Artigo da seção eventos Auto da Compadecida

Auto da Compadecida

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioAuto da Compadecida: 11-03-1957
Local de realização: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Instituição de realização: Teatro Natal
Tipo do evento: espetaculo | Classificação do evento: a classificar

Histórico

Peça de Ariano Suassuna (1927-2014) que se utiliza, em grande medida, de conteúdos populares. Encenada em 1956 pelo Teatro Adolescente de Recife, obtém êxito imediato no sul do país após a apresentação do grupo, em 1957, no Rio de Janeiro, no Festival de Teatros Amadores do Brasil, coordenado por Paschoal Carlos Magno (1906-1980).

Escrita por Ariano Suassuna em 1955, é a mais festejada peça do líder do Movimento Armorial, a que mais fundo deita raízes no romanceiro popular. Suas matrizes são folhetos de cordel e um entremez (pequena farsa em um ato) do próprio autor, O Castigo da Soberba. O enredo apresenta personagens corruptas, levadas a um julgamento no céu. Há hilariantes situações de embuste, como o testamento e o enterro do cachorro, o gato que defeca dinheiro e a gaita mágica que ressuscita os mortos, temas multisseculares fornecidos pelos folhetos ao autor. Entre as figuras destacam-se João Grilo e Chicó, amarelinhos que espertamente invocam Nossa Senhora como advogada de ambos. Opondo Deus e o Diabo, o bem e o mal, e costurado com humor popular e uma série de achados teatralmente bem construídos, o texto possui alta comunicabilidade.

O enorme sucesso alcançado no Rio de Janeiro leva o encenador Hermilo Borba Filho (1917-1976), antigo companheiro de Ariano no Teatro Popular do Nordeste, a realizar uma encenação da peça em São Paulo.

Produzida pelo Studio Teatral de Nélson Duarte, a encenação ocorre no Teatro Natal, reunindo um elenco misto de jovens iniciantes e atores de televisão. Destacam-se, entre eles, Nélson Duarte, Milton Ribeiro, Felipe Carone, Ceci Pinheiro e Córdula Reis. Décio de Almeida Prado (1917-2000) comenta a montagem: "Seria fácil deixarmo-nos contagiar pelo entusiasmo gerado por uma bela peça e um simpático espetáculo, afirmando que a encenação do Teatro Natal esteve perfeita. Não é verdade. Há duas maneiras ideais de encenar A Compadecida: ou com total ingenuidade (parece que foi esse o segredo do espetáculo pernambucano que se apresentou recentemente no Rio, tirando o primeiro prêmio de um concurso entre amadores); ou com técnica refinadamente profissional, chegando ao primitivo por intermédio do saber artesanal. A encenação de Hermilo Borba Filho, embora com muitas qualidades, teve um pouco o defeito de ficar entre uma coisa e outra. O texto estava compreendido, a atmosfera geral certa, mas os atores ficaram em relativa liberdade. Os já de experiência de palco, salvaram-se brilhantemente: Milton Ribeiro, de grande simplicidade e dignidade, como Jesus; Córdula Reis, Felipe Carone e, sobretudo, Armando Bógus (19330-1993), em admirável progresso, excepcional João Grilo. Os outros, em sua maioria, eram estudantes e deixaram-no perceber".1

Entusiasmando a crítica e o público, a peça vai conhecer, em seguida, novas produções, tais como a realizada, em 1959, pelo Teatro Paulista de Comédia, destacando Agildo Ribeiro como João Grilo e cenografia de Clóvis Graciano (1907-1988); e, no ano seguinte, a do Pequeno Teatro de Comédia, com direção de Ademar Guerra (1933-1993), que destaca Armando Bógus. São realizadas inúmeras encenações ao longo das décadas seguintes. Em 1987, o filme Os Trapalhões no Auto da Compadecida oferece uma visão muito divertida e competente da peça. O texto é adaptado para a televisão nos anos 1990, versão transposta para o cinema, numa excelente direção de Guel Arraes.

É patente o entusiasmo do crítico Miroel Silveira (1914-1988) ao comentar a primeira encenação em São Paulo: "A Compadecida é isso: a afirmação de que as velhas fórmulas do auto medieval e do romanceiro popular podem encontrar-se e produzir um novo resultado, uma experiência forte, legítima e contagiante. Mais do que no palco, é na platéia que se realiza o espetáculo de A Compadecida, quando vemos o público sofrer com os bons espezinhados, e rir da vitória final de tudo quanto é humanamente válido. (...) Ainda não agradecemos a Hermilo Borba Filho a tenacidade e o amor de alheio autor, num gesto dignificante de amizade e elevação profissional. (...) Só recentemente conseguiu encená-la, ao encontrar no Studio Teatral de Nélson Duarte o ambiente propício para a peça, que acabou conquistando enorme público".2

Notas

1. PRADO, Décio de Almeida. Teatro em progresso. São Paulo: Martins, 1964, p. 53-54.

2. SILVEIRA, Miroel. Auto da Compadecida. In: _____. A outra crítica. São Paulo: Símbolo, 1976. p. 249.

 

Ficha Técnica do evento Auto da Compadecida:

Fontes de pesquisa (6)

  • AUTO DA COMPADECIDA (Auto Sacramental Nordestino). Direção Hermilo Borba Filho. São Paulo, 1957. 1 folder. Programa do espetáculo, em 1957.
  • MAGALDI, Sábato. Panorama do teatro brasileiro. Rio de Janeiro: MEC / Funarte, 1962. 274 p.
  • MAGALDI, Sábato; VARGAS, Maria Thereza. Cem anos de teatro em São Paulo (1875-1974). São Paulo: Senac, 2000. 454 p.
  • PRADO, Décio de Almeida. Teatro em progresso. São Paulo: Martins, 1964. 316 p.
  • SILVEIRA, Miroel. A outra crítica. São Paulo: Símbolo, 1976. 255 p.
  • VASSALO, Ligia. O Grande Teatro do Mundo. In: Ariano Suassuna, Cadernos de Literatura Brasileira. São Paulo, Instituto Moreira Salles, novembro de 2000.   

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • AUTO da Compadecida. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento395738/auto-da-compadecida>. Acesso em: 23 de Mai. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7