Artigo da seção eventos Primeiras Estórias

Primeiras Estórias

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioPrimeiras Estórias: 06-06-1992
Local de realização: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte)
Tipo do evento: espetaculo

Histórico
A peça Primeiras Estórias, baseada na obra homônima do mineiro Guimarães Rosa (1908-1967), é dirigida por João das Neves (1934) e encenada em Belo Horizonte. A montagem surge de um processo de criação espontâneo, quando o diretor é convidado para ministrar uma Oficina de Formação de Atores no Parque Ecológico Lagoa do Nado, durante a gestão de Berenice Menegale na Secretaria Municipal de Cultura.

O espetáculo estreia em 06 de junho de 1992, ficando em cartaz durante todo o mês. A montagem obteve grande repercussão, tanto por sua dimensão estética, quanto por sua proposta espacial: a encenação ocorre em um parque ecológico afastado da área central da cidade, possibilitando, assim, um duplo deslocamento ao espectador não acostumado com apresentações teatrais fora dos espaços formais. De acordo com João das Neves, "a cidade percebeu que espetáculos importantes podem acontecer fora dos espaços tradicionais".1

Inicialmente convidado apenas para ministrar a oficina, a encenação não é previamente planejada pelo diretor. Mas, diante do bom desenvolvimento do processo de trabalho, a Secretária de Cultura sugere a montagem da peça. O texto, adaptado pelo próprio diretor, seleciona dez dos vinte e um contos da obra original, resultando nas seguintes cenas: A Terceira Margem do Rio, Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha, A menina de Lá, Famingerado, Espelho, Nenhum Nenhuma, Irmãos Dagobé, Luas de Mel, Substância e Veredas Mortas.

Aproveitando a extensão do parque, as cenas ocorrem em diferentes locais e com variadas durações. Apesar de algumas delas unificarem o espetáculo, em vários momentos o público é levado a escolher qual cena irá assistir, uma vez que muitas delas são encenadas ao mesmo tempo, chegando a ter atividades em quatro pontos do parque simultaneamente.

Os cenários foram montados em vários espaços e intercalavam cenas dentro da sede do Centro Cultural, ao ar livre, na margem da lagoa, dentro de piscina desativa, entre outros. Haviam cenas que apenas dois espectadores poderiam acompanhar, como era o caso de Nenhum, nenhuma que transcorria dentro de um quarto. Outras, como Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha, tinham capacidade para mais de 300 pessoas.

Entre as diversas cenas e os múltiplos espaços é construído um mosaico da obra de Guimarães Rosa, articulando a poesia do autor ao espaço não convencional de criação artística. “O teatro não nasceu em espaços fechados: nasceu nas festas populares, as dionisíacas, onde as pessoas se embebedavam, amavam, cantavam, dançavam. Hoje, acho que o teatro está entediado de imitar a televisão e procura agora voltar às suas origens, arrebentando os espaços, reencontrando sua verdadeira forma de ser teatro, uma forma mais vigorosa, muito mais bonita”.2

Da perspectiva da estética cênica são utilizados elementos diferenciados, como dança-teatro, bonecos, sons e elementos visuais. A trilha é composta pelo argentino Rufo Herrera (1933), que constrói, com os atores, instrumentos elaborados a partir de sucata e material reciclável. A preparação vocal é realizada pelo barítono Eládio Perez Gonzalez e o trabalho corporal por Mônica Medeiros, na época integrante do grupo Oficina Multimédia. Os cenários, figurinos e adereços são também produzidos pelos integrantes do grupo, sob a coordenação do diretor. Os vinte e seis atores da peça eram artistas amadores da cidade, que se profissionalizaram no processo de montagem, evento bastante comum na trajetória de João das Neves.

