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As Lágrimas Amargas de Petra von Kant

  • Análise
  • Ficha Técnica
  • Histórico

    A montagem do Teatro dos Quatro, com direção de Celso Nunes (1941), vale a já consagrada atriz Fernanda Montenegro (1929) um dos maiores triunfos de sua carreira e marca a estréia do texto de Fassbinder em um espetáculo de grande êxito artístico.

    A personagem Petra von Kant é uma figurinista de alta costura esmagada por sua paixão não correspondida por uma jovem de nível social e cultural inferior. Essa trama pode ser interpretada como metáfora do confronto entre a nova e a velha Alemanha. O texto tem, exclusivamente, personagens femininas: a mãe e a filha da protagonista, além de sua criada. Aliando delicadeza e sensibilidade na abordagem emocional da peça com um cuidadoso tratamento plástico, o diretor Celso Nunes valoriza a personagem de Marlene, a criada muda. Interpretada, soberbamente, pela bailarina e atriz Juliana Carneiro da Cunha (1949), ela exprime os sentimentos que Petra recalca.

    Considerando que o espetáculo proporciona ao público "revelação extraordinária", o crítico Sábato Magaldi (1927) observa que a platéia "se emociona, se subjuga, vive uma das experiências fundamentais de sua existência".1 Segundo o crítico, este fenômeno se deve à atriz Fernanda Montenegro e à encenação centrada em seu desempenho. O crítico Macksen Luiz (1945) descreve os matizes da interpretação da atriz, no intuito de mostrar que sua riqueza não permite enquadrá-la no tempo: "Nada mais contemporâneo do que seu domínio corporal. (Na cena em que Petra discute com a amante, a repulsa de um contato físico é sugerida com um leve, mas marcante, movimento de corpo para trás). Nada mais surpreendente do que os prodígios que consegue fazer com a sua voz. (No meio do choro e do desespero de Petra ao confessar a sua ligação homossexual à sua mãe e à sua filha projeta a voz com um gama de modulações que vai do sussurro ao grito). Nada mais vanguardista do que a forma como revela à platéia a sua técnica de trabalho. (Fernanda se prepara para a cena final à frente do público, saindo do mais denso desespero para um espelho, diante do qual se penteia, se veste e caminha até um divã. As mudanças de climas dramáticos se fazem de frente e sem truques para a platéia)".2

    Além da técnica, o crítico observa a ética de trabalho da atriz, que não se isola em cena:

    "Nos momentos mais densos, quando tem diante de si a atriz Renata Sorrah (1947), Fernanda, visivelmente, troca sua emoção com a companheira de cena, numa integração que somente a humildade de se saber uma profissional de gabarito e consciente poderia gerar".3

    Notas

    1. MAGALDI, Sábato. Lágrimas amargas: encontro privilegiado com Fernanda. Jornal da Tarde, São Paulo, 13 abr 1984.

    2. LUIZ, Macksen. Um monstro cada vez mais sagrado. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 ago. 1982. Caderno B, p. 3.

    3. Ibid.

     

  • Autoria
    Fassbinder

    Tradução
    Millôr Fernandes

    Direção
    Celso Nunes

    Cenografia
    Celso Nunes

    Figurino
    Kalma Murtinho

    Iluminação
    Aurélio de Simoni
    Luiz Paulo Nenen

    Elenco Personagem Premiação
    Christiane Torloni Karin - substituição 1984  
    Fernanda Montenegro Petra Prêmio Molière Especial e Prêmio Mambembe
    Joyce Oliveira Valéria  
    Juliana Carneiro da Cunha Marlene  
    Paula Magalhães Gaby  
    Renata Sorrah Karin  
    Rosita Thomaz Lopes Sidonia  

    Produção
    Teatro dos Quatro

Fontes de Pesquisa

AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT. Direção Celso Nunes. Rio de Janeiro, 1982. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro dos Quatro em agosto de 1982.

AS LÁGRIMAS Amargas de Petra von Kant. Rio de Janeiro: Funarte / Cedoc. Dossiê Espetáculos Teatro Adulto.

LUIZ, Macksen. Um monstro cada vez mais sagrado. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 ago. 1982. Caderno B, p. 3.

MAGALDI, Sábato. Lágrimas amargas: encontro privilegiado com Fernanda. Jornal da Tarde, São Paulo, 13 abr 1984.