Artigo da seção eventos Édipo Rei

Édipo Rei

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioÉdipo Rei: 12-05-1949
Local de realização: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Instituição de realização: Teatro de Santa Isabel
Tipo do evento: espetaculo | Classificação do evento: a classificar

Histórico
Édipo Rei, de Sófocles, montagem feita pelo Teatro do Estudante de Pernambuco, com a direção de Hermilo Borba Filho (1917-1976), é uma das primeiras encenações modernas de uma tragédia grega no Brasil. Com o espetáculo, Hermilo Borba Filho ratifica e aprofunda seu interesse pela representação do trágico, um dos traços definidores de seu empenho pela modernização do teatro nordestino.

Essa realização do Teatro do Estudante de Pernambuco - TEP está diretamente associada ao nome de Eros Martim (1919-1973), pernambucano radicado no Rio de Janeiro desde o início dos anos 1940, mas que, na ocasião da montagem de Édipo Rei, se encontra no Recife ministrando um curso de teatro de bonecos. Assinando Eros Gonçalves, ele cria as máscaras, os figurinos e os cenários. Além disso, em parceria com Hermilo Borba Filho e o poeta José Laurênio de Melo, é responsável pela tradução da peça de Sófocles, "feita sobre as 3 mais autorizadas edições em língua inglesa".1 Segundo Luiz Maurício Carvalheira, Martim Gonçalves, posteriormente conhecido como encenador, professor e crítico teatral, ajuda ainda na direção dos atores.2 Em sua coluna no jornal recifense Folha da Manhã, Hermilo Borba Filho reconhece a contribuição fundamental de Martim Gonçalves na elaboração do espetáculo: "Do cenário, das roupas e das máscaras do Coro [...] encarregou-se um artista da competência do pintor Eros Gonçalves, um 'familiar' dessa tragédia, se assim podemos dizer, pois a viu em ensaios e em representação, em Londres, pelo célebre Laurence Olivier".3

Nas semanas que antecedem a estreia de Édipo Rei, o TEP promove, com patrocínio da Diretoria de Documentação e Cultura, órgão da Prefeitura do Recife, um ciclo de palestras sobre o gênero trágico. Além de Hermilo Borba Filho, fazem conferências Gastão de Holanda, Martim Gonçalves e José Laurênio de Melo. A exposição de Borba Filho, discutindo o papel do coro na tragédia grega, é publicada, em quatro partes, na Folha da Manhã.

Sem se preocupar com a fidelidade histórica, Hermilo Borba Filho constrói uma cena de grande teatralidade, inspirada no imaginário da Grécia clássica. A atitude hierática dos atores impõe uma declamação sóbria e firme. Somente o coro usa máscaras, os demais intérpretes compõem seus personagens com perucas, barbas postiças e forte maquiagem. O objetivo é estabelecer "um contraste entre o lado impessoal do comentário coral e as paixões individuais", explica Martim Gonçalves, na mesma entrevista em que esclarece a concepção visual da montagem: "Foi escolhida a época arcaica como base para a confecção do cenário e trajes criando uma atmosfera propícia à tragédia, através de um colorido ao mesmo tempo vivo e soturno".4

O espetáculo é recebido com entusiasmo pela imprensa local. O escritor Andrade Lima Filho, por exemplo, afirma: "Não sei de audácia maior. O cometimento desse Prometeu feliz, que é Hermilo Borba Filho, parecia a muitos uma provocação à cólera dos deuses, ciosos também dos segredos dos seus gênios e heróis. Daí a sensação de insegurança com que entrei no Santa Isabel. Aquilo era de fato uma temeridade. Mas confesso que, aos poucos, essa sensação foi se transformando, com o desenrolar da peça, para tornar-se no fim uma inequívoca emoção de triunfo. De triunfo total, que os senões nem apagam nem reduzem. [...] Estamos nos civilizando, não há dúvida. Pelo menos nos domínios da arte. E isso já é alguma coisa que está a exigir uma palavra de estímulo, de encorajamento, de aplauso".5 Valdemar de Oliveira (1900-1977), por sua vez, considera a montagem um "êxito autêntico", "uma das mais belas conquistas na campanha [...] pela vitória do grande teatro em Pernambuco".6

