Artigo da seção eventos Vestido de Noiva

Vestido de Noiva

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioVestido de Noiva: 14-07-1988 | Data de término: 17-12-1988
Local de realização: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Instituição de realização: Teatro Joaquim Cardozo
Tipo do evento: espetaculo

Histórico
Montagem didática do Curso de Formação do Ator, com direção de João Denys (1957), Vestido de Noiva destaca-se na cena recifense pelo uso de espaço não convencional, constituindo um espetáculo de caráter ritual, com público restrito a 20 pessoas por sessão.

Realizado pelos alunos do 3º período do Curso de Formação do Ator (CFA), na disciplina Montagem I, Vestido de Noiva ocupa quase todas as dependências da casa nº 157 da rua Benfica, no bairro da Madalena, na qual funcionam o Departamento de Assuntos Culturais (DAC), o CFA e o Teatro Joaquim Cardozo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O fio condutor da encenação de João Denys é a própria casa em que o espetáculo ocorre: "Duas noivas [...] estão vagando como fantasmas procurando fantasmas. [...] A casa antiga, com as paredes impregnadas de segredos, como se permanecessem ensopadas de um perfume antigo. As portas e os vidros das janelas exalando desejos inconfessos. Em cada canto, estilhaços de um passado. Partículas do imaginário de todos nós".1

O casarão se torna um espaço de memória, e o espetáculo se configura como uma espécie de rito de evocação, do qual o espectador faz parte, assumindo o papel de voyeur dessa cerimônia para iniciados. Ao mesmo tempo que, no âmbito da ficção, esse espaço revive os fantasmas, as alucinações e as histórias pessoais de suas antigas moradoras, Madame Clessy e, sobretudo, Alaíde, ele também evoca a própria história da casa, no plano do real, desde a antiga Escola de Belas Artes (EBA) até a recente trajetória do CFA, em processo de espelhamento contínuo entre ficção e realidade.

Outra ideia nuclear de Vestido de Noiva é o trabalho sobre o mito. Retoma-se a figura arquetípica do homem que é o pivô das disputas e do infortúnio das irmãs. A imagem mítica masculina, fálica, se corporifica em cena por intermédio de um prólogo, no qual cinco parcas ocupam o pequeno palco do Teatro Joaquim Cardozo, local em que a peça se inicia. Uma parca borda o monograma de Alaíde e Pedro, outra faz o buquê da noiva, enquanto as demais parcas, vestidas como prostitutas, banham um jovem desnudo dentro de uma bacia. A ação começa no atropelamento de Alaíde: o som da batida vem de fora do recinto. O público, então, é conduzido aos demais cômodos da casa e, a partir daí, acompanha de muito perto o desenvolvimento do espetáculo.

Assim como a casa, boa parte dos móveis tem uma história que justifica sua inclusão na peça, como, por exemplo, 20 cadeiras antigas do próprio estabelecimento, revestidas de couro, ou o conjunto de duas mesas e oito cadeiras do Bar Savoy (famoso ponto da boemia recifense, frequentado por artistas e intelectuais), utilizados nas cenas do bordel.

Cada recinto da casa serve para diversas cenas, bastando a variação da disposição dos móveis e do posicionamento do público para se criarem outros espaços. Além disso, cada ambiente é caracterizado por um cheiro diferente: rosas para o bordel; éter para a sala de cirurgia; cera de velas, lírios e angélicas para o velório. À medida que os planos de memória, alucinação e realidade se misturam, os espaços da casa ficam impregnados com o cheiro dessas essências. O espetáculo procura oferecer diferentes sensações ao espectador, seja por meio de um contato mais próximo com a cena, seja pelo estímulo de outros sentidos, como o olfativo ou o tátil.

A iluminação se caracteriza pelo contraste. Nas cenas de memória e de alucinação, a luz é mais escura, enquanto no plano da realidade ela é clara. A trilha sonora usa basicamente a música tema do filme E o Vento Levou..., que abre e finaliza o espetáculo, além de pontuar determinadas passagens, indicando a opção da encenação de enfatizar o melodrama e o kitsch.

