artigo da seção eventos A Caverna

A Caverna

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioA Caverna: 05-1985
Local de realização: (Brasil / Bahia / Salvador) | Instituição de realização: Teatro Santo Antônio (Salvador, BA)
Tipo do evento: espetaculo | Classificação do evento: a classificar

A Caverna é uma peça produzida pela Companhia de Teatro da Universidade Federal da Bahia (Ufba), com direção de Paulo Dourado (1955) e apresentada no Teatro Santo Antônio, em Salvador, Bahia, em 1985. A peça apresenta estrutura incomum, sem narrativa dramática tradicional, e é o único texto para teatro escrito pelo músico, escritor e artista visual Walter Smetak (1913-1984). O espetáculo estreia um ano após o falecimento do autor e rende homenagem póstuma ao espírito inovador do artista suíço. Além da Companhia de Teatro da Ufba, a produção é apresentada pela Associação de Amigos de Smetak e pelo Instituto Nacional de Artes Cênicas (Inacen).

No texto que produz como introdução à peça, Smetak dá pistas sobre a natureza de sua escrita:

esta peça vacila entre o teatro e a música erudita meditativa. Ela deve alcançar a altura da realização de um concreto sonho. Ela já inclui o “âmbito” do ovo em questões acústicas. Não que o autor por esnobismo queira fazer um Teatro novo ou um som ou uma música nova, não. Mas sim ele sente surgir esta peça de um passado remoto, sem ser em absoluto um adepto do primitivismo. Esta peça tem surgido de observações e conscientização de temas e valores que andam um tanto despercebidos nesta falada contemporaneidade1.

A cenografia é despojada: uma esfera oca de papel de arroz (referência ao “ovo” sugerido nas indicações de cena feitas pelo autor como único cenário) e alguns elementos (um caixote grande de madeira pintada de preto e algumas cadeiras antigas) que contrastam com o espaço vazio do palco. Os quatro atores – Yumara Rodrigues (1935), Wilson Mello (1933-2010), Gideon Rosa (1958) e Iami Rebouças – interpretam facetas de um mesmo personagem, o “Aleph”. Os atores vestem-se de modo formal: calça preta, camisa branca e gravata, para homens; saia preta e camisa branca para mulheres. 

A trilha sonora é criada a partir de composições atonais e microtônicas pesquisadas pelo autor. A iluminação, criada pelo diretor, completa a concepção cênica do espetáculo: efeitos e colorações pouco convencionais, em contraste com a sobriedade visual de cenografia e figurino.

Segundo o diretor, “todos os personagens são a mesma pessoa. O diálogo se dá entre os muitos eus de uma personalidade estilhaçada”2. Os conflitos entre as diferentes facetas do personagem são resolvidos depois da morte, quando se realiza o reencontro da unidade. Há uma cena no espetáculo na qual os atores cobrem os rostos com meias finas e transportam-se metaforicamente para o além-túmulo. Depois de uma série de referências políticas fragmentadas, eles agem como se estivessem em uma manifestação e sugerem a criação do VPB, o partido político Vamos Plantar Batatas.

Em seguida, entram em um grande caixote negro com luzes fluorescentes. Ao atravessar essa passagem para o mundo dos mortos, descobrem a unidade perdida da personalidade. Durante o espetáculo, as roupas perdem o caráter formal: as gravatas são desamarradas, os cabelos das mulheres, despenteados, e os sapatos, abandonados. No fim da peça, os atores, vestidos apenas com roupas íntimas, abandonam o palco, e as luzes do teatro são acesas. O elenco não retorna à cena para receber os aplausos do público que, atordoado, sequer tem a certeza do fim do espetáculo. 

O texto da peça é proferido pelo elenco sem compromisso com a lógica tradicional do drama, seguindo o que o estudioso alemão Hans-Thies Lehmann (1944) denomina “superfícies dialógicas contrastantes”. Cada trecho do espetáculo é independente, aos quais são adicionados elementos significantes, gerando sentidos a partir de superposições, sem hierarquia dos elementos. Cada cigarro aceso em cena, cada carta de baralho apresentada, cada efeito especial de luz somam-se para que o espectador extraia a própria leitura. No programa da peça, o diretor afirma que o autor faz diversas indicações de cena: “em estilo de improvisação”, “tirar ao máximo o grande peso das coisas para se sentir o Universo das não coisas”. A partir delas, a direção opta pela ausência de um grande cenário e a busca pela definição conceitual de contemporaneidade, como “coisas acontecendo aqui e já”.

O espetáculo é bem-sucedido e rende Troféu Martim Gonçalves de Melhor Direção. A Caverna é um dos espetáculos mais marcantes da primeira fase da Companhia de Teatro da Ufba e está entre as produções que mais influenciam os jovens encenadores desse período.

Notas:

1. COSTA, Eliene Benício Amâncio; CHECCUCCI, Deolindo. Companhia de teatro da Ufba – 26 anos. Salvador: Secretaria de Cultura do Governo da Bahia: Escola de Teatro da Ufba, 2007.

2. A CAVERNA. Programa do espetáculo. Teatro Santo Antônio, Salvador, maio 1985.

Ficha Técnica do evento A Caverna:

Fontes de pesquisa (3)

  • A CAVERNA. Programa do espetáculo. Teatro Santo Antônio, Salvador, maio 1985.
  • COSTA, Eliene Benício Amâncio; CHECCUCCI, Deolindo. Companhia de teatro da Ufba – 26 anos. Salvador: Secretaria de Cultura do Governo da Bahia: Escola de Teatro da Ufba, 2007.
  • FRANCO, A. Teatro na Bahia através da imprensa: século XX. Salvador: COFIC, 1994

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Caverna. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento617006/a-caverna>. Acesso em: 22 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7