Artigo da seção eventos A Pedra do Reino

A Pedra do Reino

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioA Pedra do Reino: 21-07-2006 | Data de término: 17-12-2006
Local de realização: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Instituição de realização: Teatro Anchieta
Tipo do evento: espetaculo

Depois das incursões de Antunes Filho (1929) pelo universo da tragédia grega nos primeiros anos de 2000, um antigo projeto de seu Grupo Macunaíma/Centro de Pesquisa Teatral (CPT), ganha forma: colocar no palco o universo ficcional de Ariano Suassuna (1927-2014), escritor e dramaturgo paraibano.

Baseada nos livros de Suassuna Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta e História do Rei Degolado nas Caatingas do Sertão: ao Sol da Onça Caetana, a montagem se organiza com base em conquistas estéticas e formais de outros espetáculos da companhia, lembrando particularmente a histórica encenação de Macunaíma, na gestualidade e na movimentação dos artistas.

O protagonista, Dom Pedro Dinis Quaderna, "cruzamento de rei e de palhaço", encarcerado numa prisão na Paraíba, na década de 1930, narra suas peripécias e aventuras que o levaram a ser perseguido e condenado pelo Estado Novo. O pai e o padrinho mortos; a seita sebastianista, o messianismo e os episódios do massacre do Reino Encantado de Pedra Bonita, em São José do Belmonte, Pernambuco; a guerra entre famílias pelo poder na Paraíba; o coronelismo e a sujeição do povo local - tudo se desenrola no discurso de Quaderna, que, segundo um corregedor, passa "a vida toda se fazendo de bufão". Sobre a interpretação desafiadora e complexa de Lee Taylor (1983), comenta Mariangela Alves de Lima (1974): "A tarefa difícil de alternar o delírio criador e profético ao desencanto espiritual cabe, na encenação, ao ator incumbido de representar o narrador. Lee Taylor é um intérprete excepcional pelo fôlego digno de um cantador experiente, pela inteligência com que modula as tonalidades e intenções do texto, sobretudo, pela capacidade de revestir a personagem de maturidade atemporal".1

No plano da encenação, a ausência de cenário reserva a atores, figurinos, adereços e à música a composição da memória de Quaderna, cuja representação e reconstrução no palco são os méritos da montagem. A porção predominantemente discursiva do espetáculo espelha-se na procissão de personagens das lembranças que o "rasgo epopéico" do protagonista demanda. O elenco, graças ao trabalho meticuloso dos anos anteriores com a voz e o coro da tragédia grega, expõe seu engenho na execução ao vivo da trilha musical. Elementos da cultura, da história e da política brasileira ganham relevo em uma atmosfera que emula a precariedade e a pobreza - para superá-las - ao enfatizar o aspecto artesanal dos objetos de cena.

Ainda segundo a crítica Mariangela Alves de Lima, com o caráter memorialístico da montagem, "Antunes Filho optou por um formato em que a personagem-autor da história se sobrepõe aos episódios que testemunha. Em parte, essa escolha é determinada pela empatia absoluta com a perspectiva existencial que resume a finalidade do inquérito de Quaderna. Chamado a prestar contas, preparando-se para o encontro com a 'Morte que me imortalizará', o herói bufão deve resumir, à guisa de defesa, o credo estético em que se alicerça a obra artística".2

O espetáculo recebe os prêmios BRAVO! e da Associação Paulista de Críticos de Artes - APCA de melhor espetáculo de 2006.

Notas

1. LIMA, Mariangela Alves de. O herói Quaderna ajusta contas no palco. O Estado de S. Paulo, São Paulo, Caderno 2, 22 ago. 2006.

2. Ibidem.

Ficha Técnica do evento A Pedra do Reino:

Fontes de pesquisa (7)

  • ARIANO Suassuna. Texto Idelette Muzart Fonseca dos Santos, Wilson Martins, Carlos Newton Junior, Ligia Maria Pondé Vassallo, Millôr Fernandes, Marcos Vinicios Vilaça, Raduan Nassar; direção de edição Antonio Fernando De Franceschi; fotografia Eduardo Simões; colaboração Celso Furtado, Guel Arraes, Luiz Fernando Carvalho, Rogério Reis, Adam Sun, João Alexandre Barbosa, Maria Eugênia, Mariângela Alves de Lima, Rosana Tokimatsu, Marco Maciel, Moacyr Scliar, Luiz Santos. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2000. 203 p., il. p&b. (Cadernos de literatura brasileira, 10). 
  • LIMA, Mariangela Alves de. O herói Quaderna ajusta contas no palco. O Estado de S. Paulo, São Paulo, Caderno 2, 22 ago. 2006. 
  • NOGUEIRA, Maria Aparecida Lopes. Ariano Suassuna: o cabreiro tresmalhado. São Paulo: Palas Athena, 2002.
  • REVISTA Bravo!. CD-ROM com o conteúdo das edições 1 a 84 (1997 a 2004). São Paulo: Editora Abril, 2004.
  • SANTOS, Valmir. Antunes retoma o Brasil com Suassuna. Folha de S.Paulo, São Paulo, Ilustrada, 20 jul. 2006. p. 5.
  • FILHO, Antunes (dir.). A Pedra do Reino. Teatralização de Antunes Filho. São Paulo: SESC Consolação, 2006. [17 p.] Espetáculo realizado no período de 21 jul. a 17 dez. 2006. 
  • MILARÉ, Sebastião. Antunes Filho e a dimensão utópica. São Paulo: Perspectiva, 1994. 287 p.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Pedra do Reino. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento458577/a-pedra-do-reino>. Acesso em: 20 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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