No fim de 1949, ano em que Ziembinski assina a direção de cinco produções pernambucanas, Júlio Barbosa, crítico do Diário de Pernambuco, elege Édipo Rei como "o melhor espetáculo do ano" no Recife. Festejando o pioneirismo do TEP, ao encenar essa "grande tragédia" de Sófocles com procedimentos do teatro moderno, o jornalista elogia particularmente o trabalho de Borba Filho, por ter montado a peça "com minúcia de detalhes, sobretudo na parte interpretativa, arrancando de seus pupilos o máximo de compenetração e respeito à arte".7

Com a encenação de Édipo Rei, o conjunto liderado por Hermilo Borba Filho sobe pela primeira vez ao palco do tradicional Teatro de Santa Isabel. Até então, defendendo a "democratização da arte cênica brasileira",8 os trabalhos do TEP são apresentados, quase sempre de graça, em teatros menos prestigiados, bairros, centros operários, escolas, ou mesmo em parques, ao ar livre. Tal mudança é motivada pelas dificuldades financeiras enfrentadas pelo grupo nos dois anos anteriores. Todavia, a despeito da ótima acolhida da crítica especializada, não leva grande número de espectadores ao teatro. Após sete récitas, é retirado de cartaz. "Enorme sucesso artístico e enorme fracasso financeiro", admite Hermilo Borba Filho, na Folha da Manhã.9

Notas

1. BORBA FILHO, Hermilo. Pela primeira vez, no Brasil, a representação de Édipo Rei, de Sófocles. In: coluna Fora de Cena, Folha da Manhã, Recife, 6 maio 1949. Apud CARVALHEIRA, Luiz Maurício. Por um teatro do povo e da terra: Hermilo Borba Filho e o Teatro do Estudante de Pernambuco. Prefácio Maximiniano Campos. Recife: Fundarpe, 1986. p. 196.

2. Cf. CARVALHEIRA, Luiz Maurício. Op. cit., p. 197.

3. BORBA FILHO, Hermilo. Amanhã uma tragédia. Folha da Manhã, Recife, 11 maio 1949. Coluna Fora de Cena.

4. GONÇALVES, Martim. Édipo. Diário de Pernambuco, 3 abr. 1949. Apud CARVALHEIRA, Luiz Maurício. Op.cit., p. 197-198.

5. LIMA FILHO, Andrade. Édipo Rei. Folha da Manhã, 18 maio 1949. Apud CARVALHEIRA, Luiz Maurício. Op.cit., p. 199.

6. OLIVEIRA, Valdemar. Diário da Noite, 13 maio 1949. Apud CARVALHEIRA, Luiz Maurício. Op.cit., p. 199.

7. BARBOSA, Júlio. Os melhores (III). Diário de Pernambuco, 31 dez. 1949. Apud CARVALHEIRA, Luiz Maurício. Op.cit., p. 200.

8. BORBA FILHO, Hermilo. 2005 [1964]. Diálogo do Encenador - Teatro do povo, Mise-en-scène e A donzela Joana. Prefácio Luís Augusto Reis. Recife: Edições Bagaço e Editora Massangana. p. 23.

9. _________________. Édipo mais uma vez. Folha da Manhã, Recife, 27 maio 1949. Coluna Fora de Cena.

 

Ficha Técnica do evento Édipo Rei:

Fontes de pesquisa (4)

  • BORBA FILHO, Hermilo. Diálogo do Encenador - Teatro do povo, Mise-en-scène e A donzela Joana. Prefácio Luís Augusto Reis. Recife: Edições Bagaço e Editora Massangana, 2005 [1964].
  • BORBA FILHO, Hermilo. O coro na tragédia grega. Folha da Manhã, Recife, 18 abr. 1949, 20 abr. 1949, 25 abr. 1949 e 3 maio 1949. Coluna Fora de Cena.
  • CARVALHEIRA, Luiz Maurício. Por um teatro do povo e da terra: Hermilo Borba Filho e o Teatro do Estudante de Pernambuco. Prefácio de Maximiniano Campos. Recife: Fundarpe, 1986. 212 p.
  • REIS, Luís Augusto da Veiga Pessoa. Fora de cena, no palco da modernidade: um estudo do pensamento teatral de Hermilo Borba Filho. 457 f. Tese (Doutorado em Letras) - Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2008.

Como citar?

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  • ÉDIPO Rei. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento405748/edipo-rei>. Acesso em: 07 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7