Artigo da seção eventos Arte e Sociedade: uma relação polêmica

Arte e Sociedade: uma relação polêmica

Artigo da seção eventos
Artes visuais  
Data de inícioArte e Sociedade: uma relação polêmica: 16-04-2003 | Data de término: 29-06-2003
Local de realização: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Instituição de realização: Itaú Cultural
Tipo do evento: exposicao | Classificação do evento: Coletiva
Imagem representativa do artigo

Varredores , 1935 , Carlos Prado
Reprodução fotográfica Fábio Praça

Histórico

A exposição Arte e Sociedade: Uma Relação Polêmica é realizada no Instituto Itaú Cultural, entre 15 de abril e 29 de junho de 2003, com curadoria de Aracy Amaral (1930). Tem como ponto central as relações ora amistosas ora conflitantes entre arte e situação política e social no Brasil. O recorte temporal da mostra percorre da década de 1930 ao início dos anos 2000. Com cerca de 240 obras, exibe pinturas, esculturas, vídeos, objetos, desenhos, mail art, instalações, registros de performances e filmes de quase cem artistas. Entre eles, Anna Bella Geiger (1933), Antonio Manuel (1947), Candido Portinari (1903-1962) e Carmela Gross (1946)

Como afirma a curadora no catálogo, a exposição tem como proposta a circunstância política ou como os artistas traçam a relação entre suas práticas e meio em que vivem: “No século XX quase todos os artistas, em algum momento ou período de sua trajetória, foram tocados pelo instante em que viveram ou vivem, e criaram obras motivadas pela circunstância política e/ou social de seu tempo”1.

A exposição busca apresentar aspectos deste fenômeno na arte brasileira a partir de 1930, sem pretensões de esgotar o tema. Artistas como Tarsila do Amaral (1886-1973), Lívio Abramo (1903-1992) e Di Cavalcanti (1897-1976), cada um a seu modo e em diferentes fases de suas trajetórias, expressam preocupação social nas poéticas que caracterizam suas obras. É o momento da Guerra Civil Espanhola, no plano internacional, e do Governo Vargas, no Brasil. Já Portinari, a partir de meados dos anos 1930, “encarna o artista comprometido com a realidade brasileira”2. Influenciado pela produção do artista mexicano Diego Rivera (1886-1957), em um primeiro momento, o artista aborda as condições miseráveis dos trabalhadores brasileiros, imersos em cenário socioeconômico frágil. É o caso da tela Café (1935), presente na mostra, na qual a figura humana adquire formas robustas, com agigantamento de mãos e pés, recurso que reforça a ligação do personagem com o mundo do trabalho e da terra.

Outro destaque são as obras dos artistas que participam dos clubes de gravura fundados no país na década de 1940. Influenciados pelas artes gráficas chinesa e mexicana e tendo Carlos Scliar (1920-2001) como figura central, esses clubes marcam uma produção importante no Brasil. Sem dúvida, o mais duradouro é o Clube de Gravura de Porto Alegre, com grande número de associados, que recebem regularmente uma gravura em troca da subscrição. A produção de Abelardo da Hora (1924-2014), à frente do Atelier Coletivo, no Recife, também faz parte da mostra. “A temática sempre se manteve próxima à focalização de cenas de trabalhadores ou de movimentos de reivindicação (como no caso dos clubes de gravura sob a liderança de Scliar, com os artistas gaúchos)”3.

A exposição perpassa dois coletivos de artistas importantes para o cenário artístico nacional, atuantes entre os anos 1930 e 1940: a Família Artística Paulista e o Núcleo Bernardelli. Este, sediado no Rio de Janeiro, tem José Pancetti (1902-1958) e Milton Dacosta (1915-1988) como artistas participantes da mostra. Segundo a curadora, “move-os a temática de sua vida corrente, cenas de trabalhadores em seus afazeres, autorretratos, retratos de colegas em trabalho de ateliê, paisagens dos arredores de centros urbanos”4.

Também são exibidas obras que marcam a chegada do abstracionismo ao Brasil e a difícil relação dele com a arte figurativa brasileira em fins dos anos 1940. O término da Segunda Guerra Mundial coincide com a emergência de uma nova geração de artistas. Há a confluência de uma pintura expressionista, como é o caso de Marcelo Grassmann (1925-2013), e o início de uma pintura abstrata, influenciada pela arte concreta, como é o caso das produções de Luiz Sacilotto (1924-2003) e Geraldo de Barros (1923-1998). As obras desses artistas estão presentes na mostra, em um núcleo que aponta o caminho da arte moderna no Brasil. Este caminho passa pela institucionalização da arte, com a fundação de museus de arte moderna e da primeira edição da Bienal de São Paulo (1951).

Parte substancial da exposição é dedicada à produção artística do período de ditadura militar. Como escreve Aracy Amaral, “é um tempo em que o artista – como os intelectuais e os universitários – passa a olhar seu entorno e a desejar participar vivamente dos eventos. Com a implantação do regime militar no Brasil em fins de março de 1964 ocorre outra realidade, difícil de entender nos dias de hoje: a existência da censura, a dificuldade de livre expressão, o cerceamento de liberdades elementares, o exílio e mesmo o patrulhamento de atitudes de personalidades do meio artístico ou universitário”5. O corpo torturado, vitimado, desaparecido, despedaçado é referente para essas obras. É também o momento em que a arte brasileira sofre influência da pop art em meio ao conturbado panorama político. Dois artistas colocam-se nesse quadro de forma especial: “Carlos Vergara e Rubens Gerchman trazem à tona cenas do cotidiano urbano com imagética marcante em suas contribuições” [6]. A geração dos anos 1960 e 1970, de modo geral, encaminha sua produção rumo à arte conceitual e ao confronto com a ditadura, expondo as contradições e a violência do Estado contra o cidadão.

O último núcleo da mostra dedica-se à redemocratização do país e ao aumento da violência urbana no fim do século XX. Questões ambientais também se tornam uma preocupação da sociedade. Nesse contexto, destacam-se as obras de Carmela Gross e Nuno Ramos (1960), que refletem, direta ou indiretamente, sobre a violência e a exclusão social.
 

Notas

1 AMARAL, Aracy. Arte e sociedade: uma relação polêmica. São Paulo: Instituto Itaú Cultural, 2003, s/p.
2 Idem, ibidem.
3 Idem, ibidem.
4 Idem, ibidem.
5 Idem, ibidem.
6 Idem, ibidem.

Ficha Técnica do evento Arte e Sociedade: uma relação polêmica:

Obras de Arte e Sociedade: uma relação polêmica: (16) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (2)

  • ARTE e sociedade: uma relação polêmica. Curadoria Aracy Amaral. São Paulo: Itaú Cultural, 2003.
  • ARTE e sociedade: uma relação polêmica. Curadoria Aracy Amaral. São Paulo: Itaú Cultural, 2003.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ARTE e Sociedade: uma relação polêmica. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento356680/arte-e-sociedade-uma-relacao-polemica>. Acesso em: 19 de Jan. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7