Artigo da seção eventos A Morte de um Caixeiro Viajante

A Morte de um Caixeiro Viajante

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioA Morte de um Caixeiro Viajante: 07-08-2003
Local de realização: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Instituição de realização: Teatro João Caetano (Rio de Janeiro, RJ)
Tipo do evento: espetaculo | Classificação do evento: a classificar

Histórico

A encenação de Felipe Hirsch (1972), para a peça de Arthur Miller (1915-2005), alia a experimentação visual do diretor com o valor da palavra. Destacam-se no espetáculo a cenografia de Daniela Thomas (1959) e o entrosamento entre os atores Marco Nanini (1948) e Juliana Carneiro da Cunha (1949).

Nanini trabalha com Hirsch pela primeira vez em 2002, no provocativo espetáculo Os Solitários, de Nicky Silver. Agora, veste o paletó de Willy Loman, papel que já foi defendido por atores como Jaime Costa (1897-1967) e Paulo Autran (1922-2007). A personagem protagonista é um pai de família que encerra em sua história pessoal a bancarrota do sonho de parte da classe média norte-americana no final dos anos 1940, no pós-guerra.

No início do século XXI, a obra provoca ainda mais estilhaços, devido ao sentimento antiamericano mundo afora. No entanto, as contradições morais e o fracasso material do vendedor Willy Loman dizem hoje mais sobre sua condição humana e menos sobre leituras ideológicas. A dimensão trágica está impressa na trajetória de um iludido cidadão comum.

Loman está com 60 e poucos anos. Ele quer trocar a vida de caixeiro-viajante por alguma estabilidade. A profissão perde o prestígio nas primeiras décadas do século XX, quando todos buscam o sonho americano de sucesso a qualquer custo. A realidade muda. Não é mais possível manipulá-la como Loman sempre fizera, adaptando-a conforme os seus anseios, os da mulher Laura (interpretada por Juliana Carneiro da Cunha) e os dos filhos Biff e Happy, também vítimas da irrealidade cotidiana.

Ao longo de 'dois atos e um réquiem', Arthur Miller desconstrói Loman e também a estrutura dramática convencional. O autor rompe a linearidade narrativa e instaura a fragmentação da memória. Não existem 'muros' de tempo e ação; os flashbacks são evocados pelo protagonista em consonância com o presente que avança para um desfecho fatal.

Hirsch concebe o espetáculo como se as últimas 24 horas de Loman se passassem num átimo de segundo ante a morte anunciada do velho caixeiro. Apesar de escrito há mais de meio século, o texto de Miller se encaixa como uma luva nas pesquisas cênica e dramatúrgica do encenador e da Sutil Companhia de Teatro em torno de peças nas quais a memória é o fio condutor.

A tradução utilizada é a de Flávio Rangel (1934-1988), feita nos anos 1960 e dirigida por ele em duas ocasiões, 1962 e 1977.

A atuação de Juliana Carneiro da Cunha constitui rara oportunidade de vê-la em palcos brasileiros. Desde 1990, ela pertence ao Théâtre du Soleil, grupo da encenadora Ariane Mnouchkine com sede em Paris. Juliana Carneiro e Marco Nanini não contracenavam desde 1984, quando protagonizaram Mão na Luva, drama conjugal de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), o Vianinha, com direção de Aderbal Freire-Filho (1941).

Sobre o reencontro, o crítico Alberto Guzik (1944-2010) anota: "(...) nos papéis centrais, Marco Nanini e Juliana Carneiro da Cunha transformam esse espetáculo em uma aula de teatro. Nanini desenha Willy com minúcias de ourives. Consegue pôr em cena o tipo sonhador e insignificante que Arthur Miller imaginou. Em sua atuação, o intérprete captura a grandiosidade dos pequenos. (...) Juliana Carneiro da Cunha, por sua vez, projeta Linda Loman para as alturas. Atriz consumada, dona de presença cênica gigantesca, Juliana leva Linda a crescer, na mesma proporção em que Willy encolhe. Essa grande artista mostra cada frincha, cada brecha de sensação que Linda atravessa em seu difícil percurso. Sua interpretação pega o espectador de assalto e vai ao longo da ação ampliando a estatura da personagem, alargando os horizontes dessa pobre mulher desiludida que, essa sim, faz frente à situação com a bravura, a grandeza e a energia de uma heroína da tragédia grega. A voz poderosa de Juliana, sua intensidade, seu olhar vibrante hão de permanecer por longo tempo na memória do espectador deste trabalho, que no todo e por direito próprio, é memorável".1

Notas

1. GUZIK, Alberto. In: Aplauso Brasil. São Paulo: Portal iG, 2003.

Ficha Técnica do evento A Morte de um Caixeiro Viajante:

Fontes de pesquisa (2)

  • A MORTE de um Caixeiro Viajante. Programa do espetáculo. Rio de Janeiro, 2003.
  • GUZIK, Alberto. In: Aplauso Brasil. São Paulo: Portal iG, 2003. 

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Morte de um Caixeiro Viajante. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento389650/a-morte-de-um-caixeiro-viajante>. Acesso em: 17 de Ago. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7