Artigo da seção eventos BR3

BR3

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioBR3: 22-03-2006
Local de realização: (Brasil / São Paulo / São Paulo)
Tipo do evento: espetaculo | Classificação do evento: a classificar

Histórico

A montagem de BR3, dirigida por Antônio Araújo (1966) e encampada pelo Teatro da Vertigem, marca a passagem da tematização do sagrado da Trilogia Bíblica, formada por Paraíso Perdido, 1992; O Livro de Jó, 1995; e Apocalipse 1,11, 2000. Dedica-se a uma abordagem mais aprofundada da identidade brasileira. Com dramaturgia de Bernardo Carvalho, é a quarta e, do ponto de vista da logística, a mais ousada encenação da companhia, que atua sobre as águas do rio Tietê, em São Paulo.

Marca e fundamento do trabalho da companhia, o processo colaborativo entre os seus componentes e o dramaturgo se dá, no caso de BR3, ao longo de um apurado estudo sobre o Brasil e uma viagem para pesquisa de campo. O Teatro da Vertigem visita as cidades de Brasiléia, no Acre, Brasília e o bairro Brasilândia, na periferia de São Paulo, a fim de buscar - nesses lugares cujos nomes contêm a palavra 'Brasil' - o material do novo espetáculo. A relação centro-periferia e os contrastes sociais do país evidenciam-se na montagem.

Navegando sobre a sujeira, a poluição e o mau cheiro do rio Tietê, o público acompanha a história de três gerações de uma família entre o fim dos anos 1950 e o dos 1990. Depois que o marido morre na construção de Brasília, Jovelina (Marília de Santis) vai para São Paulo tentar a vida e se envolve com o tráfico de drogas, tornando-se chefe do movimento e assumindo o codinome Vanda. Ela mede forças com o policial Dono dos Cães (Sérgio Siviero), que quer controlar a área. Os dois filhos, Helianay (Daniela Carmona) e Jonas (Roberto Audio), sofrem com a violência do meio e a morte de parentes. Jonas acredita que todos os seus morreram e foge para o Acre, onde seus filhos vão procurá-lo tempos depois.

Mariangela Alves de Lima (1947) completa a análise sobre o enredo: "O percurso pelo traçado ficcional - estrada, via de acesso, cruzamento e fim último de todos os dejetos de uma civilização infeliz - transcende tanto a geografia do rio paulistano quanto a história imediata da cultura que o margeia. A narrativa de BR-3, parente em primeiro grau da tragédia grega na estrutura e no desígnio universalizante, tem exatamente a formalização altissonante que lhe permite manter em equivalência o estímulo estético e o experimento perturbador da viagem pelo rio. Na condução da história há uma família cujo destino é assinalado, ou seja, inelutável. Brasília é o ponto de origem do trajeto, a periferia paulistana o lugar de exílio e sobrevivência na economia do tráfico de drogas e o extremo norte do País o ponto final onde a terceira geração se extingue. Por onde quer que trafeguem, esses personagens encontram, em cada etapa do percurso, oráculos significando, entre outras coisas, a tentação do alívio místico. Igrejas evangélicas na periferia paulistana, seitas esotéricas no Planalto Central do País, cultos indígenas revividos e reformados por caboclos do Norte, aparecem intercalados entre as peripécias decisivas do espetáculo".1

Dentro da embarcação de três pavimentos, em uma voadeira que navega a seu lado ou nas margens do rio Tietê, as cenas se passam alternando passado e presente. A crítica louva a proeza do grupo que supera os deslocamentos entre margens e barcos e consegue manter audíveis os diálogos e discursos dos intérpretes. O espaço da encenação, formado por complexos viários e viadutos, começa na Ponte do Piqueri e tem três pontos-chave:  o anel de ligação entre as rodovias Anhangüera e Bandeirantes é Brasília; a Ponte dos Remédios, Brasilândia; e o Cebolão, o Acre. Segundo a crítica Beth Néspoli: "O espectador acompanha a trajetória histórica de um país que investiu no 'progresso', mas não planejou o que fazer com os resíduos desse projeto. Fossem só resíduos químicos e orgânicos, bastaria uma viagem pelo rio Tietê para revelar esse erro histórico trágico. Mas o mérito de BR3 é revelar que tal degradação vai muito além. (...) O destino dessa gente, inexorável rumo à degradação, é representativo de uma tragédia nacional, intrínseca a um modelo de desenvolvimento".2

A montagem evita o tom espetacular que um trabalho desse porte facilmente sugere e demanda. O grupo cuida para operar com comedimento. Nesse sentido, o uso de garrafas de plástico e latas no figurino, por exemplo, tem função dupla: fugir ao deslumbramento e chamar a atenção para a relação entre o enredo e o espaço da encenação, experiência sensorial já bastante rica em signos. O espetáculo conquista o Prêmio Shell nas categorias de melhor diretor, melhor iluminação, para Guilherme Bonfanti (1956), e categoria especial, para o grupo, pelo projeto do BR3.

A crítica Silvana Garcia (1951) reflete sobre a dimensão alegórica do meio na obra do grupo: "Ao dispor o seu trabalho na escavação, na perfuração, no sangramento dos espaços problemáticos que fazem parte e são o Brasil, re-significando esses espaços da perspectiva do trabalho artístico, o Vertigem re-estabelece a relação do teatro com a polis. (...) O re-situamento do espectador, agora, não se faz mais, como em Brecht, por meio de uma inserção na história, uma história que exige concepção e discernimento ideológicos; essa história ganha fisicalidade à vista e no contato físico com o espectador. O fedor que exala do rio Tietê assenta-o na mais inescapável realidade".3

Notas

1. LIMA, Mariangela Alves de. Teatro da Vertigem empreende viagem transformadora pelo Rio Tietê. O Estado de S. Paulo, São Paulo, Caderno 2, 15 abr. 2006.

2. NÉSPOLI, Beth. O Brasil em poética seca e dolorida. O Estado de S. Paulo, São Paulo, Caderno 2, 28 abr. 2006. 

3. GARCIA, Silvana. Teatro político: verso e reverso. Folhetim, Rio de Janeiro, n. 22, jul-dez 2005. p. 69-76.

 

Ficha Técnica do evento BR3:

Fontes de pesquisa (6)

  • ÁUDIO, Roberto e FERNANDES, Sílvia (orgs.). BR-3: Teatro da Vertigem. São Paulo: Perspectiva, 2006.
  • GARCIA, Silvana. Teatro político: verso e reverso. Folhetim, Rio de Janeiro, n. 22, jul-dez 2005. p. 69-76.
  • LIMA, Mariangela Alves de. Teatro da Vertigem empreende viagem transformadora pelo Rio Tietê. O Estado de S. Paulo, São Paulo, Caderno 2, 15 abr. 2006.
  • NÉSPOLI, Beth. O Brasil em poética seca e dolorida. O Estado de S. Paulo, São Paulo, Caderno 2, 28 abr. 2006.
  • PONCIANO, Helio. O Brasil profano: a montagem. Bravo!, São Paulo, n. 97, out. 2005. p. 85.
  • SANTOS, Valmir. Rio é o "primeiro-ator" em BR3. Folha de S.Paulo, São Paulo, Ilustrada, 18 dez. 2005. p. 4.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BR3 . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento461003/br3>. Acesso em: 20 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7