Alguns personagens são interpretados por dois ou três atores, a exemplo de Alaíde, Lúcia, Pedro, Sr. Gastão, entre outros. Esses atores não dividem o mesmo personagem simultaneamente, mas o assumem em diferentes momentos do espetáculo. A única exceção é o namorado de Madame Clessy, que se desdobra em três atores ao mesmo tempo. Esse procedimento impede, de certo modo, que a plateia identifique o ator com o personagem, sublinhando a ideia de arquétipo. De maneira geral, o trabalho de direção se caracteriza pelo rigor formal, imprimindo ao espetáculo a dinâmica da engrenagem de relógio e aos atores, a função de peças dessa engrenagem.

Para o crítico Enéas Alvarez "a direção confiada a João Denys foi um exercício experimental de raríssima felicidade".2 Analisando o espetáculo, o poeta Jomard Muniz de Britto diz: "A concepção estético-ideológica de João Denys nos reaproxima da saudade de um antigo brinquedo, bonecas menores dentro de uma boneca-arquetípica, relembranças de uma Rússia talvez armorial, pré-Suassuna. Como se fosse um conjunto melodioso e melodramático de caixas dentro de caixas, contidas, articuladas, desabrochadas, reconstruídas, uma dentro de outras, uma em todas, múltiplos do UNO [...]. Tão matematicamente lúdicas. Tão inusitadamente simples. Tudo e nada enquanto matéria de memória, de cumplicidade, de possessividade. Corpos encobertos, velados e desvelando-se".3

Notas
1 DENYS, João. Uma osteossíntese da paixão. In: Curso de Formação do Ator/ UFPE. VESTIDO DE NOIVA. Direção João Denys. Programa do espetáculo apresentado no Teatro Joaquim Cardozo, Recife, de julho a dezembro de 1988.
2 ALVAREZ, Enéas. Vestido de noiva - crítica. Jornal do Commercio, Recife, p. 4, 30 set. 1988.
3 BRITTO, Jomard Muniz de. Bordel-Brasil revestido de noiva. O Galo, Natal, Fundação José Augusto / Companhia Editora do Rio Grande do Norte, ano 1, n. 11, jan. 1989, p. 17.

Ficha Técnica do evento Vestido de Noiva:

Espetáculos (20)

Fontes de pesquisa (9)

  • ALVAREZ, Enéas. Vestido de noiva - crítica. Jornal do Commercio, Recife, p. 4, 30 set. 1988.
  • BRITTO, Jomard Muniz de. Bordel-Brasil Revestido de Noiva. O Galo, Natal, ano 1, nº 11, p. 16-17, jan. 1989.
  • CADENGUE, Antonio. O CFA num espelho retrovisor. In: CURSO DE FORMAÇÃO DO ATOR/UFPE. Vestido de Noiva. Direção João Denys. Teatro Joaquim Cardozo/Rua Benfica, 157, Recife, programa, jul. 1988.
  • COUTINHO, Valdi. O nó do profissionalismo. Jornal de Artes Cênicas, Rio de Janeiro, ano 1, n. 4, p. 26-27, jan./ fev. 1989.
  • CURSO DE FORMAÇÃO DO ATOR/ UFPE. Vestido de noiva. Direção João Denys. Recife, Teatro Joaquim Cardozo, programa, jul/ dez. 1988.
  • DENYS, João. De Ubu rei às Bacantes: uma usina de sonho, razão e paixão. Revista ArteComunicação, Recife, ano 3, n. 4, p. 101-134, 1997.
  • DENYS, João. João Denys. Recife: [s.n.], 20 maio 2009. Depoimento concedido a Antonio Cadengue e Igor de Almeida Silva.
  • DENYS, João. Uma osteossíntese da paixão. In: CURSO DE FORMAÇÃO DO ATOR/ UFPE. VESTIDO DE NOIVA. Direção João Denys. Recife, Teatro Joaquim Cardozo, programa, jul/ dez. 1988.
  • GUSMÃO, Flávia de. Entre a alucinação e a realidade. Jornal do Commercio, Recife, 29 jul. 1988. Caderno C, p. 1.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • VESTIDO de Noiva. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento394066/vestido-de-noiva>. Acesso em: 16 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7