A peça obteve grande repercussão da crítica especializada e apresentações com presença maciça do público. Sua temporada contribui para colocar o Parque Fazenda Lagoa do Nado no eixo artístico-cultural da cidade e ampliar a apropriação da obra de Guimarães Rosa em seu estado natal. A montagem belo-horizontina é assistida pelos professores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Suzi Sperber e Luís Otávio Burnier, que convidaram o diretor para realizar uma nova montagem na cidade paulista de Campinas, com os formandos do curso de Artes Cênicas da universidade. O processo de criação tem início em março de 1995 e sua estreia ocorre em novembro do mesmo ano. O processo uniu professores da Unicamp e artistas convidados pelo diretor. Durante a montagem foram realizadas diversas atividades para inserir os atores no universo do escritor mineiro. Utilizou-se o mesmo roteiro, adaptando ao novo espaço cênico: o Parque Ecológico da Fazendo Mato Dentro, também localizado em Campinas. De acordo com Alda Maria Quadros do Couto, o "parque, na concepção internacionalmente reconhecida de Burle Marx, traça uma linha de interligação entre o rural e o urbano, a própria face e o maior desafio da sociedade e da cultura brasileiras: conviver com esses extremos, sobreviver e evoluir".3

O espaço novamente foi o elemento central e norteou toda a construção cênica. A montagem tinha por objetivo ressaltar as ambiguidades do ambiente e proporcionar ao público uma experiência sensorial. Sobre a encenação de Campinas, João das Neves pondera: "E o fenômeno se repetiu e foi interessante porque o espetáculo não só teve sempre muita gente, apesar de ser afastado do centro, como gente de todas as idades, desde crianças até idosos. Era maravilhoso ter ali um menino de 8 anos vendo Guimarães Rosa e curtindo ver Guimarães Rosa".4 O espetáculo produzido pelos alunos da universidade paulista também obteve grande sucesso. Em 1996, realizou nova temporada em Campinas e participou do Festival de Teatro de Belo Horizonte.

Notas
1 CARDOSO, Marisa. A lagoa é do povo. Istoé Minas, Belo Horizonte. 08 jul. 1992.
2 Projeto Primeiras Estórias. Campinas, 1995.
3 idem
4 NEVES, João das Neves apud GARCIA, Silvana (org.). Odisséia do teatro brasileiro. São Paulo, Senac, 2002. p.166

Ficha Técnica do evento Primeiras Estórias:

Midias (2)

Itaú Cultural

Itaú Cultural

Fontes de pesquisa (13)

  • GUIMARÃES Rosa na Lagoa no nado. Diário da Tarde, Belo Horizonte. 06 de junho 1992. Não catalogado
  • OBRA de Guimarães Rosa em discussão. Diário da Tarde, Belo Horizonte. 15 de maio 1992. Não catalogado
  • OPÇÕES variadas nos palcos. Diário da Tarde, Belo Horizonte. 08 de junho 1992. Não catalogado
  • PRIMEIRAS estórias. Projeto encerra primeira fase. Diário da Tarde, Belo Horizonte. 6 a 12 de junho 1992. Não catalogado
  • Programa do espetáculo “Primeiras Estórias”. Campinas, 1995. (Acervo do autor). Não catalogado
  • Projeto Primeiras Estórias. Belo Horizonte, 1992. (Acervo do autor). Não catalogado
  • Projeto Primeiras Estórias. Campinas, 1995. (Acervo do autor). Não catalogado
  • GARCIA, Silvana (Org.). Odisséia do teatro brasileiro. São Paulo, Senac, 2002. 792.0981 G216o
  • HENRIQUE, Marilia Gomes. O realismo-encantatório de João das Neves. Dissertação (Mestrado) - Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas - IA/Unicamp. Campinas, 2006. Não catalogado
  • NEVES, João das. A Análise do texto teatral. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Europa, 1997. Não catalogado
  • NEVES, João das. João das Neves. Lagoa Santa: [s.n.], 2013. Entrevista concedida a Natália Cristina Batista. Não catalogado
  • NEVES, João das. Ciclo de palestras sobre teatro brasileiro, 5. Rio de Janeiro: INACEN, 1987. Não catalogado
  • CARDOSO, Marisa. A lagoa é do povo. Istoé Minas, Belo Horizonte. 08 de julho de 1992. Não catalogado

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PRIMEIRAS Estórias. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento397960/primeiras-estorias>. Acesso em: 27 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7