Artigo da seção eventos A Viagem

A Viagem

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioA Viagem: 04-09-1972
Local de realização: (Brasil / São Paulo / São Paulo)
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A Viagem , 1972 , Acácio Vallim Júnior
Registro fotográfico Acácio Ribeiro Vallim Júnior

Histórico

Montagem baseada na epopéia Os Lusíadas, de Luís de Camões, adaptada por Carlos Queiroz Telles (1936-1993) num ousado empreendimento de Ruth Escobar (1936), com encenação de Celso Nunes (1941).

A produção aproveita o fato de o interior do Teatro Ruth Escobar estar destruído em consequência da cenografia criada para a encenação de O Balcão, de Jean Genet, direção do argentino Victor García, em 1969, para propor uma nova e inusitada montagem, ligada às comemorações do sesquicentenário da independência do Brasil.

Carlos Queiroz Telles realiza uma primeira roteirização do poema de Luís de Camões que é testada durante um curto período de ensaios, a partir do qual é elaborada a forma final das cenas, que integram, em íntima conexão, soluções coreográficas e cenográficas, além da contribuição dos atores. A ambientação cênica criada por Helio Eichbauer (1941) mostra grande poder simbólico: no porão está localizada a partida das naus, recriando uma Lisboa habitada por jograis e saltimbancos medievais misturados às figuras renascentistas do cortejo de Vasco da Gama. Nos espaços intermediários surgem o Velho do Restelo, os episódios do Cabo da Boa Esperança, Melinde, Mombaça, Calecut, enquanto em trapézios altíssimos aparecem os deuses e deusas do Olimpo.

As cenas de batalhas de conquista sobre os nativos são marcantes: os soldados, munidos de metralhadoras, comportam-se como máquinas de guerra, repetindo frases como "rompe-corta-arrasa-talha". A chegada à Índia desvenda um inesperado ambiente, multicolorido e habitado por seres andróginos, criando um clima nirvânico: uma Índia totalmente imaginária, sensual e mística, projeção de sonho de uma civilização cristã cujos estreitos horizontes começam a se alargar. Ao final de sua aventura, Vasco da Gama é aprisionado por Vênus num globo metálico - reprodução tridimensional da ilustração de Da Vinci para a escala estabelecida por Vitrúvio - içado para o espaço infinito.

A crítica Ilka Marinho Zanotto (1930) escreve um longo comentário sobre a encenação, publicado no Brasil e na revista nova-iorquina The Drama Review: "O elogio máximo que se pode fazer ao espetáculo é dizer que ele consegue transpor de modo admirável a maior concepção literária da língua portuguesa, sem traí-la; a partir de uma visão crítica contemporânea, que resulta de uma leitura aguçadíssima do próprio texto camoniano, ele recria o complexo universo renascentista através da interação em proporções áureas do texto, interpretações, cores, luzes, espaços cênicos, sons e ritmos; elementos que confluem para a síntese harmônica de um movimento extraordinariamente amplo e majestoso que perpassa o todo e a tudo envolve como uma grande sinfonia".1

Notas

1. ZANOTTO, Ilka Marinho. A Viagem. In: ANUÁRIO das Artes São Paulo, 1972. São Paulo: Associação Paulista de Críticos de Artes, 1973. p. 57-60. Republicado em inglês no The Drama Review, New York, v. 17, n. 2, p. 66-72, jun. 1973.

 

Ficha Técnica

Representação (1)

Fontes de pesquisa (3)

  • A VIAGEM. Direção Celso Nunes. São Paulo, 1972. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro Ruth Escobar em setembro de 1972.
  • FERNANDES, Rofran. Teatro Ruth Escobar: 20 anos de resistência. São Paulo: Global, 1985.
  • ZANOTTO, Ilka Marinho. A Viagem. In: ANUÁRIO das Artes São Paulo, 1972. São Paulo: Associação Paulista de Críticos de Arte, 1973. p. 57-60.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Viagem. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento399230/a-viagem>. Acesso em: 27 de Mar. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7